O Psicólogo Responde: há risco de dependência emocional em relação ao psicólogo? - TVI

O Psicólogo Responde: há risco de dependência emocional em relação ao psicólogo?

    Tiago Pimentel
    Psicólogo e membro da Direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
  • 14 dez 2025, 10:00
O Psicólogo Responde

A relação terapêutica é um dos fatores mais poderosos para o sucesso da psicoterapia. A confiança, a segurança e a empatia criam um espaço onde o paciente pode explorar vulnerabilidades profundas. Mas esta proximidade pode levantar uma dúvida legítima: pode alguém tornar-se emocionalmente dependente do psicólogo, tal como acontece com certos medicamentos?

Embora as naturezas destes dois tipos de dependência sejam diferentes, existe espaço para clarificar riscos, mecanismos e práticas preventivas.

O que é dependência emocional na terapia

A dependência emocional ocorre quando o paciente sente que só consegue funcionar, tomar decisões ou regular emoções na presença ou validação do psicólogo. Não se trata de afeto saudável pela relação terapêutica, mas de uma espécie de “apoio indispensável” que impede o avanço da autonomia.

Este fenómeno é raro em contextos terapêuticos bem conduzidos, mas pode surgir em fases específicas do processo, sobretudo quando o paciente atravessa períodos de elevada vulnerabilidade.

Estes períodos de maior vulnerabilidade no processo – como momentos de crise, luto, separação ou grandes mudanças – podem aumentar temporariamente a necessidade de apoio, sem que isso constitua dependência patológica.

A ciência psicológica vê estes sinais não como um problema em si, mas como material clínico relevante, que pode ser trabalhado para promover autonomia, reforçar fronteiras internas e reconstruir o sentido de autoeficácia do paciente.

Diferenças entre dependência emocional e dependência de medicamentos

A dependência de medicamentos envolve mecanismos neuroquímicos — tolerância, abstinência e necessidade fisiológica — que não estão presentes na psicoterapia.

Na terapia, o “risco” está mais ligado à dinâmica relacional e a padrões emocionais pré-existentes do paciente, como baixa autoestima, medo de abandono ou dificuldades de regulação emocional.

Ou seja, não existe dependência no sentido químico, mas sim uma possível manutenção de padrões relacionais que o próprio processo terapêutico procura transformar.

Quando a relação terapêutica se torna um risco

A relação terapêutica pode tornar-se um risco quando o paciente passa a ver o psicólogo como única fonte de validação ou conforto, evitando tomar decisões fora das sessões e desenvolvendo ansiedade significativa entre encontros ou necessidade frequente de contacto. Em alguns casos, pode surgir idealização persistente da figura do terapeuta ou uma manutenção da terapia sem progresso clínico claro. Estes sinais não significam necessariamente falha terapêutica, mas indicam que a relação precisa de ser compreendida e trabalhada de forma ativa, para que não substitua a autonomia que a terapia deve promover.

Como a ciência psicológica previne a dependência

Modelos terapêuticos baseados em evidência colocam a autonomia como objetivo central. Para isso, utilizam:

  • Contrato terapêutico claro: define objetivos, limites e papéis.
  • Psicoeducação: ajuda o paciente a compreender emoções e desenvolver competências de autorregulação.
  • Fading de suporte: ao longo do tempo, o terapeuta reduz gradualmente a direção, incentivando autonomia.
  • Exploração de padrões relacionais: muitas dependências surgem de vínculos inseguros; a terapia ajuda a ressignificá-los.
  • Supervisão clínica: garante qualidade e evita relações assimétricas inadequadas.

Em suma, não existe dependência ao psicólogo comparável à dependência química de medicamentos. Porém, podem surgir padrões relacionais de dependência emocional, especialmente em contextos de grande vulnerabilidade.

A boa prática clínica, baseada na ciência, trabalha precisamente no sentido oposto: promover autonomia, fortalecer competências emocionais e capacitar o paciente para caminhar sem o terapeuta.

Quando bem conduzida, a psicoterapia não aprisiona — liberta.

VEJA TAMBÉM:

Continue a ler esta notícia