«São todos muito queridos, humildes, trabalhadores e isto é uma família. Eu gosto muito de estar aqui, gosto muito deles. Se apreciar daqui a bocado, eles começam a chegar e dizem: “Ó dona Olga, ó dona Olga…”. É uma festa».
O relógio está perto das 18 horas. É final de tarde e, no Estádio Municipal de Celorico de Basto, há jovens da formação do Celoricense a treinar no campo, antes da equipa principal, que prepara um dos maiores jogos da história do clube. O FC Porto, na Taça de Portugal.
Nas traseiras de uma das balizas, junto ao edifício que compreende balneários, gabinetes, ginásio e outras valências, Olga Maria, 56 anos, recolhe dezenas de toalhas que secaram no estendal. Carrega-as para a lavandaria, coração da sua atividade.
Ali, todos a tratam carinhosamente por «dona Olga»: jogadores, treinadores, diretores ou adeptos. É a roupeira do clube. Camisolas, calções, meias, toalhas para os jogadores… tudo passa pelas suas mãos. Entre cestos a preparar para a equipa principal.
Porta dentro na lavandaria, encontramos máquinas de lavar, um tanque e tudo o que é roupa. Por ali vão passando atletas para levantar material. Sem que falte uma palavra, um aperto de mão, um beijinho ou um abraço a Olga.
É terça-feira, faltam quatro dias para o jogo com o FC Porto e Olga prepara os cerca de 30 cestos para o treino da equipa principal. Num pequeno anexo da lavandaria, uma inscrição na parede chama a atenção: «D. Olga» e um coração. «Foi o 13, o Carlos Mendes, uma homenagem», explica, ao Maisfutebol, a celoricense que voltou ao clube no ano passado. No total, já são cerca de cinco anos de clube.
«Eu fazia limpeza nos escritórios de um senhor que ficou como diretor e ele convidou-me, se eu queria fazer aqui o ano que ele esteve. Aceitei e no ano seguinte também fiquei, gostei da direção e no ano depois desse, já não quis. Voltei no ano passado e agora este ano», conta. Já lá vão quase dois anos após o regresso.
Entre casas, escritórios e o Celoricense
O dia a dia de Olga é em torno das limpezas. Acorda bem cedo e acaba já ao anoitecer. Além do Celoricense, trabalha em casas e escritórios.
«O meu dia a dia é 24 sobre 24, praticamente. Ponho-me a pé de madrugada, faço casas de alojamento/turismo, escritórios ao fim de semana e aqui no clube». No Celoricense, tanto adianta tarefas de manhã, como à tarde. «Venho de manhã cedo preparar roupas para lavagem e secagem e, ou faço seguido, ou venho à tarde para abrir e pôr cestos prontos para os jogadores. Tenho de tratar 30 cestos todos os dias, para jogadores e treinadores da equipa principal. Da formação, há uma peça ou outra que os meninos pedem, que se esquecem. E no fim de tudo deixo as máquinas a trabalhar e vou descansar», descreve.
Lavar, secar, dobrar, entregar. Olga já está familiarizada com os hábitos e roupas de cada um. «Não preciso de andar à toa com eles, procuro fazer o meu melhor e ajudá-los no que for preciso», garante.
«Gosto de azul e branco, mas mais do meu Celoricense»
A semana é diferente, há centenas de pessoas em torno do estádio a fazer fila para a bilheteira e, do balneário ao campo, as conversas vão dar ao jogo com o FC Porto. Olga, que será mais um coração a torcer pelo seu Celoricense em Barcelos, não fica indiferente. E não esconde gostos.
«Isto é muito bom. E este jogo… eu por acaso gosto de azul e branco (risos), mas mais do meu Celorico. Do meu Celoricense. Eles merecem e é muito bom para o concelho e para o clube. É uma adrenalina. Há um bocadinho mais de esforço, de trabalho, mas compensa, dá gosto estar aqui. É uma semana diferente, mais stress, mais empenho. Para mim também é uma novidade, porque traz mais alegria para o concelho, mais gente. Atrai e é bom», afirma.
E é possível fazer uma surpresa? «Olhe, a bola é redonda, não é? Sabemos que o FC Porto é o FC Porto, uma equipa importante a nível mundial. Mas eu acredito muito no meu Celorico e nos meus jogadores. Penso que vão fazer um bom jogo e vai ser muito bonito.»
A surpresa do plantel… e a bolacha
E, falando em surpresas, Olga teve uma especial em março. O plantel da época passada juntou-se e ofereceu-lhe um par de sapatilhas, pela sua dedicação ao clube e aos jogadores. «Uns pneus novos», disse ela, na ocasião.
«Fizeram-me uma surpresa bonita no estádio entre jogadores e treinadores. Eu não estava à espera, foi muito giro e eu nunca desconfiei. Malandros (risos). Este ano ofereceram-me uma prenda, mas mais particular, no balneário. É o que eu digo: são os meus meninos», atira.
E na surpresa não faltou a menção às bolachas… as que dona Olga ainda hoje coloca como um docinho para o plantel. «Alguns jogadores são de longe, às vezes meto umas maçãs, umas bolachinhas e eles ficam sempre contentes. Eles merecem. São todos jogadores, mas são todos trabalhadores. Além do trabalho deles - que a maioria trabalha e estuda - isto é muito importante, principalmente, para o clube e para o concelho».