Há cada vez mais restaurantes a pedirem gorjeta aos clientes. "É um forcing para que continue esse incentivo" - TVI

Há cada vez mais restaurantes a pedirem gorjeta aos clientes. "É um forcing para que continue esse incentivo"

  • ECO - Parceiro CNN Portugal
  • , Joana Morais Fonseca
  • 11 mar 2023, 16:22
Restauração (Getty Images)

Ao ECO, as empresas justificam a decisão com base no "grande peso" que as gorjetas têm nos salários dos funcionários do setor, bem como por ser uma forma mais "justa e transparente" de as distribuir

Ao contrário de outros países, em Portugal as gorjetas não são obrigatórias. Ainda que seja pouco comum, há cada vez mais restaurantes a sugerirem uma gratificação aos clientes, independentemente do método de pagamento. Ao ECO, as empresas justificam a decisão com base no “grande peso” que as gratificações têm nos salários dos funcionários do setor, bem como por ser uma forma mais “justa e transparente” de as distribuir. Já os clientes apontam como critério a qualidade do serviço.

“Na consulta de mesa é sugerida uma gratificação de 5% face ao total da conta e excluindo IVA. Esse valor é válido, e universal, para os consumos de comidas e bebidas, sendo independente do meio de pagamento utilizado pelo cliente”, explica o diretor de operações do grupo PHC Hotels, ao ECO. Miguel Andrade sublinha ainda que “o cliente tem toda a liberdade de não aceitar a sugestão”, pelo que, nesse caso “a mesma já não surgirá na fatura”.

A medida começou a ser implementada em agosto do ano passado, tendo como objetivo a “melhoria das condições” dos colaboradores, já que as gorjetas “sempre tiveram um grande peso na composição do rendimento total dos colaboradores”, e de modo a permitir uma distribuição “mais justa e transparente” das mesmas, justifica o responsável.

A totalidade dos valores cobrados é dividida entre todos os funcionários, incluindo o pessoal da cozinha, e “é efetuada no final do mês e paga por transferência bancária, juntamente com o salário”, denota ainda o diretor de operação do grupo que detém o Hotel Mundial e o Portugal Boutique Hotel. Por enquanto, a modalidade é sugerida apenas nos espaços de restauração, mas o grupo pondera “alargar aos alojamentos um método idêntico”, já que a recetividade dos clientes “tem sido bastante positiva”, afirma Miguel Andrade.

Este não é caso único. Também o grupo Plateform, que detém os restaurantes Honorato, Sala de Corte, Honest Greens, entre outros, pratica este método em alguns estabelecimentos. “Este processo teve início em meados de 2022 e foi faseado”, adianta fonte oficial do grupo ao ECO, referindo que a sugestão consta “no ticket da conta”, independentemente do método de pagamento utilizado. À semelhança do grupo PHC Hotels, a medida visa “a uniformização e distribuição equitativa das gratificações por todos os colaboradores”, independentemente “da função e da responsabilidade de cada um”.

Apesar de sublinharem que na fase de testes “houve um aumento no valor das gratificações recebidas”, atualmente a recetividade dos clientes tem sido “variável”, dado que “para alguns clientes é uma situação nova”. Assim e tal, como referido pelos grupos PHC Hotels e Plateform, e ao contrário de outros países, como é o caso dos Estados Unidos, a decisão fica a cargo do consumidor.

“No limite, tal exigência apenas poderá ocorrer se o consumidor for antecipadamente informado, através do preçário, já que apenas nessa circunstância existe obrigação de pagamento”, realça Sofia Lima, especialista em assuntos jurídicos da Deco Proteste, ao ECO. Mas nesse caso, o consumidor deve ser informado previamente.

Já a Direção-Geral do Consumidor lembra, que, neste caso, as gorjetas são tributadas em sede de IRS. “De acordo com o Código de IRS, no seu artigo segundo, as gratificações são consideradas rendimentos da categoria A (rendimentos de trabalho dependente)“, esclarece fonte oficial ao ECO. As duas entidades garantem não ter recebido quaisquer reclamações sobre esta prática.

O que dizem os clientes?

Há ainda poucos clientes a assinalarem que foram abordados com esta sugestão, apesar de sublinharem que têm por hábito deixar uma gorjeta, caso o serviço assim o justifique. “Se achar que fui bem servida e que justifica, dou. Quando acho que não justifica, não dou“, atira Susana Lopes, de resposta pronta, enquanto espera para ser atendida num restaurante do Cais do Sodré.

Ao ECO, a cliente confirma que “alguns estabelecimentos já têm o terminal de multibanco preparado” com este pedido de gratificação, mas sublinha que só acede se tiver a garantia que o valor será dividido por todos os funcionários. “A geração nova tem menos a tendência de deixar gorjeta, então os comerciantes fazem isto no sentido de dar um forcing para que continue esse incentivo de gorjetas. No fundo, para colmatar os baixos salários que pagam na restauração“, conclui.

Em 2022, o salário médio bruto mensal por trabalhador cresceu para 1.411 euros. Porém, em termos reais — isto é, se for tido em conta o impacto da inflação – encolheu 4%, ainda que o setor da restauração esteja entre os que registaram os maiores crescimentos.

Também Daniel Fernandes admite já ter sido confrontado com esta abordagem, mas apesar de sublinhar que costuma “dar um ou dois euros” quando gosta do atendimento, o jovem critica o método. “Não acho bem. Parece que estão a impor a gorjeta. Eu só dou a gorjeta se quiser e bem entender. Aquilo até me tira a vontade de querer dar“, riposta, ao ECO, junto a um restaurante na Avenida 24 de julho.

Certo é que, para já, a maioria dos clientes ouvidos pelo ECO afastam a hipótese de este método vir a tornar-se obrigatório. “Acho que não deve ser obrigatório. Vai do bom-senso de cada um… Já me aconteceu ir a certos sítios, não gostar do atendimento e não deixar gorjeta”, sublinha Nelson Cuco. Já Cátia Celestino admite que as gorjetas possam ser “uma forma de ajudar a compensar” os salários na restauração, mas afasta qualquer obrigatoriedade.

Opinião diferente tem Vítor Ferreira. “Apesar do nível de vida estar pior, pelo menos, seria uma maneira de gratificar o empregado”, aponta o reformado, enquanto lê o jornal num quiosque à frente da estação de metro do Cais do Sodré”, sugerindo, que poderia “ser estipulado um valor, por exemplo, 5% da fatura“, remata.

O ECO contactou ainda outros restaurantes que implementarem esta medida, como a Mercantina, o Zunzum Gastrobar e o Contra Lisboa, mas até ao fecho do artigo não foi possível obter resposta.

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