A família Espírito Santo cultivou as relações certas e moveu interesses nos meandros económicos e políticos como ninguém. Mas de onde vem afinal a fortuna e o poder dos Espírito Santo? Que segredos esconde esta família?

Uma família que veio do nada, mas rapidamente subiu à mais alta roda da sociedade portuguesa, e foi lá do alto, que caiu com estrondo.

Tudo começou em 1850 com José Maria do Espírito Santo Silva. Filho de pais incógnitos, quem o levou ao batizado foi a parteira. O primeiro elemento do clã terá recebido o nome de Maria, por ter nossa senhora como madrinha de batismo, os nomes Espírito Santo foram acrescentados no crisma, e Silva, alegadamente do pai, que por razões sociais não assumiu a paternidade e que se especula que tenha sido o conde de Rendufe.

Terá sido uma doação anónima que recebeu ainda muito novo, que lhe permitiu lançar um negócio. Aos 19 anos, José Maria do Espírito Santo Silva, bisavô de Ricardo Salgado e de José Maria Ricciardi, abriu uma casa de câmbios na calçada dos paulistas, hoje Calçada do Combro, em Lisboa, e fez sucesso a vender cautelas e lotarias. Mas só em 1911 encontrou aquela que viria a ser a verdadeira vocação da família. Com 61 contos comprou a Caza Bancária, que rebatizou com o nome JM Espírito Santo Silva. Acumulou fortuna significativa e deixou uma herança importante aos herdeiros, que quando formam a casa Espírito Santo já eram uma das famílias mais ricas da cidade.

Em 1920 foi, então, fundado o Banco Espírito Santo (BES). 

Em 1933, quando começou o Estado Novo, estava Ricardo Espírito Santo, avô de Salgado e de Ricciardi, à frente do BES e rapidamente se tornou no principal conselheiro económico de António Oliveira Salazar. É durante os primeiros anos do Estado Novo que a família comprou a companhia de seguros Tranquilidade e que o BES se juntou ao Banco Comercial de Lisboa e passou a BESCL. Foi desta união que também se criou a ligação entre as famílias Queiroz Pereira e Espírito Santo.

Quando chegou o 25 de Abril, já era presidente do BES Manuel Ricardo, primo de Salgado, mas a revolução só chegaria ao BESCL em março de 75. O general António de Spínola lidera uma tentativa de golpe para repor a direita no poder e falha. A reação é imediata, um grupo de sindicalistas invade a sede do banco e no livro de honra deixam uma mensagem: aqui acaba o monopólio dos inimigos do povo. 

A família exila-se, Ricardo Salgado na Suíça, outros no Brasil e é na fase do exílio que Ricardo Salgado, com pouco mais de 30 anos, é incluído no grupo restrito de representantes do clã responsáveis pela reconstrução do império. 

Aos Espírito Santo eram apontados laços a algumas das famílias mais ricas do mundo como os Rothschild ou os Rockefeller, e parceiros abonados como o banco francês Crédit Agricole. 

A família e o grupo, que sempre se confundiram, reinventaram-se com a apoio do empresário José Roquette e por esta altura os interesses do grupo já se tinham espalhado a outros setores de atividade, como o imobiliário, turismo ou agropecuária, mas o sonho da família continuava a ser regressar a Portugal e recuperar o que tinha perdido com as nacionalizações.

Em Portugal, foi só nos anos 80, com Mário Soares no Governo, que voltou a ser permitida a iniciativa privada na banca. E com Cavaco Silva que os bancos nacionalizados foram reprivatizados. E foi nesta fase que Roquette e os Espírito Santo seguiram caminhos diferentes. O empresário, que já tinha regressado a Portugal mais cedo, avançou para a reprivatização do Totta e Açores, os Espírito Santo aguardaram pelo leilão do BESCL, em 91.

Ricardo Salgado era o escolhido para assumir a liderança dos negócios e a família recupera primeiro a Tranquilidade e depois o BESCL. Com Salgado à frente do banco, começa uma nova era, e aquela que sempre tinha sido a cultura do BES, começa a mudar. Uma mudança que para alguns foi o princípio do fim.

Ricardo Salgado assumiu um banco com uma quota de mercado de apenas 9% e durante as décadas seguintes fê-lo crescer até dominar quase um quarto do mercado. Mas o crescimento não foi só no setor financeiro. Nos anos 90 os Espírito Santo voltam a tomar posse da herdade da comporta, a maior propriedade privada do país: 12 mil hectares de terrenos, muitos dedicados à exploração agrícola, mas também dos mais cobiçados para construção e turismo. 

Ao crescimento vertiginoso do BES não foi indiferente a velha arte da família de tecer teias de ligações às elites económicas e ao poder político. A família vivia décadas de prosperidade, agora em democracia. Mas para os Espírito Santo os regimes parecem não importar… assim como as cores políticas. dão-se com todos, trabalham com todos… deles se diz que não são de esquerda nem de direita, pró-ditadura ou democracia, são apenas pró-dinheiro. Mas o poder paga-se caro. 

A crise financeira de 2008 e depois a crise da dívida pública em 2011 apanharam o grupo altamente endividado e o acerto das contas passou de difícil a impossível. No país as mudanças também eram grandes. O Governo de José Sócrates é forçado a pedir ajuda externa em abril de 2011 e meses depois as eleições legislativas ditam um novo governo: Sócrates sai de cena e Pedro Passos Coelho passa a ser o primeiro-ministro liderando um Governo de coligação entre PSD e CDS/PP.

No universo Espírito Santo, se por fora as contas das holdings do grupo pareciam em ordem, as aparências escondiam uma realidade bem mais negra. E foi nas reuniões do conselho superior, onde estão representados os cinco ramos da família, que a verdade começa a vir ao de cima. As gravações, tornadas públicas, revelavam o ambiente tenso entre os Salgado e Ricciardi e caia por terra a imagem de clã familiar unido que os Espírito Santo sempre tentaram manter.

Em plena crise, Ricardo Salgado ainda faz uma última tentativa e pediu ao Governo de Pedro Passos Coelho ajuda sob a forma de um empréstimo da Caixa Geral de Depósitos, mas ouviu um não do poder político, algo a que não estava habituado. 

As portas outrora escancaradas fecham-se, Ricardo Salgado é obrigado a deixar o BES em julho de 2014, mas já era tarde de mais. Dias depois, a 3 de agosto, o Banco de Portugal anunciava o fim de uma era. O BES deixava de existir, mas deixou uma fatura de mais de 8 mil milhões de euros ao Estado português.

Será o fim dos Espírito Santo como os conhecemos ou a família vai conseguir reerguer o império pela segunda vez? Ricciardi ainda acredita. Mas é dos poucos.

Paula Gonçalves Martins