Ricardo Salgado condenado a 13 anos de prisão mas fica em liberdade por "anomalia psíquica" - TVI

Ricardo Salgado condenado a 13 anos de prisão mas fica em liberdade por "anomalia psíquica"

Ricardo Salgado na chegada ao Campus de Justiça (LUSA/André Kosters)

Decisão sobre cúmulo jurídico das penas aplicadas ao antigo banqueiro deu como provado que Salgado não teria compreensão de uma pena de prisão efetiva. Se for necessário, "claro que processaremos o Estado português", admite defesa de Salgado

O Tribunal Central Criminal de Lisboa decretou esta terça-feira a condenação de Ricardo Salgado a 13 anos de pena suspensa no âmbito dos processos EDP e Operação Marquês. A decisão foi tomada após o Ministério Público ter defendido uma pena única entre 10 e 11 anos de prisão, mas com execução suspensa por causa do estado de saúde do antigo líder do Banco Espírito Santo. 

O tribunal deu ainda como provado o que vinha no relatório social, nomeadamente o facto de o ex-banqueiro não ter compreensão de uma pena de prisão efetiva.

A decisão surge depois de, em 2024, Salgado ter sido condenado a seis anos e três meses de prisão por crimes de corrupção no processo em que o antigo ministro Manuel Pinho também foi condenado por favorecer o Grupo Espírito Santo. E também depois de o antigo dono do BES ter sido condenado a outros oito anos de prisão, em 2022, no âmbito do processo separado da Operação Marquês por crimes de abuso de confiança.

À saída do Campus de Justiça, Francisco Proença de Carvalho, advogado de Salgado, garantiu que "hoje fez-se alguma justiça e a justiça não é só prender pessoas, nem é tortura". "Hoje foi um ato de justiça e cada pessoa fará essa avaliação", apontou. 

Proença de Carvalho admitiu ainda que a defesa de Salgado possa avançar com um processo contra o Estado. "Temos de refletir o que foi esta decisão e depois disso tudo é possível. Do que depender de nós, estaremos até ao limite da defesa daquilo que é inviolável que é a dignidade humana. E, se for necessário e se tivermos esse apoio, claro que processaremos o Estado português pelo que tem vindo a fazer com o nosso cliente".

O advogado sublinhou que desde o primeiro diagnóstico de Alzheimer a Salgado (em 2021) que esperava que "este fosse o resultado final" e salientou que o seu cliente foi "condenado sem capacidade de se autodefender". 

Apesar de ter ficado esta terça-feira definido o cúmulo jurídico das duas condenações anteriores, Ricardo Salgado continua a responder no megaprocesso do universo Grupo Espírito Santo e no processo principal da Operação Marquês, onde ainda responde por oito crimes de branqueamento de capitais e três de corrupção ativa. 

Agora, o seu advogado acredita que é tempo de avaliar o próximo passo junto da mulher de Salgado e da família mais próxima. "Hoje é um dia importante, que merece reflexão com a mulher do meu cliente e com a família mais próxima. O que partir daqui terá de ser avaliado nesse sentido", disse, salientando que vão "fazer uma reflexão muito séria sobre os processos que estão em curso e depois vamos tomar decisões que visem proteger a dignidade humana do nosso cliente".

A última perícia forense pedida pelo tribunal para determinar se Ricardo Salgado pode ou não cumprir as penas de prisão a que foi condenado concluiu que o ex-banqueiro está incapaz de compreender o porquê de cumprir pena. 

"Ainda que possa conservar uma compreensão muito genérica da existência de um processo judicial, tal será tão-somente a replicação mecânica de indicações de que está em contexto pericial, sem integrar a verdadeira noção axiológica do processo, nomeadamente a relação entre os factos e a pena, o motivo pela qual ela lhe é aplicada, a duração da mesma e a finalidade da sua execução", refere o documento datado de 11 de maio, citado pela agência Lusa.

De acordo com a perícia, Ricardo Salgado está "incapaz de gerir o seu quotidiano de forma independente num estabelecimento prisional", e, se for detido efetivamente, existe um "risco acrescido de desorganização, agravamento funcional, quedas e incapacidade de adesão à terapêutica e rotinas do quotidiano".

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