Este casal comprou uma quinta em ruínas em Portugal. Eis o que aconteceu a seguir (ou como Portugal é contado no estrangeiro) - TVI

Este casal comprou uma quinta em ruínas em Portugal. Eis o que aconteceu a seguir (ou como Portugal é contado no estrangeiro)

  • CNN
  • Tamara Hardingham-Gill
  • 23 jul 2023, 15:00
Alan Andrew e Vicent Proost no Alentejo Fotos CNN

A história de um americano e um belga que escolheram viver em Portugal tal como foi noticiada pela CNN Internacional. E que mostra como Portugal está a ser contado nos Estados Unidos, de onde vêm cada vez mais imigrantes.

Inicialmente, estavam apenas à procura de uma casa de férias. Mas Alan Andrew, originário da Pensilvânia, nos EUA, e o seu marido belga Vincent Proost, acabaram por mudar para Portugal a tempo inteiro depois de comprarem uma quinta abandonada na região do Alentejo.

O casal, que se conheceu num encontro às cegas em Londres em 2006, vivia no Reino Unido há quase duas décadas quando começou a procurar uma nova casa na Europa.

Embora nenhum dos dois tivesse passado muito tempo em Portugal anteriormente, Proost, um designer de interiores, sentiu que este poderia ser o lugar certo para eles e sugeriu que passassem algum tempo a explorar juntos o país.

“Para ser honesto, eu estava mais interessado num lugar como Itália”, diz Andrew à CNN. “Não conhecia bem Portugal.”

Depois de viajarem pelo país durante alguns meses, apaixonaram-se pelo Alentejo, no sul de Portugal, a cerca de 190 quilómetros da capital Lisboa, e decidiram procurar uma casa lá.

Projeto aventureiro

Alan Andrew e Vincent Proost compraram em 2019 uma quinta portuguesa degradada. Não conseguindo recuperar a casa, decidiram deitá-la abaixo e construir uma nova propriedade de raiz. (Foto Vincent Proost)

“Todas as direções têm uma bela vista", acrescenta Andrew, que trabalha como psicólogo educacional. “Para mim, é como uma mistura entre a savana africana e a Toscana.”

Alan e Vincent tinham visto cerca de 80 propriedades na zona, até que se depararam com uma quinta em ruínas situada na aldeia rural de Figueira e Barros.

Mas rapidamente se tornou claro que seria impossível recuperar a casa e que este se tornaria um projeto muito maior do que pretendiam. "Tinha sido abandonada durante cerca de 50 anos", explica Andrew. "Por isso, o telhado tinha desaparecido completamente”.

"A casa estava a desmoronar-se. Sabíamos que ia ter de ser construída de raiz.”

Perceberam que teriam de mudar-se permanentemente para Portugal para poderem mergulhar na construção e comprometerem-se totalmente a gerir uma quinta.

“De repente, tornou-se um projeto”, conta Proost. “E pensei, 'Ok, vamos mudar-nos'. E assim fizemos.”

“Construímos a casa de raiz mesmo antes da pandemia, o que foi uma aventura e tanto.”

Depois de comprarem a propriedade no verão de 2019, mudaram-se oficialmente para Portugal, arrendando uma casa nas proximidades enquanto finalizavam a venda e passavam pelo processo de obtenção de residência.

O casal também começou a reunir-se com arquitetos e construtores para elaborar planos para a sua nova casa antes de iniciar a construção. Decidiram começar por renovar o celeiro da propriedade, transformando-o numa “casa da piscina”, para poderem viver lá enquanto decorriam as obras.

Novos começos

Alan Andrew, originário dos EUA, e Vincent Proost, da Bélgica, têm uma vida completamente nova em Portugal e dizem que não podiam estar mais felizes. Foto Vincent Proost

Mas quando tudo começava a correr bem, surgiu a pandemia do Covid-19. Inúmeros países do mundo, incluindo Portugal, entraram em confinamento e o casal, que tinha sido convidado a sair da casa arrendada, viu-se sem ter para onde ir.

“Todos os hotéis estavam fechados”, explica Proost. “Tivemos de dormir numa tenda durante duas semanas”.

Acabaram por poder ficar no celeiro, embora inicialmente sem eletricidade, enquanto esperavam que as obras de renovação começassem.

Felizmente, o celeiro ficou concluído em poucos meses e continuaram a viver lá enquanto decorriam as obras na casa principal. A casa original da quinta foi deitada abaixo em setembro de 2020.

“Durante muito tempo, não conseguíamos sair da zona da nossa aldeia”, diz Andrew. “E tínhamos acabado de nos mudar para cá, por isso não conhecíamos ninguém”.

“Éramos praticamente só nós os dois, 24 horas por dia, 7 dias por semana, na quinta. De certa forma, era ótimo, porque tínhamos muito trabalho para fazer nos campos.”

A terra do casal abrange cerca de 30 hectares e inclui cerca de 1.500 oliveiras, que precisavam de ser podadas. E tinham também animais para tratar.

“É um espaço exterior tão grande”, diz Andrew. “Aqui há sempre distanciamento social”.

Os trabalhos de construção da casa abrandaram significativamente devido às restrições impostas pela Covid e o casal foi obrigado a ajustar as suas expectativas.

“Era suposto a construção durar um ano”, diz Proost. “Acabámos de terminar, o que representa quase três anos. Portanto, foi um pouco mais longo do que o planeado inicialmente.”

Casa de campo moderna

A nova casa do casal, chamada Casa Baio, tem a sua própria piscina, cinco quartos e um celeiro transformado em casa da piscina. Fotografia Duarte Bivar

A casa, a que deram o nome de Casa Baio, tem um sistema de aquecimento solar de água e está também equipada com painéis de eletricidade solar.

“Está muito bem isolada”, acrescenta Andrew. “Nas casas tradicionais antigas, as janelas são pequenas por causa do clima e agora, devido à tecnologia, podemos colocar janelas maiores.”

Tiveram de cumprir vários regulamentos e contactar as autoridades locais para garantir que a casa cumpria os requisitos especificados, particularmente no que diz respeito à altura e à localização dos edifícios.

“Não podíamos construir mais de dois andares”, explica Proost.

Apesar de descreverem a Casa Baio como uma “quinta moderna”, dizem que tentaram incorporar o maior número possível de materiais tradicionais locais, incluindo azulejos de barro feitos à mão, juntamente com ladrilhos de mármore local.

A casa principal tem cinco quartos e uma piscina exterior, enquanto a casa da piscina tem um quarto-estúdio com uma kitchenette.

Alan e Vincent não quiseram revelar o montante que gastaram na construção.

Proost diz que o que mais gosta na casa, que mede cerca de 800 metros quadrados, são as vistas.

“Comprámos a propriedade pelas vistas e pelo sossego e tranquilidade”, diz, acrescentando que gosta particularmente de ver o pôr do sol a partir das suas enormes janelas.

“É um andar, por isso não há andares superiores. Tudo é bastante plano. E é castanho. Mistura-se com as terras. Não se vê.”

A única parte da casa original que foi possível salvar foi o portão.

Agora, instalado e feliz em Portugal, o casal passa grande parte do seu tempo livre a tratar dos animais, incluindo galinhas e ovelhas, e a trabalhar nos seus campos de oliveiras.

“Nenhum de nós fazia ideia do que era a agricultura”, acrescenta Andrew. “Por isso, tivemos a sorte de conhecer um produtor de azeite português, que tem sido uma espécie de mentor para nos ensinar a fazê-lo.”

Também produzem o seu próprio azeite biológico, que ganhou prémios em vários concursos, incluindo o London International Olive Oil Competitions.

Andrew e Proost dizem que tentam usar práticas orgânicas regenerativas na quinta, que é certificada como orgânica.

“Tudo isso tivemos de aprender no local”, diz Andrew. “Não fazíamos a mínima ideia. Nesse sentido, tem sido uma grande aventura”.

“É uma espécie de aprendizagem de algo completamente novo. Não poderia ser diferente de Londres. É exatamente o oposto.”

Mudança de ritmo

A Casa Baio situa-se na aldeia de Figueira e Barros, na região do Alentejo, em Portugal. Fotografia Duarte Bivar

Agora que a casa está pronta e que já conhecem a zona, o casal sente-se em casa em Figueira e Barros, onde diz ter sido recebido de braços abertos pelos habitantes locais.

“Os portugueses são extremamente abertos”, diz Andrew. “Dois homens gays a viver numa quinta no interior de Portugal - não há problema”.

“Parece que querem mesmo que as pessoas venham para cá. Apreciam as pessoas que investem no país e tentam cuidar destas velhas quintas que estão a ficar arruinadas.”

Atualmente, a Casa Baio funciona como alojamento e pequeno-almoço, com quatro dos seus quartos com casa de banho privativa disponíveis para reserva por uma estadia mínima de duas noites.

A dupla tornou-se amiga de muitos habitantes locais - Andrew é membro do clube de corrida local - bem como de outros expatriados que se mudaram para Portugal.

“Assim que comprámos a casa, todos os vizinhos nos convidaram para jantar”, diz Proost. “As pessoas são simplesmente maravilhosas.”

No entanto, admitem que demoraram algum tempo a adaptar-se à mudança de ritmo, explicando que as coisas parecem andar muito mais devagar na região do Alentejo.

“Aqui toda a gente tem tempo”, diz Andrew. “Se estivermos no supermercado e estivermos na fila, é normal que o caixa tenha uma conversa de 10 minutos com a pessoa à nossa frente e ninguém se importa. É mesmo assim”.

A cidade mais próxima, Estremoz, fica a cerca de 30 minutos de carro.

Nos últimos anos, Portugal tornou-se um destino popular para os cidadãos americanos que procuram uma nova vida. De acordo com dados do Governo, o número de americanos a viver em Portugal aumentou 45% em 2021 em relação ao ano anterior.

Andrew e Proost dizem que notaram definitivamente um aumento na quantidade de pessoas dos EUA a mudarem-se para Portugal, particularmente no Alentejo.

“É uma região que ainda não foi descoberta, mas que está a ser descoberta agora”, diz Andrew. “Há muitos americanos que vêm da costa oeste da Califórnia para esta zona, porque o clima é muito semelhante ao da Califórnia".

Andrew salienta ainda que, durante anos, houve muito pouco desenvolvimento na região, pelo que “não há zonas demasiado desenvolvidas”.

“Foi provavelmente a região mais pobre de Portugal durante muito tempo e, por isso, não houve desenvolvimento”, acrescenta. “São aldeias portuguesas autênticas.”

Andrew explica que o sistema de “vistos gold” de Portugal, um programa de residência por investimento de cinco anos destinado a cidadãos de países terceiros, “atraiu muita gente”.

“Muitas delas vieram inicialmente para o Porto ou Lisboa, as grandes cidades”, explica. “Mas acabaram com os visto gold nesses locais, porque estava a ficar demasiado fora de controlo. Por isso, agora, as pessoas estão a vir mais para o interior do país.”

O primeiro-ministro português confirmou no início deste ano que o Governo não iria emitir mais vistos gold, numa tentativa de “combater a especulação imobiliária”.

Além do clima, ele acredita que a taxa de criminalidade relativamente baixa no país - o primeiro-ministro António Costa descreveu Portugal como “um dos países mais seguros do mundo” -, o custo de vida “acessível" e a simpatia das pessoas, são os seus maiores argumentos de venda.

“As pessoas fazem realmente o lugar”, diz Andrew. “É um sítio muito acolhedor. E acho que, como a população do país está a diminuir, eles são realmente a favor da imigração”.

Grandes mudanças

A casa tem um sistema de aquecimento solar de água e está também equipada com painéis fotovoltaicos. Fotografia Duarte Bivar

“Há tantas coisas boas em Portugal. Eles [os portugueses] não vendem nada disso. São muito humildes”.

Embora o casal esperasse continuar a viver na sua nova casa num futuro próximo, recebeu recentemente algumas notícias que os obrigaram a repensar completamente as coisas.

Andrew foi diagnosticado com ARVD/C, uma doença cardíaca rara que pode aumentar o risco de paragem cardíaca súbita ou morte.

Devido à natureza da sua doença, teve de limitar o nível de atividade física em que participa, o que o exclui de grande parte do trabalho manual necessário para manter a quinta a funcionar.

“Vamos pôr a casa à venda”, explica Andrew. “Porque é demasiado”.

“Podia contratar alguém para fazer o trabalho, mas não sou o tipo de pessoa que quer ficar sentado a dizer às pessoas o que devem fazer. Quero estar realmente a fazer o trabalho”.

“É uma daquelas coisas. Nunca tive problemas de saúde. E de repente... Está a mudar tudo.”

Embora estejam inegavelmente desapontados com a perspetiva de terem de vender e abandonar a vida que cultivaram em Portugal, ambos dizem que não se arrependem de nada e que estão ansiosos pela próxima aventura.

O casal é constantemente solicitado a dar conselhos a outros viajantes que querem começar uma nova vida em Portugal ou noutro país e dizem que encorajam sempre as pessoas a dar o salto.

“Vão em frente”, diz Andrew. “A vida é curta, não sabemos o que vai acontecer ao virar da esquina”.

“Mas mantenham também os olhos bem abertos. E quando forem para um novo lugar, não esperem que as coisas sejam como eram nos EUA, ou de onde quer que venham”.

"Estejam abertos às diferenças. Tentem encontrar formas de se adaptarem e não esperem que sejam as coisas a adaptarem-se a vocês. Porque o fariam?"

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