O novo livro de Rosa Montero prova que a normalidade não existe. "Uma mulher contou-me que chupava pilhas elétricas desde pequena" - TVI

O novo livro de Rosa Montero prova que a normalidade não existe. "Uma mulher contou-me que chupava pilhas elétricas desde pequena"

Rosa Montero

A escritora e jornalista espanhola Rosa Montero veio a Portugal apresentar o seu novo livro, "O perigo de estar no meu perfeito juízo". Um livro que é um elogio à loucura e à diferença, numa abordagem que nos quer provar que "o normal é ser diferente"

Rosa Montero não acredita "na realidade", considera-a "muito pouco fiável". Porque a qualquer momento essa realidade pode ser abalada e "deixar-nos ver as sombras e a obscuridade" que não conseguimos ver à superfície das coisas. "Estou à espera de um elevador e antes que ele se abra, na minha cabeça vejo que está lá um cadáver com um charco de sangue. Eu já tinha apanhado aquele elevador na véspera e aquilo não me tinha ocorrido, mas nos dias seguintes tive esse pensamento." É precisamente sobre a ligação da realidade à imaginação e da criatividade à loucura que Rosa Montero centra o seu novo livro, "O perigo de estar no meu perfeito juízo", editado pela Porto Editora, e que trouxe ao Correntes D'Escritas, na Póvoa de Varzim, esta quinta-feira. "É o livro da minha vida", sublinha.

Não estamos perante um romance, mas também não se trata de um ensaio. "O perigo de estar no meu perfeito juízo" surge no seguimento de "A Louca da Casa" e "A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te". "Tenho vários romances e tenho livros como este, que são livros muito difíceis de definir, híbridos. Em parte, são ensaios, mas não é verdade que sejam ensaios, em parte são autobiográficos, mas não acreditem no que conto (ou acreditem um pouco, mas não em tudo), em parte são biografias de outros autores, mas também pouco convencionais, e em parte são ficção", explica a escritora espanhola.

Através desse jogo entre vários modos literários, Rosa Montero procurou explorar uma série de questões em torno "daquilo a que chamamos loucura", da relação que existe entre "a criatividade e o transtorno mental" e do valor que existe na diferença e naquilo que pode despertar estranheza. "Estas perguntas pairavam há muito na minha cabeça e o mais incrível é que consegui respostas, consegui uma espécie de mapa desse mundo que para mim é muito importante", destaca.

O tema da saúde mental interessa-a desde sempre e levou-a a iniciar os estudos universitários na área da psicologia, bem antes de entrar no jornalismo. Aos leitores reunidos na Póvoa de Varzim revela que, desde muito nova, começou a ter crises e ataques de pânico. "Tive ataques de pânico desde os 16 anos e até aos 30. Pensava que estava louca. Foi por isso que me dediquei a estudar psicologia na universidade. Queria entender o que se passava comigo. Quando entendi, deixei essa área", completa.

De resto, o novo livro começa assim: "Sempre soube que na minha cabeça alguma coisa não funcionava muito bem". E o ponto é precisamente provar que todos podemos ter alguma coisa que "não funciona muito bem", que "todos somos esquisitos". "No fundo, o que este livro nos diz é que a normalidade não existe", sublinha.

Natural de Madrid, Rosa Montero cita um estudo de 2018, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que concluía que a normalidade "não é mais do que uma mera estatística de todas os comportamentos humanos". "É impossível que haja um homem ou uma mulher que tenha essa média estatística em todos os seus parâmetros. Todos divergimos e somos diferentes da média em algo. O que se passa é que desde pequenos criamos estratégias defensivas para que não notem essas diferenças. O normal é ser diferente", refere.

Claro que depois há todo "um vasto espectro de diferenças", acrescenta. "Há os diferentes e há os muito diferentes. Mas mesmo no caso dos muito diferentes, há muita gente que se parece com eles". E a este propósito, a escritora e jornalista, que escreve regularmente para o El País, conta a história da reação que teve a uma crónica que escreveu para o jornal: "Uma amiga de uns amigos meus, que é uma mulher muito sensata e serena, um dia contou-me que guardava todos os cortes das unhas das mãos e dos pés em caixas pequenas. E que quando se separou do marido lhe mandou uma caixa com esses cortes das unhas. Aquilo chocou-me muito e escrevi sobre isso num artigo do El País. O mais interessante é que, depois, escreveram-me cinco ou seis leitores dizendo que faziam o mesmo".

Também este livro tem proporcionado reações deste género, vinca. "Publico livros há 44 anos e de todos os que já publiquei este está a ter a resposta mais alucinante. Os leitores dizem-me que se sentem identificados com o livro, vêm ter comigo e contam-me as suas estranhezas. Por exemplo, uma mulher depois de ler o livro contou-me que desde pequena chupava pilhas elétricas", revela. E é também este um dos propósitos de "O perigo de estar no meu perfeito juízo": "abraçar" todos os que, em algum momento, já se sentiram "diferentes" ou "desajustados" em relação ao que os rodeia.

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