João Félix, o Benfica e o “penso… rápido” Rafa: é preciso ter memória! - TVI

João Félix, o Benfica e o “penso… rápido” Rafa: é preciso ter memória!

    Rui Santos
    Colunista e comentador
  • 3 dez, 15:49

Rui Santos dedica a Mensagem da semana a João Félix e, no caso do Benfica, defende o princípio de que os regressos à Luz não devem ter apenas “fundamentação e propósitos” desportivos. E fala de Rafa para tentar demonstrar a Rui Costa que o Benfica deve ter uma política de reforços bem alicerçada… e não seria desajustado pensar em utilizar jogadores mais jovens

Nunca houve vontade séria do Benfica para que eu voltasse
João Félix

Caro João,

Quando o vi a jogar pela primeira equipa do Benfica tive a sensação que muitas dezenas de milhares de pessoas tiveram: talento a rodos, uma lufada de ar fresco num futebol crescentemente robotizado.

Quase a completar 19 anos, a sensação era muito boa e, apesar de todos acharmos que, na transferência para o At. Madrid, os números estavam fora de qualquer critério de razoabilidade, gerou-se a expectativa de uma carreira brilhante, ao nível de um Bola de Ouro.

Não foi isso que aconteceu e, caro João, quando você diz que o Benfica não fez tudo — chamou-lhe “vontade séria” — para o fazer regressar, isso só pode ter uma explicação efetiva: você vive noutro mundo.

E não estou a ser irónico. Agora, mais em concreto, desde que ingressou no Al Nassr, passou a viver literalmente noutro mundo.

Às vezes sobeja — com Roberto Martínez à cabeça — uma espécie de narrativa desculpabilizante para justificar o rendimento irregular, quer no At. Madrid, quer no Chelsea, quer no Barcelona, quer no Milan (o defeito está nos treinadores ou nas estruturas que não o entendem) mas você é um rapaz de sorte e é bom que tenha noção disso.

É evidente que um jovem de 18/19 anos que é contratado por 126 M€ tem de ser muito forte mentalmente para lidar com todos os impactos.

O dinheiro a chover nas contas, o acesso a tudo, as atrações a que se fica sujeito, muita coisa para um jovem saber gerir, sobretudo quando se passa para um rendimento bruto anual de poucas centenas de milhares de euros de salário para o planeta dos milhões.

A sua pegada ficou marcada a partir desse momento e quem gosta de futebol não quer saber de situações (para eles) quase paranormais; só quer ver bom futebol. Neste caso, nos seus pés e nas suas exibições.

Não aconteceu, como sabe.

E por isso menos consigo entender nem a natureza desta sua declaração nem o timing em que a produziu.

São injustas, e não deixam de ser injustas se a saída do seu irmão (Hugo Félix) para o Tondela entrar na equação.

O que o Benfica fez e que provavelmente o João ou os seus agentes não gostaram foi de não ter cedido à pretensão do Chelsea em vender a totalidade do passe. O Benfica chegou aos 70% num pagamento faseado, tentando que o Chelsea assumisse a partilha do risco dos 20% que, em última cartada, o Benfica ainda tentou.

Talvez seja necessário lembrar-lhe, João, que você não estava a pegar em lado nenhum (nem em Madrid, nem em Londres, nem em Barcelona, nem em Milão, sem esquecer os ciclos curtos em que deu um ar da sua graça) e o risco era efetivo; nunca foi uma invenção.

O Benfica, na altura, aceitou colocá-lo no topo da folha salarial (a começar em 6M€ brutos) e, para si, segundo sei, esse valor era aceitável.

… Mas você, repito, é um rapaz de sorte, porque mais ninguém faria aquilo que o Al Nassr fez, muito sob a influência de Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, isto é, assumir o risco e pagar aquilo que o Chelsea pretendia (para recuperar o investimento feito) e ainda oferecer-lhe cinco vezes mais que aquilo que o Benfica, em esforço, tinha para lhe oferecer.

Não se esqueça, João, da sorte que tem, porque não é todos os dias que se constrói um contexto incomparável de colinho e de um colchão de milhões.

Caro João,

Tinha tido oportunidades de ouro e grandes destinos para se recuperar, até que apareceu Jorge Jesus — com a benção de Cristiano — a resolver a equação com a solução Al Nassr.

Fácil de perceber: se o Al Nassr, agora até com o CEO José Semedo, está assente na produtividade de Cristiano e se, não obstante poderem existir outras soluções, João Félix é também um jogador de assistências, quem melhor do que J. Félix para seguir as instruções de Jorge Jesus de maneira a potenciar a capacidade goleadora de Cristiano Ronaldo?

Não faz sentido? Claro que faz ! Na verdade, o Benfica tinha e tem Pavlidis e não Ronaldo; o Benfica tinha Bruno Lage e o Al Nassr Jorge Jesus; por fim, o Benfica não teria nenhuma hipótese de pagar aquilo que o clube saudita lhe paga.

A economia do futebol português, mesmo ao nível dos grandes, não consegue competir com os mais fortes na Europa e muito menos pelos clubes financiados pelos fundos soberanos da Arábia Saudita.

E não me diga que, em si, ganhar 3 ou 15M líquidos é igual ao litro.

Sadio Mané, por exemplo, fez um contrato de 3 anos a ganhar 35M também líquidos. Uma loucura que ninguém consegue justificar.

Caro João,

Sinceramente, e sabendo que você tem esta época e mais outra para cumprir e depois fica livre, não entendo, repito, a razão pela qual teve a necessidade de dizer o que disse, colocando em causa as decisões de Rui Costa, que aliás lhe respondeu muito bem, e com elegância, quando deixou cair a “bomba” no reduto dos “encarnados”, quando estes se tentam reorganizar depois da reeleição presidencial e com a chegada de José Mourinho. Aproveitamento? Tomar as dores de Lage?

Será que é excesso de carinho ou de confiança? Será a confiança extraordinária que Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo lhe dão?

Sei que está neste momento no Brasil, a aproveitar a pausa da Liga Saudita. Aproveite! Mas diga-me, sinceramente, se este episódio ajuda alguma coisa à ideia de um dia poder voltar ao Benfica. Ou, afinal, isso já é secundário?

São no fundo as prerrogativas de quem vive noutro mundo. E, na verdade, há muita gente que ainda não percebeu que o presente e o futuro estão (para os europeus) nalguns países do Médio Oriente. Literalmente, a viver noutro mundo. O futebol está a mudar e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi o primeiro a perceber isso…

A questão do hipotético regresso de Rafa, que se afigura muito difícil (é claro que Mourinho, acima de tudo, quer soluções… rápidas, no duplo sentido), deve ser observada no plano em que a necessidade “para ontem” não deve substituir uma política de reforços mais estratégica. O Benfica tem jovens muito qualificados e Rafa, por exemplo, não teve qualquer pejo em virar as costas aos adeptos quando se falava na hipótese de renovar. E essa memória não se pode perder no meio das necessidades mais imediatas. Porque, desta maneira, nunca se vai estancar a hemorragia de entradas e saídas a uma cadência brutal. É preciso estabilizar. Com uma visão estratégica (por exemplo, em jogadores mais jovens que o Benfica possui nos seus quadros) e também pela importância da memória.

Não se pode ser ingénuo, mas não pode valer tudo no futebol. Os “regressos convenientes”, quando dão jeito, precisam de ser ponderados com um mínimo de moralização. Porque se o Benfica anda à procura de uma cultura de vitória não pode ceder nestes pequenos… pormaiores.

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