Em novembro de 2023, apenas 4 dias depois de o Exclusivo da TVI ter exposto a cunha aberta no Hospital de Santa Maria para que duas crianças luso-brasileiras, amigas do filho de Marcelo Rebelo de Sousa, recebessem um tratamento de 4 milhões de euros, o Ministério Público fez buscas ao gabinete do então primeiro-ministro António Costa e a várias casas de ministros em funções e membros do staff político, incluindo João Galamba, até hoje arguido num caso sem acusação.
Ainda na mesma manhã em que a PJ realizava buscas ao Governo de António Costa, a procuradora-geral da República, Lucília Gago, iria a Belém conversar com Marcelo — conversa que, até hoje, permanece no segredo dos deuses — e, no mesmo dia, difundiria um comunicado que levou o então primeiro-ministro, reeleito apenas 9 meses antes com maioria absoluta, a demitir-se.
Nos dias que se seguiram, ninguém falaria do polémico caso das gémeas luso-brasileiras, que acabaria por destruir grande parte da popularidade de Marcelo, levando-a aos patamares mais baixos de sempre.
Daí em diante, o xadrez político do país alterar-se-ia por completo.
O PS iniciou um longo e penoso caminho das pedras, do qual ninguém tem memória nem perspetiva de saída.
Luís Montenegro chegou ao Governo e Portugal assistiria à ascensão meteórica do Chega e, sobretudo, de André Ventura.
4 anos volvidos, eis que outras estranhas coincidências acontecem.
O juiz Ivo Rosa, que descobriu pelo Exclusivo da TVI, em outubro passado, que foi alvo de 8 inquéritos-crime que o levaram a ser vigiado durante 1 ano e o sujeitaram ao levantamento do segredo fiscal e bancário, sem nenhum fundamento aparentemente legal, decidiu falar.
Buscas ao PS calharam no dia seguinte à bombástica entrevista de Ivo Rosa, que acusou o Ministério Público de ser a nova PIDE. É só mais uma "coincidência"
Entre muitas questões graves, denunciou ter sido perseguido pelo então diretor da PJ, Luís Neves, hoje ministro da Administração Interna, e pela cúpula do Ministério Público, nomeadamente pelos procuradores Albino Pinto e Orlando Romano, depois de terem recebido uma denúncia anónima que só poderia ter sido escrita por alguém com conhecimento dos processos.
Nessa altura, no chamado Ticão, havia apenas um juiz com acesso a tudo, além de Ivo Rosa: Carlos Alexandre, conhecido por ser a mão de ferro que mandou prender José Sócrates, Luís Filipe Vieira, entre muitos outros homens fortes do país.
A coincidência entre estes 8 inquéritos é apenas uma, e só uma: todos tiveram andamento depois de o juiz Ivo Rosa ter atirado para um charco de vergonha a acusação de 4 mil páginas da Operação Marquês, elaborada pelo mesmo Ministério Público que haveria de o investigar e, depois, negar acesso a todas as vigilâncias que lhe moveu.
Ivo Rosa, agora juiz desembargador, não se acanhou e disse: “Parece que voltámos aos tempos da PIDE”.
A entrevista foi feita em dois episódios, terça e quarta-feira desta semana.
- Parte 1. "Obviamente que fui espiado": Ivo Rosa fala sobre inquéritos de que foi alvo em entrevista exclusiva
- Parte 2. "Todos nós temos coisas a esconder" mas "a nossa privacidade é uma coisa que temos de preservar"
Na quinta-feira, o procurador-geral da República iria ao Parlamento às 17h.
Antes de a segunda parte da entrevista de Ivo Rosa ter ido para o ar, vários jornalistas já sabiam que, no dia seguinte, haveria “uma nova bomba”.
E assim foi.
Quando Amadeu Guerra entrou no Parlamento, as televisões davam todas, em direto, as buscas e detenções feitas logo ao início da manhã.
Desde manhã cedo, 400 inspetores da PJ estiveram na sede nacional do PS e em várias casas e empresas de suspeitos de contratos ilegais e detiveram o até aí assessor de José Luís Carneiro, a mulher, o sócio e um empresário espanhol acusado de ser seu cúmplice.
Já de tarde, Rui Rocha (IL) perguntaria a Amadeu Guerra se não tinha sido “uma grande coincidência”.
A resposta foi, obviamente, “não”.
As buscas foram autorizadas por um juiz, disse.
E é verdade.
Esquece-se, no entanto, de acrescentar que uma autorização judicial de buscas tem sempre uma validade de 30 dias.
Tudo isto poderia ser considerado normal se a “Operação Imergente”, assim batizada pela PJ (o erro ortográfico não tem sequer correção possível, por isso fica assim mesmo), não fosse um dos crimes mais simples de investigar.
Realizei esta mesma investigação jornalística com o meu corajoso colega Marco Alves, no meu primeiro mês de direção da revista Sábado, cargo que exerci durante 9 meses, antes de ingressar no grupo Media Capital.
Passaram 4 anos desde este artigo.
Um número interessante, de facto.
E não só.
O conteúdo é igualmente fascinante ou, melhor, será apenas mais uma coincidência.
O âmbito das buscas realizadas na passada quinta-feira e os alvos detidos (depois libertados pelo juiz de instrução) correspondem aos mesmíssimos factos expostos por dois pobres jornalistas, em janeiro de 2022, sem qualquer repercussão pública.
A complexidade da investigação era zero.
As provas estavam — e estão — todas em portais públicos.
Mas voltemos a Amadeu Guerra e às não coincidências.
Diz o senhor procurador-geral da República que as buscas acontecem quando têm de acontecer, até porque são autorizadas por um juiz.
Mas lá está.
As buscas ao PS calharam — benza-o Deus — no dia seguinte à bombástica entrevista de Ivo Rosa, que deveria ter dado origem a uma enorme discussão pública sobre o funcionamento do Ministério Público, mas não deu.
Aliás, em relação às acusações feitas contra o Ministério Público por Ivo Rosa, o PGR disse apenas que as vigilâncias ao juiz, feitas durante um ano, foram autorizadas por um desembargador, que a comunicação social propositadamente nunca mencionou.
Andará o procurador-geral da República, repescado da reforma, apenas distraído ou será que simplesmente sabe que, no barulho das luzes, em que todos se escondem dos seus pecados mortais, ninguém se irá lembrar do que a TVI e a CNN Portugal publicaram e republicaram desde outubro do ano passado?
Voltemos às coincidências.
A Operação Influencer — apesar de ter nascido outros 4 anos antes, com uma investigação do extinto Sexta às 9, que liderei na RTP durante dez anos — também só avançou 4 dias depois da notícia que o Exclusivo da TVI lançou sobre a cunha às gémeas luso-brasileiras.
A memória pode ser curta para alguns, mas não para todos.
Haverá sempre alguém que não esquece e vai ligando as estranhas peças do puzzle em que se encontra a nossa frágil democracia.
Pior, uma degradação evidente do Estado de direito que acontece perante a inércia e a passividade incompreensíveis de quase todos. A começar pelos políticos que enfiam a cabeça na areia.