Mais de 80% dos utentes com mais de 45 anos têm pelo menos uma doença crónica - TVI

Mais de 80% dos utentes com mais de 45 anos têm pelo menos uma doença crónica

  • Agência Lusa
  • AM
  • 16 abr, 06:04
Médico

Problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou outros, são a terceira situação crónica mais reportada

Mais de 80% dos utentes dos cuidados de saúde primários com 45 anos ou mais tem pelo menos uma doença crónica e mais de metade tem várias, refere um estudo divulgado esta quinta-feira.

De acordo com o PaRIS (Patient Reported Indicators Surveys), o maior inquérito internacional aplicado a utilizadores de serviços de saúde, hoje apresentado em Lisboa, entre as pessoas que vivem com doença crónica, 62% dizem ter duas ou mais doenças crónicas e 31% três ou mais.

As doenças crónicas mais reportadas pelos utentes que participaram no estudo são hipertensão arterial (42%), seguida de artrose ou dores persistentes nas costas ou articulações (32%).

Os dados indicam ainda que os problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou outros, são a terceira situação crónica mais reportada (22%).

Mais de 10% dos utentes também reportam diabetes (tipo 1 ou 2), problemas cardiovasculares ou cardíacos e problemas respiratórios, como asma ou Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC).

Na amostra nacional do estudo PaRIS, a proporção de pessoas que referem ter uma ou mais doenças crónicas é mais baixa na região Norte (80%), em comparação com as restantes regiões (83% ou mais). Contudo, entre os doentes crónicos, a proporção de pessoas com multimorbilidade é mais elevada em Lisboa e Vale do Tejo (64%) e mais baixa no Alentejo (58%)

Tal como a nível nacional, a hipertensão arterial é a doença crónica mais frequente em todas as regiões de saúde, seguida da artrose ou dores nas costas ou articulações e dos problemas de saúde mental (depressão, ansiedade ou outro).

Os problemas cardiovasculares ou cardíacos são mais frequentemente reportados do que a diabetes (tipo 1 ou 2) em três das cinco regiões – Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

Por tipo de unidade de Cuidados de Saúde Primários (CSP), a proporção de pessoas que dizem ter uma ou mais doenças crónicas é de 83% nas Unidades de Cuidados de Saúde Primários (UCSP), 83% nas Unidades de Saúde Familiares (USF) modelo A, com menor autonomia e incentivos financeiros, e 81% nas USF modelo B, que oferecem maior remuneração, funcionam por contratualização de objetivos e têm maior responsabilização pela saúde dos utentes.

O PaRIS, que contou com a participação de 19 países, é coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, em Portugal, pela Direção-Geral da Saúde.

Centros de Saúde devem ter serviços 'online' para marcar consulta e pedir receitas

Os autores do relatório PaRIS defendem que todos os centros de saúde devem oferecer serviços ‘online’ para marcar consultas ou pedir receitas, para facilitar o acesso e diminuir os tempos de espera.

Os dados do relatório apontam para a necessidade de consolidar o registo eletrónico -, garantindo que todos os centros de saúde tenham páginas eletrónicas acessíveis e fáceis de utilizar - e capacitar os utentes para poderem usar estas tecnologias.

O estudo PaRIS, coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, em Portugal, pela Direção-Geral da Saúde (DGS), envolveu 19 países. A nível nacional, ouviu mais de 11.700 utentes e 80 unidades de cuidados de saúde primários (CSP).

Face aos resultados obtidos, os autores sublinham a importância de os centros de saúde promoverem a capacitação dos utentes, em particular as pessoas com doença crónica, para o uso dos serviços digitais, ajudando a agilizar a resposta e melhorando a eficiência e continuidade de cuidados.

“Estas modalidades promovem maior equidade no acesso, otimização de recursos clínicos e conforto para os utentes, designadamente os que têm mobilidade reduzida ou outras limitações, desde que não seja imprescindível um exame físico presencial”, refere o documento.

Os dados recolhidos junto dos centros de saúde revelam que a generalidade - mas não todos - tem atendimento sem agendamento prévio aos utentes inscritos na unidade para casos de urgência, visitas domiciliárias, aconselhamento aos utentes e gestão de doenças crónicas.

Em menos de metade das unidades é possível aceder a cuidados antes ou depois do horário, pelo menos uma vez por semana, e apenas uma minoria presta cuidados durante o fim de semana.

Quanto ao histórico clínico de novos utentes, cerca de 30% das unidades ainda não acedem a esses dados eletronicamente sem necessidade de pedir informação à unidade anterior que acolheu o utente, “o que pode comprometer a continuidade da prestação de cuidados”, alerta.

Os dados indicam ainda que apenas o agendamento de consultas é realizado de forma informatizada por quase todas as unidades e sublinha: “A informatização de atividades com periodicidade predefinida (como rastreios e envio de lembretes) é também fundamental para otimizar a prestação de cuidados”.

Os autores do relatório consideram ainda fundamental que todas as unidades de CSP consigam gerar automaticamente relatórios detalhados da sua atividade, documentos que permitem “acompanhar a evolução clínica dos utentes, identificar necessidades de intervenção precoce na população utente e monitorizar grupos de risco”, apoiando a continuidade de cuidados.

Dizem igualmente que este tipo de relatórios pode contribuir para a produção de indicadores e ajudar a definir políticas públicas mais adequadas.

Quanto aos pedidos de envio de utentes para outra especialidade, os dados indicam que, apesar de as cartas de referenciação serem uma prática generalizada nos centros de saúde, o mesmo já não acontece com o retorno de informação por parte dos especialistas dos hospitais que recebem estes utentes.

Por isso, sugerem o reforço da integração de cuidados primários e hospitalares, ou outros, com “mecanismos formais e sustentáveis” para garantir respostas mais completas, contínuas e coordenadas para os cidadãos, sobretudo para quem tem necessidades complexas de saúde e está em maior risco de exclusão.

Já quanto aos incentivos institucionais, o documento diz que o facto de as Unidades de Saúde Familiar (USF) modelo B apresentarem um melhor desempenho nalguns indicadores sugere que estes incentivos podem ter um “papel relevante” na melhoria de resultados em saúde. Por isso, recomenda que sejam incluídos na contratualização e nos mecanismos de incentivo indicadores de resultados e experiência reportada pelos utentes.

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