SNS leva médica do Porto a Loures de motorista para evitar fecho de urgência - TVI

SNS leva médica do Porto a Loures de motorista para evitar fecho de urgência

Direção Executiva do SNS assume que contrata médicos do Norte para irem à região de Lisboa só para fazerem turnos de algumas horas. O objetivo é conseguir manter os blocos de partos abertos. Recurso a motorista para médica viajar 300 quilómetros está a gerar mal-estar

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A Direção Executiva do SNS, liderada por Fernando Araújo, está a contratar médicos do Norte ao dia para irem a Lisboa completar turnos de urgência e evitar assim o encerramento destes serviços, em especial de blocos de parto. Mas os preços pagos à hora chegam a atingir os 100 euros, o dobro do que é pago aos médicos dos respetivos hospitais, o que está a gerar mal-estar em algumas unidades de saúde.

Um dos mais recentes casos ocorreu no Hospital Beatriz Ângelo, em Loures. No dia 13 de junho, uma médica do Norte, especialista em Ginecologia foi contactada para, no próprio dia, substituir uma colega que, à última hora, por motivos familiares, tinha de faltar à escala noturna - o que obrigaria a fechar a urgência de ginecologia por falta de profissionais. Para se manter aberto, o serviço precisa da presença de, pelo menos, três profissionais e naquela noite só havia dois disponíveis.   

A médica da zona do Porto deslocou-se para Lisboa e regressou ao Porto num carro guiado por um motorista de um organismo tutelado pelo Ministério da Saúde. Em vez dos 52 euros por hora, como os outros médicos do serviço de Loures, recebeu 100 euros, tendo o valor sido acordado diretamente com a presidente do conselho de administração (CA) do Hospital de Loures.

A situação foi confirmada à CNN Portugal pela própria médica que veio a Lisboa fazer o turno de 12 horas e ganhar 1200 euros. “Presto serviço na urgência por tarefas há vários anos e nesse dia contataram-me da parte da Direção Executiva para ir a Lisboa”, conta a profissional, adiantando que foi transportada por um “motorista dos Serviços de Utilização Comum dos Hospitais”, uma associação tutelada pelo governo que presta serviços a vários hospitais.

A especialista explica que falou “com a presidente do conselho de administração” e que, depois de lhe oferecer os 52 euros por hora, acabou por acordar os 100 euros, tendo em conta que se tratava de uma situação repentina “que obrigaria a fazer duas viagens de três horas em pouco mais de 12 horas”. “Foi a primeira vez que fui a Lisboa fazer um turno e voltar para casa”, conta.

Objetivo: evitar encerramentos

À CNN Portugal, Fernando Araújo admite que há “vários médicos” do Norte a irem a Lisboa fazer turnos de 12 ou 24 horas, em áreas como a ginecologia e a obstetrícia, mas também pediatria, neonatologia e anestesia. “O objetivo é evitar que os serviços de urgência tenham de encerrar”, diz o presidente da direção executiva do SNS, sublinhando que este método de organização tem permitido manter as urgências noturnas abertas, nomeadamente os blocos de parto. “Estamos a conseguir que nenhum serviço feche para além do que já estava previsto”, frisa.  

Aliás, as urgências das maternidades dos hospitais públicos da zona de Lisboa já estão a funcionar de forma alternada, devido à falta de médicos, como assumiu em tempos aquela direção executiva. “Fazendo esta gestão de recursos humanos do SNS conseguimos elaborar mapas de turnos que permitem que as urgências continuem a funcionar”, esclarece ainda Fernando Araújo, sublinhando que, apesar de ser mais comum os médicos do Norte irem ao Sul, onde há mais carência, também se verifica o contrário. Ao todo, adianta à CNN Portugal, nos últimos tempos cerca de 30 médicos terão sido deslocados para assegurar um turno num hospital distante. 

Quanto à forma de deslocação e pagamento, Fernando Araújo garante que tudo é feito com “base legal” e usando tabelas definidas. “Está tudo definido em lei. Seja pagando os quilómetros ou transportes públicos, seja de outra forma, e em casos urgentes”.

"Se pagassem esses valores aos médicos de Lisboa, muitos fariam o serviço”

No entanto, toda esta situação está a gerar mal-estar entre os médicos. No Hospital Beatriz Ângelo, por exemplo, os profissionais do serviço de ginecologia estão descontentes com o facto de a direção do hospital estar disposta a pagar valores mais elevados a médicos do exterior, apurou a CNN Portugal. E está até prevista uma reunião para esta terça-feira, 20 junho, entre os responsáveis do serviço onde a médica fez o turno e o conselho de administração para falar do assunto.

Por outro lado, o tema tem sido comentado em vários grupos de médicos que existem nas redes sociais. “Há muitas pessoas chocadas por se pagar muito mais a médicos que são enviados de tão longe só para o Governo e a direção executiva não terem polémicas em certos dias caso o serviço fechasse. Se pagassem esses valores aos médicos de Lisboa, muitos fariam [o serviço]”, refere um profissional.

Este tipo de contratação ao turno de médicos vindos do Norte tem ocorrido em vários hospitais com maternidade. Aliás, a médica que veio fazer o turno ao Hospital Beatriz Ângelo confirma ter conhecimento de vários colegas, também de ginecologia, que têm vindo a unidades de saúde do sul do país, muitas da região de Lisboa, fazer urgências noturnas, como o Hospital Garcia de Orta.

No seu caso, na noite em que viajou do Porto para Loures de motorista foram feitos sete partos durante a noite. Caso não tivesse ido, o hospital não poderia ter recebido qualquer grávida encaminhada pelo CODU – Centro de Orientação do Doente Urgente. “No fim, tudo se resume a um problema estrutural. Há falta de médicos para fazer urgências e o Estado paga mal”, afirma a ginecologista, que se dedica a fazer urgências como tarefeira há longos anos.

Além de médicos tarefeiros, a direção executiva do SNS recorre também a médicos que estão no quadro de outros hospitais do Norte. A ideia é, admite Fernando Araújo, montar uma “rede coesa de resposta”. Isto para evitar que os fechos das urgências e blocos de parto se acumulem - um cenário que corre o risco de se agravar no verão.

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