Há cada vez menos pessoas a recorrer apenas ao SNS e mais a optar pelo privado - TVI

Há cada vez menos pessoas a recorrer apenas ao SNS e mais a optar pelo privado

  • Agência Lusa
  • AM
  • 13 jan, 06:27
Ambiente hospitalar em tempos de pandemia

Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação e a maioria não diz ao médico

As dificuldades de acesso aos cuidados de saúde estão a reduzir as probabilidades de uma pessoa recorrer exclusivamente ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e, depois de optar pelo privado, quem tem mais recursos dificilmente regressa ao sistema público.

Segundo os dados do inquérito de acesso aos cuidados de saúde da Nova School of Business and Economics, entre 2022 e 2025, a probabilidade de uma pessoa recorrer a cuidados de saúde apenas no setor público diminuiu, apesar de a larga maioria (83,52%) da população continuar a recorrer unicamente ao SNS.

Entre 2022 e 2025 diminuiu a probabilidade de se recorrer exclusivamente ao SNS, passando de 90% para 82%, o que, segundo a investigadora Carolina Santos, “pode ser um reflexo das dificuldades de acesso aos cuidados de saúde do SNS”.

Os dados mostram ainda que, em 2025, a população inquirida que já tinha médico de família no setor privado era 15%, mostrando que os portugueses estão a procurar alternativas para ultrapassar as barreiras de acessos ao serviço público de saúde.

No SNS, os serviços mais frequentemente procurados são os cuidados de saúde primários.

Os investigadores sublinham igualmente o “aumento expressivo” na utilização da linha SNS 24, em virtude da expansão do programa “Ligue antes, salve vidas”, que contribuiu para a redução da procura por serviços de urgência no SNS.

Dizem ainda que a redução nas idas às urgências no SNS não se repercutiu numa maior procura por serviços de urgência no privado, mas sim num maior recurso a cuidados de saúde primários do SNS e a consultas no setor privado.

Os dados indicam que a percentagem de pessoas que, procurando auxílio profissional, contacta o setor privado passou de 11,8%, em 2023, para 15,5%, em 2025.

Mostram ainda que, perante um episódio de doença, as pessoas com médico de família no privado registam maior probabilidade de procurar cuidados de saúde profissionais unicamente no setor privado.

Questionada sobre se há o risco de desvio de pessoas para o privado e deixar cada vez mais o SNS a prestar cuidados de saúde aos mais desfavorecidos, a investigadora concorda, sublinhando que este cenário “não é o ideal”.

“Não é, obviamente, o desejável numa sociedade em que se tem o SNS como o prestador de cuidados de saúde para toda a população residente, independentemente das condições financeiras”, afirmou Carolina Santos.

A investigadora acrescentou ainda uma outa dimensão: ”Todos nós contribuímos através de impostos para o SNS e, quem não consegue aceder e acaba por - através de despesas diretas ou por via de seguros privados voluntários - aceder a cuidados de saúde no setor privado, está a ter despesas duplicadas”.

“Há sempre impostos que são alocados na mesma ao Serviço Nacional de Saúde”, lembrou.

O inquérito de acesso mostra igualmente que, entre 2023 e 2025, a perceção de se ter sido tratado com dignidade, compaixão e respeito aumentou de forma expressiva para a população com 80 ou mais anos, passando uma experiência positiva a ser reportada por 85% (70% em 2013).

Ainda assim – sublinham os investigadores -, em termos globais, os níveis de satisfação com a humanização dos cuidados permanecem abaixo dos registados nos períodos pandémico e pré-pandémico.

“A escassez de recursos e as falhas que vêm sendo reportadas nos media, de facto, tenderão a afetar a noção de se ser tratado com dignidade, compaixão e respeito”, considerou a investigadora.

Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação e a maioria não diz ao médico

Mais de metade das pessoas recorrem à automedicação, segundo um estudo que mostra uma prática mais disseminada do que se pensa e também usada na saúde mental, sendo que a maioria não diz ao médico.

Os investigadores alertam para a necessidade de garantir que a automedicação seja parte da integração de cuidados e defendem que, para isso acontecer, as pessoas devem ter acesso a informação clara e acessível, para saber quando podem tratar um problema por si, e deve haver estruturas de proximidade que consigam avaliar a necessidade e orientar o utente e uma comunicação entre os prestadores.

Tudo para garantir que a decisão inicial da pessoa é conhecida e integrada no seu percurso de cuidados, “evitando tanto duplicações como lacunas”, escrevem.

O relatório hoje divulgado faz parte da Cátedra em Economia da Saúde, enquadrada na Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE.

No documento, a que a Lusa teve acesso, os investigadores Pedro Pita Barros e Carolina Santos reconhecem que o sistema deve ter um apoio estruturado à automedicação, que quando usada da melhor forma pode aliviar os serviços de saúde de casos que não precisam de cuidados médicos específicos.

Lembram estudos anteriores que mostram que, quando eficaz em casos de doenças ligeiras, a automedicação pode reduzir consultas desnecessárias em serviços de saúde já sobrecarregados e contribuir para um maior controlo dos custos em saúde, mas avisam que, se utilizada de forma inadequada, tem “riscos significativos” como complicações, atrasos no tratamento de doenças graves e interações prejudiciais de medicamentos.

“Compreender as circunstâncias em que a automedicação é percecionada como bem-sucedida, e aquelas em que falha, é por isso essencial para desenvolver estratégias de saúde pública que promovam um autocuidado seguro”, consideram.

O trabalho, que resultou de inquéritos feitos em 2025 a mais de 1.600 pessoas em Portugal – de várias geografias, condição social e económica faixas etárias – mostra que mais de metade dos inquiridos (51,85%) disse já ter recorrido à automedicação em algum momento, indicando ”uma prática muito mais disseminada do que habitualmente se reconhece”.

O fenómeno é mais prevalente em grupos etários mais jovens (entre os 25 e 34 anos), com 66,26% destes a confessarem ter-se automedicado pelo menos uma vez. Por oposição, entre as pessoas com 85 ou mais anos, foram 39,62% os que afirmaram nunca ter recorrido à automedicação.

Níveis mais elevados de rendimento e de escolaridade estão também associados a uma maior frequência de automedicação. Quanto à escolaridade, enquanto 60,77% dos inquiridos com ensino superior disseram ter recorrido à automedicação no passado, essa proporção desce para 47,64% entre os que têm níveis de escolaridade inferiores.

São mais as mulheres que recorrem à automedicação, uma prática mais usada por quem não tem médico de família (24,55%) do que por quem tem (17,59%).

Este resultado sugere que “a automedicação pode refletir, em parte, dificuldades no acesso a cuidados de saúde profissionais”, dizem os investigadores.

A maioria dos inquiridos (57,3%) referiu que, na última vez que se automedicou, o fez por já ter enfrentado um problema semelhante no passado e 30,4% apontou a existência, em casa, de medicamentos disponíveis para tratar a situação em causa.

Quando questionados sobre como obtiveram informação acerca do medicamento, mais de metade (54,24%) disse ter-se baseado em experiências anteriores com o mesmo fármaco, 37,96% por aconselhamento na farmácia e 7,56% por recomendações de familiares ou amigos.

Nos casos em que as pessoas optam por se automedicar, as farmácias continuam a ser o local privilegiado para obter medicamentos, um resultado que os investigadores dizem evidenciar uma “fronteira difusa” entre o autocuidado e a “automedicação orientada”.

Ainda assim, entre os que já se automedicaram, mais de um terço (38,2%) disse ter usado medicamentos que já tinha em casa devido a episódio anterior de doença.

As pessoas recorrem mais frequentemente à automedicação para sintomas de gripe ou constipação (53,05%) ou dores de cabeça (21,12%), mas também o fazem – embora com menos frequência - para casos de dores musculares (10,70%), tosse (7,77%) e problemas digestivos (4,44%).

Entre os outros motivos apontados estão o alívio geral da dor e situações mais graves, incluindo ansiedade, depressão, doença renal, infeções urinárias, artrose e asma.

Os investigadores avisam que a automedicação também se estende a áreas como a saúde mental e as doenças crónicas, em que o autodiagnóstico incorreto, o adiamento do recurso a cuidados profissionais, as interações medicamentosas ou o uso inadequado podem representar riscos acrescidos.

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