O Benfica empurrou o Sporting das escadas, numa daquelas tardes que começou mal e acabou bem. Porque é domingo, e os domingos podem tudo, e porque Rafa em Alvalade gosta de sair do banco para decidir os dérbis.
Já o tinha feito em 2020, com dois golos nos dez minutos finais, voltou a fazê-lo este domingo, já nos descontos.
Ora neste domingo em particular, os encarnados andaram sempre a lutar com o relógio. Primeiro porque os minutos pareciam correr depressa de mais, enquanto olhava para o Tejo sem o apreciar, com pressa de chegar a um dérbi que começou atrasado por causa deles.
Depois porque os minutos pareciam não correr, naquele período final do jogo, após Morita empatar o jogo e empolgar o Sporting, empurrado por um estádio que pensa poder levar a equipa a qualquer sítio.
O tempo, refira-se, é um craque subestimado no futebol. Defende bem, parte o ritmo do jogo, enerva o adversário e faz crescer a angústia no estádio. O Benfica perdeu o primeiro confronto, mas venceu o segundo. O que faz sentido: já estava mais preparado para ele.
Ora aqui reside uma parte fundamental da história.
É que o Sporting deixou que o Benfica se preparasse. O campeão entrou com a monotonia de um funcionário que vai despachar burocracia. Como se o dérbi fosse expediente.
Sem aquele fogo nos olhos que o fez chegar às maiores vitórias da temporada, permitiu que o Benfica começasse a jogar mais perto da baliza de Rui Silva e que Otamendi atirasse para grande defesa do guarda-redes. Pelo meio, Geny Catamo atirou à trave, numa bola mal defendida por Trubin, mas foi pouco para quem precisava de tanto.
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O Sporting, recorde-se, não tinha alternativa. Este era um daqueles jogos em que era preciso ganhar, e ponto final. Como quem tem consulta marcada com o destino e não pode faltar.
Para quem tinha tanta urgência, o campeão trouxe pouca paixão. Como se viu até na forma displicente como Luis Suárez bateu o penálti, naquele que foi o grande momento do jogo.
Mas vamos por partes.
Aos 17 minutos, Trincão sofreu falta de Aursnes e Luis Suárez foi para a marca de onze metros. Com tudo para embalar o Sporting, o colombiano permitiu a defesa de Trubin. O Benfica, que tinha ficado em silêncio, rebentou num grito e ganhou ânimo. Voltou a jogar mais perto da baliza de Rui Silva, até Morita saltar de costas e cortar a bola com o braço. Penálti que Schjelderup não desperdiçou, cavando um fosso de distância entre os rivais.
Foi preciso esperar pelo intervalo, e pela segunda parte, para ver, por fim, o Sporting com urgência. Trincão atirou ao ferro, Morita fez a bola passar a centímetros do poste e o mesmo Morita atirou de cabeça para o empate.
Nessa altura Alvalade levantou-se e cantou.
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Foi então que o Benfica começou a lutar com o relógio. A perder tempo. Sem imaginar, que o tempo ainda haveria de ser seu amigo. Precisamente nos descontos, quando Rafa Silva fez o 2-1 e deixou o Sporting sem minutos para evitar a derrota.
Foi um período curioso. Os encarnados só queriam segurar o empate, de início, mas Mourinho fez tudo bem, ele que tem este hábito de vencer em Alvalade - em dez jogos, sete triunfos e três empates -, e lançou os jogadores certos, no momento certo. Rafa e Lukebakio vieram mudar o jogo, quando a equipa mais precisava.
O golo nos descontos acabou por ser a cereja no topo do bolo.
Já a formação de Rui Borges perdeu o dérbi por culpa própria, num final de tarde em que sentiu o maior rival atirá-lo pelas escadas, para cair pelo menos um degrau: entrou em campo a lutar pelo título e saiu a lutar pelo segundo lugar. Com aquele sabor a azedo na boca, no meio de uma semana que está a ser trágica e ainda não acabou.
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O Benfica, por outro lado, subiu ao segundo lugar. À condição, é verdade, mas é melhor avisarem o mundo que o Benfica de Mourinho ainda não caiu.