Porque os EUA enviaram um submarino furtivo para a Coreia do Sul - e contaram ao mundo que o fizeram - TVI

Porque os EUA enviaram um submarino furtivo para a Coreia do Sul - e contaram ao mundo que o fizeram

  • CNN
  • Brad Lendon
  • 30 abr 2023, 09:00
O USS Alaska regressa ao seu porto de origem na Base Naval de Submarinos de Kings Bay, na Geórgia, nesta foto de 2 de abril de 2019. Bryan Tomforde/U.S. Navy/Handout/Reuters

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Quando os presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Sul anunciaram esta semana um acordo histórico para impedir a agressão da Coreia do Norte, um elemento do pacto destacou-se.

Os planos para enviar um submarino norte-americano com armas nucleares para a Coreia do Sul, pela primeira vez desde 1981, foram o principal ato na apresentação da "Declaração de Washington", um conjunto de medidas destinadas a fazer Pyongyang pensar duas vezes antes de lançar um ataque nuclear contra o seu vizinho do sul.

"O nosso tratado de defesa mútua é inflexível e isso inclui o nosso compromisso de alargar a dissuasão - ou seja, a ameaça nuclear, a dissuasão nuclear", disse o presidente dos EUA, Joe Biden, numa conferência de imprensa na Casa Branca com o presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol.

Mas embora a ação tenha um enorme valor simbólico, alguns especialistas questionam se faz sentido enquanto ação militar. Alguns salientam que os submarinos são perfeitamente capazes de atingir a Coreia do Norte a milhares de quilómetros de distância; outros argumentam que enviar o submarino numa visita - muito pública - a um porto estrangeiro apenas compromete a eficácia de uma arma concebida para ser furtiva.

Eis o que precisa de saber sobre o submarino e porque se dirige à Coreia do Sul.

Os "boomers"

A Marinha dos Estados Unidos tem 14 submarinos de mísseis balísticos (SSBNs) movidos a energia nuclear da classe Ohio, oito em Washington e seis na Geórgia.

Os submarinos de 170 metros, normalmente chamados "boomers", têm um deslocamento de mais de 18.000 toneladas quando submersos e são alimentados por um único reator nuclear.

A Marinha diz que um submarino da classe Ohio foi concebido para passar, em média, 77 dias no mar, seguidos de 35 dias no porto para manutenção. Os submarinos têm duas tripulações cada - apelidadas de tripulações "azul" e "dourada" - e estas são rotativas para que os 155 submarinistas de cada tripulação possam descansar e treinar adequadamente entre as patrulhas.

Que armas transportam?

Cada um dos submarinos da classe Ohio transporta um máximo de 20 mísseis balísticos Trident II.

Estes têm um alcance de 7.400 quilómetros, o que significa que são capazes de atingir um alvo na Coreia do Norte a partir de vastas extensões dos oceanos Pacífico, Índico ou Ártico.

"Militarmente, (estes submarinos) não precisam de estar perto da Coreia para atingir potenciais alvos", sublinhou Blake Herzinger, investigador do United States Studies Centre da Universidade de Sydney, na Austrália.

Cada míssil Trident tem capacidade para transportar várias ogivas que podem ser direcionadas para alvos distintos.

A Nuclear Threat Initiative do James Martin Center for Nonproliferation Studie estima que cada míssil Trident pode transportar quatro ogivas nucleares, o que significa que cada submarino de mísseis balísticos dos EUA pode transportar cerca de 80 ogivas nucleares.

Por outras palavras, um único submarino armado com Trident poderia destruir toda a Coreia do Norte.

Míssil Trident II D5 lançado a partir do submarino de mísseis balísticos USS Nebraska, ao largo da costa da Califórnia, em 2018. Ronald Gutridge/Marinha dos EUA/Handout/Reuters

Porquê enviar um para a Coreia do Sul?

Os analistas dizem que a presença de um submarino de mísseis balísticos da Marinha dos EUA num porto sul-coreano seria puramente simbólica - e, de facto, reduziria o valor militar do submarino.

"Do ponto de vista tático, (os EUA e a Coreia do Sul) estão a diminuir o trunfo mais poderoso do submarino: a sua furtividade", afirmou Carl Schuster, antigo capitão da Marinha dos EUA e ex-diretor de operações do Centro de Inteligência Conjunta do Comando do Pacífico dos EUA no Havai.

Uma das chaves da dissuasão nuclear é a incerteza.

"A dissuasão nuclear exige que, embora o adversário saiba da existência e da escala das armas do Estado nuclear, não possa saber a extensão ou localização exata das capacidades ou quando poderão ser utilizadas", escreveu o comandante da Marinha dos EUA Daniel Post na revista do Instituto Naval dos EUA em janeiro.

Um submarino de mísseis balísticos dos EUA escondido a centenas de metros abaixo da superfície do oceano, a milhares de quilómetros da Coreia do Norte, continuaria a estar ao alcance de Pyongyang, mas seria quase impossível de detetar pela Coreia do Norte.

Um que chegasse à Coreia do Sul numa visita ao porto - que tem de ser marcada com 24 a 48 horas de antecedência - seria muito mais visível, dando vantagem à Coreia do Norte, considerou Schuster.

"Se Kim Jong-un pretendia fazer um ataque surpresa, demos-lhe a localização do submarino e a hora a que estará lá", sublinhou ainda.

Apenas simbólico?

Os Estados Unidos querem assegurar a um dos seus aliados mais importantes que o apoiam, dizem os analistas.

Kim Jong-un tem vindo a reforçar as forças de mísseis com capacidade nuclear da Coreia do Norte, testando-os a um ritmo recorde em 2022. E num discurso de Ano Novo, o líder norte-coreano pediu um "aumento exponencial" do arsenal de armas nucleares do seu país em resposta ao que ele afirma serem ameaças da Coreia do Sul e dos Estados Unidos.

As ameaças de Kim levaram algumas pessoas na Coreia do Sul a apelar a que Seul se tornasse uma potência com armas nucleares. Os EUA não querem assistir a uma proliferação nuclear na península, pelo que têm tentado tranquilizar o seu aliado tornando as suas forças mais visíveis na zona, incluindo o voo de bombardeiros B-52 com capacidade nuclear nos céus da Coreia do Sul.

Kim Jung-sup, investigador sénior do Centro de Estudos de Defesa do Instituto Sejong, em Seul, afirmou que os submarinos apenas reforçam essa ideia e aumentam a credibilidade dos EUA.

"É claro que são tipos de armas diferentes, mas não creio que haja uma diferença essencial no facto de serem meios estratégicos que fundamentalmente enviam uma mensagem de retaliação nuclear contra a Coreia do Norte", argumentou Kim.

Quanto à vulnerabilidade dos submarinos norte-americanos, alguns analistas afirmam que tal cenário só aconteceria como precursor de uma guerra nuclear - altura em que o submarino já teria falhado a sua missão fundamental de dissuasão.

"O seu objetivo fundamental é dissuadir e tranquilizar", disse Drew Thompson, investigador sénior da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew da Universidade Nacional de Singapura.

"As armas estratégicas, como um submarino de mísseis balísticos e a sua carga útil, não se destinam a ser utilizadas."

*Gawon Bae contribuiu para este artigo

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