«Quando os ponteiros do relógio da Torre dos Clérigos bateram nas 20h45, um clarão irrompeu na ponta oriental da cidade, estremecendo-a como um trovão. Na verdade, aquele duelo de titãs começara dias antes, ali defronte, no coração da Invicta, na belíssima Livaria Lello, quando André convencera Francesco a assinar aquele papel…»
Podia começar assim o clássico do povo, que esta noite levou o Dragão a um carrossel de emoções, como nos melhores romances. No final, o FC Porto fez cair o rival Benfica com um golo singelo de Bednarek.
Cada clássico é como um livro por abrir. Cada confronto entre os dois maiores embaixadores do futebol português desbrava novos horizontes.
Esta noite, Farioli ganhou «à Mourinho»: com rigor tático, eficiência ofensiva e capacidade de sofrimento.
Manual de instruções: os Silvas como novidade
Comecemos pelo manual de instruções.
O preâmbulo tático já prometia.
No FC Porto, o lendário Thiago Silva entrou direto para o onze, com Kiwior a derivar para o lado esquerdo da defesa, para o lugar do lesionado Francisco Moura.
No Benfica, sem o capitão Otamendi, castigado, António Silva recuperou para fazer dupla no eixo com Tomás Araújo e Mourinho apostou pela primeira vez de início no reforço Sidny Cabral. Uma opção mais conservadora, já que o ex-Estrela da Amadora jogou como ala esquerdo, sendo Barreiro o mais adiantado no meio-campo, no apoio direto a Pavlidis, com Sudakov a ser relegado para o banco.
Ao contrário do primeiro clássico, para o campeonato, tão soporífero como a descrição do Ramalhete, n’«Os Maias», este duelo teve heróis, vilões, duelos, desventuras… E, no final, a consagração azul e branca.
Foi como um enredo com a ação a decidir-se em três cantos seguidos. Ao minuto, 15 Gabri Veiga teve uma e outra tentativa para bater a bola. À terceira, descobriu a cabeça Bednarek, que se antecipou a Barreiro e cabeceou para o fundo das redes de Trubin.
Uma fogueira! Chamas de dragão a trazerem magia a uma noite fria, como nos livros de Harry Potter (uma saga que J.K. Rowling começou a escrever no café Majestic). Euforia a rodos. E uma faísca que só não voltou a deflagrar logo de seguida porque Gabri e Froholdt encontraram Trubin no caminho.
O Benfica reagiu e, mesmo depois de Richard Ríos sair lesionado (dando lugar a Sudakov, quase em cima do intervalo), só não chegou ao empate porque Diogo Costa assumiu o papel de salvador num remate de Barreiro.
Com tudo equilibrado ao intervalo, menos o marcador, o Benfica voltaria para, em desvantagem, assumir o jogo desde o início da segunda parte, com o FC Porto a tentar «matar» o rival no contragolpe.
Mourinho, porém, só haveria de arriscar mesmo aos 83m, quando tirou Sidny e lançou Ivanovic para fazer dupla com Pavlidis, que já depois dos 90 desperdiçou o golo do empate, com o FC Porto a resistir junto à sua baliza.
E para Mourinho? Haverá novo capítulo?
A verdade é que a noite acabaria por ser dos dragões e, assim, Mourinho voltou a não vencer o FC Porto como visitante (segunda vez com o Benfica, após duas vezes com o Chelsea).
Depois da Taça da Liga, o Benfica está também fora da Taça de Portugal e, dentro de uma semana, pode ficar fora da Liga dos Campeões, frente à Juventus, em Turim.
No campeonato, só a matemática impede, para já, semelhante conclusão.
Mourinho é como um livro da história do futebol. Sabe tudo sobre o jogo, como que inspirado por «A Arte da Guerra», de Sun Tsu. Na sua estante, porém, estão sobretudo «Best Sellers» já cobertos de pó.
Farioli é como aqueles prodígios da escrita, capaz de arrebatar os seus leitores desde a primeira página, como num livro de aventuras, cheio de novidade e encantamento. Umas vezes esteta, capaz de fazer sonhar, outras pragmático, cumpridor dos mais rigorosos cânones literários.
Vai daí o apropriado autógrafo há dias, que vale por mais um ano, na mítica Lello.
Desta vez, o italiano venceu o mestre com as suas armas, com calculismo e espírito de equipa. E azul e branca essa bandeira avança para as meias-finais da Taça de Portugal.
Para os encarnados, a história até podia ter sido outra.
Agora, há que virar a página de uma época que se torna cada vez mais uma desilusão.
E para Mourinho? Haverá novo capítulo?