Nos últimos quatro anos, a TAP apresentou constantemente prejuízos. Só em 2020 e 2021, as contas da companhia aérea registaram prejuízos recordes de 1,2 mil milhões e 1,6 mil milhões de euros, respetivamente.

O impacto destes números foi tão significativo que para salvar a companhia aérea a Comissão Europeia aprovou um plano de reestruturação de 2,6 mil milhões de euros e mais 537 milhões de euros em apoios de assistência à empresa para mitigar os efeitos da pandemia.

No entanto, os resultados deste ano revelam uma nova realidade. Pela primeira vez em cinco anos, a TAP deverá terminar o ano com lucros. Ao que o ECO conseguiu apurar, é sobre este cenário que atualmente está a trabalhar a administração da empresa.

A última vez que a companhia aérea terminou um ano com lucros foi em 2017, com a TAP a registar lucros de 23 milhões de euros e resultados operacionais de 106 milhões de euros.

A concretizar-se este feito por parte da equipa de Christine Ourmières-Widener, significará uma antecipação do plano de reestruturação da empresa em dois anos. E ficará também acima dos 54 milhões de euros de prejuízo previstos inicialmente para este ano, que foi anunciado por Pedro Nuno Santos, então ministro das Infraestruturas e Habitação, em maio, numa audição no Parlamento no âmbito do Orçamento do Estado para 2022.

Recuperação em velocidade cruzeiro

De acordo com os resultados alcançados nos primeiros nove meses do ano, a TAP está a dar passos largos para fechar o ano em terreno positivo.

Entre janeiro e setembro, a companhia aérea bandeira contabilizou prejuízos de 91 milhões de euros, uma melhoria de 20 milhões de euros face ao período homólogo de 2019. Em junho, os resultados líquidos da empresa eram de 202 milhões de euros, um valor 60% inferior ao registado nos primeiros seis meses de 2021.

A recuperação financeira da empresa tem sido alcançada por via de três importantes segmentos, e que terão adensado no último trimestre deste ano:

Recuperação do turismo para níveis pré-pandemia, que se traduziu no transporte de mais de 10 milhões de passageiros nos primeiros nove meses do ano e receitas operacionais de 2,44 mil milhões de euros, o equivalente a 98% das receitas registadas no período homólogo do ano de 2019.

Desenvolvimento do plano de reestruturação, que assenta num forte plano de corte de custos que tem passado, por exemplo, por cortes salariais e pela redução do número de funcionários. Entre 2019 e 2021 saíram da TAP mais de 2 mil funcionários (cerca de um quarto dos trabalhadores) e só nos primeiros seis primeiros meses deste ano, a folha salarial baixou 7,2%, de 202 milhões de euros para 187 milhões de euros (apesar de neste período até ter havido um aumento de 131 funcionários).

Gestão de risco financeiro através da realização de operações de cobertura cambial que, entre outros aspetos, tem permitido reduzir a volatilidade e o impacto das variações cambiais do preço do jet fuel (combustível utilizado nas aeronaves) nas contas da empresa. Nos primeiros nove meses do ano, o custo com combustível aumentou 31% para um valor global de 781 milhões de euros.

No plano financeiro da companhia aérea, as contas dos primeiros nove meses do ano revelaram custos com juros da dívida ligeiramente abaixo ao registado no ano anterior, devido à conversão do empréstimo do Estado de 1,2 mil milhões de euros em capital próprio.

Além disso, a TAP apresenta atualmente níveis de liquidez semelhantes aos registados em 2019, contabilizando no final de setembro 775 milhões de euros em caixa.

Destaque ainda para o aumento de 9% da dívida bruta para 1,6 milhões de euros em setembro, muito por conta da realização dos novos leasings de aviões, “sendo que 81% dessa dívida é remunerada à taxa fixa”, revela a empresa na apresentação dos resultados, reduzindo assim a exposição à subida das taxas de juro que tanto tem penalizado empresas e famílias este ano.

Para o próximo ano, a tarefa de Gonçalo Pires, administrador financeiro da TAP, será também marcada pela capacidade da empresa ser capaz de reembolsar em 200 milhões de euros os investidores que detêm as obrigações da empresa que foram emitidas em 2019 e irão vencer a 23 de junho de 2023. E no ano seguinte terá lugar um novo reembolso obrigacionista, este no valor de 375 milhões de euros, como resultado de uma emissão colocada junto de institucionais em novembro de 2019.

ECO - Parceiro CNN Portugal / Luís Leitão e António Costa