Uma conversa entre uma piloto portuguesa e um controlador de tráfego aéreo francês chegou às redes sociais e tornou-se viral. O caso aconteceu há cerca de um mês, sabe a CNN Portugal, num voo da TAP entre Lisboa e Nice.
O mal-entendido teve origem num detalhe linguístico. A piloto usou o termo “toilet” para explicar que as casas de banho do avião estavam fora de serviço, não se tratando de uma emergência mas de uma celeridade. O problema é que, em comunicação rádio, o inglês “toilet” soa muito parecido com “pilot”, o que levou o controlador francês a pensar que havia problemas graves com o piloto ou até que não havia piloto a bordo.
A piloto acabou por desistir do propósito da comunicação, dizendo que falariam depois, quando o avião aterrasse.
Esta foi a conversa, traduzida na íntegra para português:
Piloto: Estamos a solicitar mais velocidade, se possível, pelo menos até FL100, e rotas mais diretas. Não temos casas de banho a bordo no voo de hoje, por isso precisamos de aterrar o mais rapidamente possível, por causa dos passageiros.
Controlador de tráfego aéreo: Entendido, declara emergência?
Piloto: Pode repetir a mensagem, por favor?
Controlador de tráfego aéreo: Declara emergência?
Piloto: Não, não estamos a declarar emergência. Apenas pedimos ajuda na situação, uma rota mais direta e para aumentar a velocidade, se possível. Nice, olá, Air Portugal 484, a FL140.
Controlador de tráfego aéreo: 484, 'bonjour', confirma que precisa de prioridade?
Piloto: Estamos a pedir ajuda porque temos um problema a bordo, mas não estamos a declarar emergência ou urgência.
Controlador de tráfego aéreo: Só para ter a certeza, o vosso piloto automático não está a funcionar?
Piloto: Não senhor, o nosso piloto automático funciona perfeitamente.
Controlador de tráfego aéreo: O vosso piloto tem um problema médico?
Piloto: Senhor, vou repetir: não temos um problema médico. Apenas não temos casas de banho.
Controlador de tráfego aéreo: Portugal 484, não sei se estou a perceber. Disse que não tem piloto a bordo?
Piloto: A nossa operação está a decorrer de forma normal, senhor. Queremos prosseguir com a chegada normalmente.
Controlador de tráfego aéreo: Disse antes que não tinha piloto?
Piloto: Eu não disse isso. Falamos em terra. Para já, só precisamos de fazer a aproximação.
"Imagine o que são 200 passageiros a urinarem nas cadeiras"
Para o antigo comandante da TAP José Correia Guedes, tudo se deveu a uma má escolha de palavras.
"A piloto portuguesa, na minha opinião, escolheu mal o termo. Usou 'toilet', que se confunde facilmente com 'pilot'. Deveria ter optado por ‘lavatory’ ou ‘WC’”, sugere.
Ainda assim, sublinha que, apesar do inglês do controlador poder “ser melhor”, o profissional apenas precisa de dominar o vocabulário técnico da aviação, onde não se inclui a palavra “toilet”.
"Estas situações não deviam acontecer, mas em situações em que se deixa de falar a linguagem técnica, às vezes há mal-entendidos. A portuguesa exprimiu-se bastante bem, apesar da má escolha de palavras. O francês entendeu mal, mas isto não quer dizer que não saiba falar o inglês técnico, obrigatório à sua profissão", explica.
Apesar do equívoco, o motivo do pedido era claro e não deixa dúvidas quanto à necessidade de aterrar o mais depressa possível.
"Sem casas de banho operacionais, aquilo transforma-se num inferno. Imagine o que são 150 ou 200 passageiros a urinarem nas cadeiras. Não é uma emergência, mas é uma situação que obriga a uma chegada rápida”, conclui.
Fonte da TAP confirmou o episódio, mas recusou fazer qualquer comentário. A CNN Portugal sabe que o avião aterrou normalmente, sem quaisquer consequências para os passageiros.