Os procuradores japoneses acusaram esta sexta-feira formalmente o suspeito do homicídio do antigo primeiro-ministro Shinzo Abe, em julho passado.

O suspeito, Tetsuya Yamagami, de 42 anos, foi declarado apto a ser julgado, depois de longos exames psiquiátricos, acrescentaram.

Yamagami foi preso imediatamente depois de disparar contra Abe, que discursava num comício eleitoral em Nara (oeste).

"Foi acusado hoje" por "homicídio e violação da lei" sobre controlo de armas, disse um porta-voz do tribunal de Nara.

Yamagami pode ser condenado à morte se for considerado culpado.

No início desta semana, estações de televisão japonesas transmitiram imagens da transferência de Yamagami para uma esquadra da polícia de Nara a partir de um centro de detenção na cidade vizinha de Osaka, onde passou os últimos cinco meses em avaliação psiquiátrica.

Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão em 2006-2007 e 2012-2020, foi alegadamente visado por Yamagami devido às presumíveis ligações do político à Igreja da Unificação, considerado um culto no Japão.

O suspeito tinha rancor contra o grupo, ao qual a mãe tinha alegadamente feito grandes doações no passado, levando a família à ruína.

De acordo com os meios de comunicação locais, o exame psiquiátrico centrou-se na relação com a mãe e o ambiente familiar.

Shinzo Abe, cujo controverso funeral de Estado no Japão foi realizado em setembro passado, não era membro da Igreja da Unificação.

No entanto, tinha participado em 2021 num simpósio organizado por um grupo afiliado desta seita, tal como outras figuras políticas, incluindo o ex-Presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

Fundada na Coreia em 1954 por Sun Myung Moon, esta organização religiosa desenvolveu-se fortemente nos anos de 1970 e 1980, incluindo no Japão.

A organização, agora denominada Federação Familiar para a Paz e a Unificação Mundial, negou qualquer ato ilícito e comprometeu-se a evitar "doações excessivas" dos membros.

O homicídio de Abe desencadeou uma série de revelações sobre as ligações do grupo religioso a muitos políticos japoneses e contribuiu para uma queda na popularidade do governo do primeiro-ministro, Fumio Kishida, presidente do Partido Liberal Democrático (LPD, direita), como Abe antes dele, desde o verão passado.

Kishida ordenou uma investigação governamental que poderá resultar numa ordem de dissolução deste culto, ao abrigo da lei sobre organizações religiosas japonesa.

Tal decisão levaria a seita a perder isenções fiscais, mas não poria fim à atividade do grupo.

A investigação mostrou já a relação do culto com o LPD, desde que o avô de Abe e antigo primeiro-ministro Nobusuke Kishi ajudou a seita a criar raízes no Japão nos anos de 1960, com base em interesses comuns em causas conservadoras e anticomunistas.

/ AM