O ministro das Infraestruturas rompeu com os salamaleques habituais na cerimónia de assinatura dos contratos de construção e de financiamento do troço da linha de alta velocidade entre Porto-Campanhã e Oiã, no distrito de Aveiro. Quando chegou a sua vez de discursar, Miguel Pinto Luz resolveu dizer que sentiu “quase um vazio, ensurdecedor, porque há um agradecimento antes de todos: aos portugueses”.
O governante recordou aos presentes que nenhuma linha de TGV se paga a si própria, de acordo com todos os estudos de procura. Ficou assim confirmada a notícia de que a linha Lisboa-Porto é deficitária em 4,1 mil milhões de euros, conforme avançado pela CNN Portugal em fevereiro de 2024.
Nenhum dos oradores que falou antes do ministro tocara no assunto: Miguel Cruz e Carlos Fernandes, gestores da Infraestruturas de Portugal, empresa pública para a ferrovia; Jean-Christophe Laloux, diretor do Banco Europeu de Investimento (BEI), que financia a obra em 875 milhões de euros; e Carlos Mota Santos, presidente executivo da Mota-Engil, empresa que lidera o consórcio português que ganhou o concurso público.
O tema estratégico das mercadorias
Para o Governo de Luís Montenegro, apesar de deficitário, o chamado TGV português justifica-se do ponto de vista estratégico. O ministro das Infraestruturas apresenta-o como um “investimento para décadas, para gerações”. Miguel Pinto Luz considera, ainda, que a exploração da linha será lucrativa para a CP.
Ora, é precisamente no plano estratégico que o projeto tem sido mais contestado, devido à opção pela bitola ibérica, o que choca com a política da União Europeia de criação de uma rede ferroviária interoperável, para passageiros e mercadorias, de uma ponta à outra do seu território.
A linha Lisboa-Porto tem um segundo problema, de acordo com associações empresariais e peritos em ferrovia: exclui os comboios de mercadorias. Ou seja, as pendentes e curvas do projeto ultrapassam os limites técnicos necessários à circulação desses comboios.
“É um erro histórico. Uma linha nova devia ser projetada para 100 ou 200 anos. Com o atual congestionamento da Linha do Norte, daqui a 20 anos vamos ter um problema, sem solução, na operação ferroviária de mercadorias no principal eixo do país”, critica Paulino Pereira, professor de Transportes do Instituto Superior Técnico.
“Desconhecemos os estudos que apontam para que a Linha do Norte fique esgotada em 20 anos, com a procura de comboios de mercadorias, pelo que não estamos em condições de comentar”, reagiu o gabinete do ministro das Infraestruturas, em resposta escrita à CNN Portugal.