Here’s looking at you, ‘Ton: Tony Bennett (1926-2023) - TVI

Here’s looking at you, ‘Ton: Tony Bennett (1926-2023)

  • Sebastião Bugalho
  • 22 jul 2023, 17:00
Tony Bennett (Associated Press)

Com a naturalidade de um tio satisfeito por nos rever na noite de Natal, entrava em palco. Não sorria para a câmara ou para o apresentador; sorria para nós, para a audiência, para a primeira fila, para o empregado que cruzava a sala de bandeja em mão. O andar desafogado, os sapatos tamanho 46, os olhos cor de céu, a satisfação que não despia, a naturalidade que não forçava. Antony Dominick Benedetto ‒ nascido e falecido em Nova Iorque, aos 96 anos, esta semana ‒ era o último dos gigantes do seu tempo, do seu meio, da sua América. Uma presença familiar que se tornou excecional, um conforto que até ao fim não cessou de surpreender, é, para todos os que se dedicaram a ouvi-lo, uma perda irrecuperável a que regressaremos sem esforço.

Como escreveu Ken Barnes no seu “Sinatra and the Great Song stylists” (1972), Tony Bennett fazia parte do pequeno e cada vez mais raro grupo de cantores populares com noção “do verdadeiro valor de comunicar com a audiência”, em letra e em espetáculo. A dimensão mais marcante do seu percurso, além do sucesso comercial e da sua extraordinária longevidade, é essa: a de entertainer, sim, mas de entertainer casual, sobretudo. Uma das suas referências enquanto intérprete era Fred Astaire, o dançarino, o que ilustra bem a leveza do estilo que cultivava.

“Como se fosse um tipo normal que foi convencido a ir cantar com os amigos” é como Barnes, comicamente, acerta na descrição. De um modo, por isso mesmo, todos queríamos ser amigos de Tony Bennett.

Nascido no início de Agosto de 1926, filho de um merceeiro e de uma costureira, as suas primeiras incursões vocais terão sido com os seus irmãos, Mary e John, em reuniões familiares, ambiente que reproduziria sob holofotes toda a restante vida. Na inauguração da ponte de Triborough, que cruza os bairros de Queens, Bronx e Manhattan, cantaria em público pela primeira vez. Tinha seis anos. Na juventude, o talento para as artes alastrou para o desenho e estuda na escola de artes industriais de Nova Iorque. Aos fins-de-semana, canta em restaurantes locais e clubes de campo nos arredores de Jersey.

Cumpre serviço militar na Segunda Guerra, servindo três anos em território alemão antes de conseguir transferência para a divisão de entretenimento do Exército, onde forma uma banda e decide tornar-se músico profissional. No regresso à vida civil, aproveita uma bolsa de reintegração militar para estudar teatro e teoria musical.

O seu primeiro disco foi lançado em 1950 ‒ The Boulevard of Broken Dreams, com orquestra ‒ e vendeu meio milhão de cópias. Dezoito meses depois, nova balada chegaria a mais de um milhão de casas americanas e é dentro de género que atinge o pico do estrelato, com a conhecida I Left My Heart In San Francisco. Com uma facilidade invulgar, passa do single para os LP em formato Greatest Hits e mantém a adesão. Ao longo da carreira, arriscaria versatilidade (um álbum com Once In My Life de Stevie Wonder como título) sem abdicar de identidade. “O jazz é como a arte. Depende do ponto de vista”, dizia.

Não tão ardente quanto Dean Martin, nem tão imponente quanto Sinatra, era um perfecionista que não caía na obsessão. Em disputas de ritmo com as suas big bands, distribuía cigarros antes de teimar em ficar com a palavra final. “Slower, baby, c’mon”. De forma paradoxal, não tendo uma grande voz, era um grande cantor.

Na vida pública, participou em marchas pacifistas e por direitos civis, tendo atuado para dois presidentes do Partido Democrata e merecido um cumprimento de Nancy Pelosi em plena sessão do Congresso. Pessoalmente, a sua característica mais distinta seria a humildade, algo incomum entre os homens do show-biz. “Não tinha um pingo de vedetismo”, conta Mário Assis Ferreira, titã da cena cultural portuguesa que o trouxe a Lisboa por três vezes. Não gostava de restaurantes caros; preferia tascas. Em Portugal, adorava sardinhas assadas e pintar a baía de Cascais. Em casa, segundo um dos seus últimos entrevistadores, “não tinha nenhum dos seus álbuns nas prateleiras da sala”.

Nas primeiras horas da sua despedida, foram vários os testemunhos de casamentos relativamente anónimos em que acabava a cantar por simpatia. O facto de transportar essa afabilidade para as suas performances fazia dele único.

Tony Bennett começou muito cedo e durou até à última, despedindo-se das salas de espetáculo com 95 anos de idade. A sua memória, mesmo quando assolada pela doença, não o traía quando cantava. Em estúdio, fugindo à regra, raramente precisava que o pianista lhe recordasse o tom. A nós, ninguém precisará de nos recordar a sua música.

P.S. ‒ Numa nota mais pessoal, Tony Bennett era também a última figura viva que me ligava a alguém que me é muito querido e que não tive a chance de conhecer. O meu avô, de quem herdei a magreza e umas dúzias de livros, era um apaixonado pela música norte-americana. As histórias que não pude ouvir dele foram-me passadas ao som de Bing Crosby, Mel Tormé, Julie London e Tony Bennett. Conheci-o, escutando-os a eles. A minha gratidão à sua música ‒ e à de Tony Bennett em particular ‒ não poderia ser maior. Aqui fica. Dedicated to you.

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