O que se passa na Ucrânia desde que o mundo está com os olhos postos em Israel? A contraofensiva acabou, os russos têm armas novas e os americanos estão a enviar ajuda para outro lado - TVI

O que se passa na Ucrânia desde que o mundo está com os olhos postos em Israel? A contraofensiva acabou, os russos têm armas novas e os americanos estão a enviar ajuda para outro lado

Ucrânia (Associated Press)

O conflito no Médio Oriente desviou as atenções para o que acontece na Ucrânia, mas a guerra não parou e ainda há "combates sangrentos" a acontecer

Relacionados

Desde 7 de outubro que o mundo está com os olhos postos em Israel, mas na Ucrânia a ofensiva russa não abrandou. Enquanto no Médio Oriente Israel tenta travar o Hamas, as forças ucranianas avançaram no leste do país e montaram a defensiva no sul, mas as notícias estão longe de ser as melhores.

À CNN Portugal, o major-general Agostinho Costa, especialista em assuntos militares, afirma que a contraofensiva ucraniana já terminou "porque os suportes da contraofensiva estão alterados, mas continua a existir pressão da parte ucraniana na região de Orekiv e Robotyne", naquele que "era o eixo prioritário da Ucrânia".

Ou seja, a guerra não está parada, "mas os combates não têm a dimensão que tiveram e muito menos vão ao encontro daquilo que o presidente Zelensky no último encontro que teve com o mundo ocidental prometeu de, até ao final do ano, tomar três ofensivas relevantes".

Também o major-general Carlos Branco considera que a contraofensiva ucraniana terá chegado ao fim "motivada por várias razões, uma delas a falta de recursos, outra a alteração das condições meteorológicas".

"As forças ucranianas, muito provavelmente, começarão a tomar uma posição defensiva rapidamente, embora isso não esteja a ser implementado ainda. O que estamos a assistir é, fundamentalmente, a ataques russos de objetivo limitado."

Para o também comentador da CNN Portugal, neste momento, os locais que devem merecer mais atenção são Avdiivka - onde os russos "parecem empenhados em conquistar a cidade" - e Kherson - onde as forças ucranianas "vão ter duas testas de ponte na margem esquerda do rio" para tentar fazer "uma travessia significativa de efetivos do leste do rio Dniepre".

"As forças russas continuam a bombardear as concentrações de tropas ucranianas na zona oeste, mas aí ainda não houve nenhuma ofensiva russa, portanto, os russos têm fundamentalmente parado os ucranianos nessas duas testas de ponte. Houve também uma tentativa ucraniana na zona de Robotyne, Kopani, que é uma zona que fica um bocadinho para o oeste de Robotyne, e tiveram aí baixas de carros de combate significativas."

Também o major-general Isidro de Morais Pereira diz que "a guerra não parou", lembrando que é "em Avdiivka onde se estão a dar os combates mais sangrentos neste momento e com perdas tremendas para as forças russas".

"A Ucrânia tem conseguido resistir de uma forma consistente às ofensivas russas a leste e tem sido capaz de continuar a deter a iniciativa a sul e em Kherson. A sul tem conseguido continuar numa postura ofensiva, se bem que têm sido conquistas paulatinas, onde é preciso muita paciência porque o terreno foi muito organizado, e a Rússia fez chegar reforços à frente, novas unidades."

Para o especialista em assuntos militares, "Avdiivka é um reentrante, mas tem muito significado e é terreno importante para a continuação do ataque e para a conquista do que falta do Donetsk", até porque Putin "fixou ao comandante de teatro, novamente, um objetivo estratégico de conquistar o que falta do Donbass, e fundamentalmente o que falta é cerca de metade até ao final do ano".

E se na frente leste se estão a dar os combates mais sangrentos, com as tropas russas a sofrer perdas pesadas, na frente sul, em Kherson, "as forças ucranianas têm vindo a tentar estabelecer uma cabeça de ponte na margem esquerda do rio Dniepre".

Para além disso, "pela primeira vez foram utilizados mísseis ATACMS que embora sejam mísseis da década de 90, são munições de fragmentação, que causaram uma destruição digna de registo em dois locais: estima-se que 12 de 20 mísseis já foram utilizados, seis no ataque a um aeródromo em Lugansk e outros seis no ataque a um aeródromo em Berdyansk, sendo que a Rússia teve pesadíssimas baixas em pessoal e em material, terá perdido cerca de 10 a 12 helicópteros KPA-52, que são helicópteros de ataque, e que têm sido profundamente utilizados pela Rússia, quer nas suas ações ofensivas, quer defensivas".

O major-general Agostinho Costa lembra, no entanto, que "há relatos de que os russos já conseguiram abater, ou estão a desenvolver, alguma forma de mitigar a questão".

Combates de inverno

O conflito está agora muito perto de entrar na época de inverno e, embora não pare, o ritmo muda e também a estratégia.

Terá sido também por isso que, de acordo com o major-general Agostinho Costa, "a Ucrânia está numa atitude defensiva ao longo de toda a linha da frente e da parte dos russos já não é tanto assim".

"Os russos lançaram uma ofensiva dirigida para, fundamentalmente, Avdiivka, que é uma cidade periférica de Donetsk. Fundamentalmente, é uma situação muito semelhante a Bakhmut, só com a diferença que Avdiivka é uma praça forte que está muito perto do aeroporto de Donetsk e era a linha da frente entre ucranianos e russos: tem posições organizadas desde há nove anos, estão lá cerca de seis mil militares ucranianos e há indicação que a Ucrânia está a reforçá-los até 30 mil. A brigada principal da reserva estratégica ucraniana, a 47.ª, foi deslocada para lá, uma brigada mecanizada, constituída por Leopards, e estão-se a travar aí combates, vai ser um combate longo. O objetivo dos russos é tentar conquistar Avdiivka que é onde está a centralidade e depois no norte, em Kupyansk, para chegar ao rio Oshkol, muito devagarinho, para fixar forças."

A chuva que se faz sentir atualmente na região pode complicar os movimentos, quer para russos quer para ucranianos, até "porque os russos procuram, por exemplo, em Avdiivka impedir ou dificultar a logística ucraniana".

"O nível tático vai parar, agora com a chuva. Por causa da chuva, por causa do frio. Vai parar", antecipa o também comentador da CNN Portugal, fazendo a ressalva que será uma "paragem operacional" para que o terreno volte a ter condições de combate. "A haver combates de inverno será lá para dezembro, nunca antes, até porque precisa de neve, gelo, 15 dias, o terreno tem de gelar".

Até lá, "vamos passar a uma guerra de mísseis, uma guerra de drones". Opinião diferente tem o major-general Carlos Branco, que considera que a guerra não parou e não vai parar, pode é "reduzir atividade". Prova disso é que "os russos, num espaço de cinco dias, abateram 29 aeronaves ucranianas".

"Quer dizer, não puseram a força ucraniana a zero, mas foi um ataque, uma coisa poderosíssima, porque eles devem ter algum equipamento novo que lhes permite atuar e destruir os aviões, portanto isso é um dado significativo porque é uma destruição alargada da Força Aérea Ucraniana. Efetivamente, tem havido ataques sistemáticos por toda a Ucrânia durante estes dias, ou seja, mas ataques sistemáticos, vários, fundamentalmente objetivos militares", aponta o também comentador da CNN Portugal.

Israel, uma distração global?

Com um novo ritmo e um novo conflito no Médio Oriente, a Ucrânia vê-se a braços com um possível novo problema: o desviar de atenções e de fundos para outro conflito. 

Na quinta-feira, o novo líder da Câmara dos Representantes dos EUA, o republicano Mike Johnson, garantiu que Washington "não vai abandonar" a Ucrânia, mas defendeu que a prioridade deve ser apoiar Israel contra o Hamas. 

De acordo com o major-general Agostinho Costa, mais do que beneficiar, o direcionar da atenção para Israel "prejudica a Ucrânia", até porque a "dimensão económica do conflito está esgotada" e a "parte politico-diplomática também está relativamente parada". 

"A linha comunicacional neste momento é a linha determinante no conflito, porque a linha militar funciona sempre", acrescenta.

Por sua vez, Isidro de Morais Pereira lembra que a Rússia está a procurar tirar partido do conflito entre Israel e Hamas e que ao ter consciência de que o apoio pode vir a ser canalizado para outro lado que não a Ucrânia "procurou intensificar as ações ofensivas". 

"De alguma forma, a Rússia procurou tirar partido desta janela de oportunidade de uma menor atenção, de um potencial menor apoio à Ucrânia. Ainda esta sexta-feira aterrou um C-17 americano, um avião de transporte estratégico carregado de munições de 155mm (foram carregadas em Rammstein), aterrou num aeródromo militar em Israel. Estas munições supostamente eram para serem entregues à Ucrânia. Portanto algum apoio está a ser de alguma forma canalizado para Israel e a Rússia tem a noção clara de que isso pode acontecer e procurou intensificar as ações ofensivas", explica, acrescentando que "os Estados Unidos têm desviado alguma da sua capacidade de defesa antiaérea para Israel".

Para além disso, lembra Agostinho Costa, também "a União Europeia prometeu um milhão de munições à Ucrânia, e só dispensou 30%, 300 mil" e os "Estados Unidos vão mandar o Iron Dome para Israel".

Numa altura em que a Ucrânia aguarda a conclusão da formação dos pilotos ucranianos para pilotarem os F-16 - que devem começar a voar nos céus da Ucrânia "no final do ano ou no início do ano que vem" - e a chegada de mísseis Himars "numa quantidade maior", o conflito em Israel pode fazer com que Zelensky sinta necessidade de se apresentar "aos seus principais apoiantes para não ser esquecido".

"A guerra não se faz exclusivamente no campo de batalha, a guerra faz-se também na dimensão informacional, faz-se no palco político e diplomático. Vamos assistir ao próprio presidente Zelensky a apresentar-se aos seus principais apoiantes para não ser esquecido, porque a Ucrânia vai sentir a necessidade de colocar a questão ucraniana novamente em cima da mesa e aos olhos do mundo", lembra Isidro de Morais Pereira.

Continue a ler esta notícia

Relacionados