A contraofensiva da Ucrânia não está a corresponder às expectativas. E é por isto que os progressos têm sido lentos - TVI

A contraofensiva da Ucrânia não está a corresponder às expectativas. E é por isto que os progressos têm sido lentos

  • CNN
  • Ivana Kottasová
  • 4 jul 2023, 12:29
Militar ucraniano da 3.ª Brigada de Assalto dispara um morteiro de 122 mm contra posições russas na linha da frente, perto de Bakhmut, na região de Donetsk, Ucrânia, a 2 de julho. Alex Babenko/AP

Muitos dos países que estão a apoiar os esforços de guerra da Ucrânia estão a debater-se com uma inflação elevada, taxas de juro crescentes e um crescimento lento. Os seus líderes - alguns dos quais terão de enfrentar eleições no próximo ano e meio - precisam de justificar a enorme quantidade de recursos que enviaram para a Ucrânia, quando os seus próprios eleitores estão a lutar para fazer face às despesas. Isto pode tornar-se difícil se não houver muito sucesso no campo de batalha para mostrar

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Os campos de minas no sul da Ucrânia são tão densos que as tropas que tentam libertar a área só podem avançar "árvore a árvore", disse à CNN um militar envolvido na contraofensiva. Em todos os seus anos de serviço, disse, nunca viu tantas minas.

O militar, que pediu para ser identificado pelo seu nome de código "Legion", contou à CNN que acredita que as ações das suas tropas foram "bastante bem sucedidas e eficazes". No entanto, enquanto ele e outros soldados ucranianos percorrem áreas minadas, deparando-se com defesas fortemente fortificadas e ataques aéreos, grande parte do mundo parece pensar que estão a avançar muito lentamente.

Os aliados ocidentais da Ucrânia estão a ficar nervosos com o facto de o progresso da tão esperada contraofensiva estar a ser medido em metros, em vez de quilómetros. Os aliados de Kiev estão bem cientes de que a Ucrânia não pode derrotar a Rússia sem a sua ajuda. Mas o ritmo mais lento do que o esperado da contraofensiva significa que o seu apoio pode tornar-se cada vez mais insustentável se o conflito se arrastar.

Muitos dos países que estão a apoiar os esforços de guerra da Ucrânia estão a debater-se com uma inflação elevada, taxas de juro crescentes e um crescimento lento. Os seus líderes - alguns dos quais terão de enfrentar eleições no próximo ano e meio - precisam de justificar a enorme quantidade de recursos que enviaram para a Ucrânia, quando os seus próprios eleitores estão a lutar para fazer face às despesas. Isto pode tornar-se difícil se não houver muito sucesso no campo de batalha para mostrar.

Para já, porém, o apoio parece inabalável. Vários responsáveis ucranianos e ocidentais admitiram que a contraofensiva não conseguiu, até agora, produzir grandes avanços - mas a maioria foi rápida a acrescentar que o progresso lento se justificava.

As linhas da frente no sul e no leste da Ucrânia não se moveram muito nos últimos meses, dando às tropas russas muito tempo para se entrincheirarem e prepararem-se para a contraofensiva.

De acordo com uma análise do Institute for the Study of War (ISW), think tank norte-americano, algumas das secções mais estratégicas da linha da frente estão protegidas por várias linhas de defesa, o que torna muito difícil a passagem dos ucranianos.

O chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, o general Mark Milley, disse que o ritmo não é surpreendente, dado que os soldados ucranianos estavam a lutar "pela sua vida".

"Estamos a dar-lhes toda a ajuda humanamente possível, mas, em última análise, os soldados ucranianos estão a atacar através de campos minados e trincheiras", observou.

"Por isso, sim, claro, é um pouco lento, mas isso faz parte da natureza da guerra", garantiu Milley no National Press Club na sexta-feira.

Milley sublinhou que, embora lentamente, os ucranianos estão a avançar. "A ofensiva está a avançar de forma constante e deliberada, abrindo caminho através de campos minados muito difíceis... 500 metros por dia, 1000 metros por dia, 2000 metros por dia, esse tipo de coisas", indicou.

Enquanto as forças ucranianas se esforçam por atravessar campos de minas, continuam a não ter superioridade aérea e são frequentemente atacadas a partir do ar.

"Legion", um sargento-mor da 47.ª Brigada da Ucrânia, que está envolvida nos combates no sul do país, disse que era evidente que as forças russas estavam a preparar-se para este momento há meses.

"Sabiam que era nesta zona que se iria realizar o ataque principal, pelo que se prepararam minuciosamente. Têm artilharia e aviação aqui, e tanto os caças como os helicópteros estão a trabalhar regularmente", indicou.

"Legion" disse à CNN que os combates na zona eram comparáveis "ao que se passou em Bakhmut durante a fase mais quente".

"Grandes acontecimentos pela frente"

As autoridades ucranianas têm dito repetidamente que, embora a contraofensiva esteja em curso, o grande empurrão ainda está para vir.

A vice-ministra da Defesa, Hanna Maliar, disse no mês passado que a Ucrânia estava a reter algumas das suas reservas e que o "ataque principal" ainda estava para vir.

A ISW também afirmou que as informações publicadas por bloggers militares russos sobre a situação ao longo das linhas da frente sugerem que "as forças ucranianas não estão atualmente a tentar o tipo de operações em grande escala que resultariam em rápidos avanços territoriais".

Em vez disso, os militares ucranianos parecem estar a lançar ataques mais pequenos em diferentes direções ao longo da linha da frente, com cerca de 1000 quilómetros de comprimento, tentando esgotar as reservas russas antes de lançarem uma investida maior.

Entretanto, o presidente do país, Volodymyr Zelensky, afirmou que queria ser estratégico quanto ao local para onde as tropas estão a ser enviadas.

"Cada metro, cada quilómetro custa vidas", disse. "É possível fazer algo muito rápido, mas o campo está completamente minado. As pessoas são o nosso tesouro. É por isso que somos muito cuidadosos."

Zelensky reconheceu na segunda-feira que a semana passada foi difícil para as tropas na linha de frente. "Mas estamos a fazer progressos. Estamos a avançar, passo a passo!", garantiu.

Milley exortou os observadores a permanecerem pacientes, dizendo que espera que a contraofensiva dure até dez semanas.

"O que eu disse foi que isto vai demorar seis, oito, dez semanas. Vai ser muito difícil. Vai ser muito longo e vai ser muito, muito sangrento. E ninguém deve ter ilusões sobre isso."

*Tim Lister, Mariya Knight, Julia Kesaieva, Victoria Butenko e Haley Britzky contribuíram para este artigo

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