A primeira regra da diplomacia é que a verdade não é uma questão de factos, é uma questão de consenso. Na guerra da Ucrânia, esse consenso está lentamente a mexer-se. E o novo consenso que começa a desenhar-se em Washington, em Moscovo e em parte da elite ucraniana é simples e brutal: a guerra pode acabar com um mapa diferente e com um presidente diferente.
O sinal mais visível desta mudança é a figura do antigo comandante-em-chefe Valerii Zaluzhnyi, hoje embaixador em Londres. O general que encarnou a resistência militar nos primeiros dois anos da invasão foi afastado por Zelensky e colocado no conforto diplomático. Mas no discurso continua a falar como soldado. Há poucos meses, já na condição de diplomata, avisou que a Ucrânia não pode esperar um milagre que lhe devolva as fronteiras de 1991 e defendeu uma guerra de sobrevivência, tecnológica, adaptada ao facto de o país ter menos gente e menos recursos. Em linguagem menos técnica, Zaluzhnyi está a dizer aquilo que o poder político ainda não ousa dizer em público: não há vitória total à vista.
É aqui que entra a imagem do animal ferido. Politicamente, Zelensky está nesse ponto em que o cheiro a sangue começa a atrair predadores e sucessores. Em poucas semanas viu rebentar o maior escândalo de corrupção desde o início da invasão, com um alegado esquema de 100 milhões de dólares no sector da energia, que não é nada de novo, que já levou à queda de ministros e à remodelação de empresas públicas-chave.
O seu chefe de gabinete, Andriy Yermak, homem forte do sistema e figura central nas negociações com os Estados Unidos, demitiu-se após buscas das autoridades anticorrupção. Ao mesmo tempo, o ex-presidente Petro Poroshenko apareceu em entrevista a uma televisão francesa a dizer, em horário nobre, que a democracia cerceada é hoje o maior perigo para a Ucrânia, mais do que os tanques russos. Não é apenas crítica institucional, é também pré-campanha presidencial.
Dentro de portas, o país está exausto. A mobilização arrasta-se, a idade de recrutamento desceu e, mesmo assim, o Estado luta para encher as fileiras. A deserção deixou de ser caso isolado e passou a ser fenómeno estrutural. Em 2024 já se falava no maior número de deserções desde o início da guerra, e no final desse ano as autoridades ucranianas reconheciam mais de 100 mil processos criminais por deserção desde 2022, um número que continuou a subir em 2025. O país tem hoje, simultaneamente, soldados que combatem há demasiados meses sem rotação e dezenas de milhares de homens que fogem dos centros de treino ou tentam sair clandestinamente pela fronteira. A guerra já não é apenas uma causa nacional, é também uma gigantesca crise social.
Fora de portas, o quadro não é melhor. A Europa assumiu, desde sempre, o grosso do esforço financeiro para sustentar o Estado ucraniano e as compras de armamento. Mas a paciência orçamental não é infinita. Bruxelas discute agora um empréstimo de 140 mil milhões de euros para Kiev, lastreado nos activos russos imobilizados no sistema financeiro europeu. O problema é que a chave desse cofre está em Bruxelas e, sobre esse assunto, a palavra decisiva é do primeiro-ministro belga. Bart De Wever já deixou claro que usar esses activos, ou colocá-los como garantia, é juridicamente perigoso, financeiramente arriscado e politicamente explosivo, lembrando que só na Bélgica estão parados mais de 180 mil milhões de euros de reservas russas. Na prática, a mensagem é clara: se a Europa quer continuar a financiar a Ucrânia na escala atual, terá provavelmente de emitir dívida conjunta outra vez, num momento em que as opiniões públicas estão cansadas, os populismos crescem e a inflação ainda pesa na memória dos eleitores e a economia europeia não cresce.
É neste contexto que se deve ler o movimento americano. A promessa de acabar a guerra em vinte e quatro horas transformou-se num esboço de plano de paz, inicialmente em vinte e oito pontos, depois em dezanove, cuja lógica é sempre a mesma: travar o fogo à custa de concessões territoriais de Kiev a Moscovo, temperadas com promessas de investimento e com a ideia de abrir o mercado russo ao capital ocidental. Nos últimos meses, foi dito abertamente que a forma mais simples de terminar o conflito seria cristalizar a atual linha da frente e transformar essa realidade militar numa nova fronteira. Em linguagem menos diplomática, a Ucrânia ficaria com menos território do que tinha em 2021.
Nos bastidores, em Washington, começa a ganhar força uma convicção: Zelensky já não tem capacidade política interna para vender aos ucranianos um acordo que implique renunciar formalmente a parte do território. A ideia que alguns responsáveis americanos sugerem, de forma mais ou menos explícita, é simples: será preciso um líder novo, com a legitimidade de ser o homem da paz, para assinar aquilo que o presidente da guerra nunca pode assinar.
Ao mesmo tempo, pressiona-se Kiev para preparar eleições assim que haja um cessar-fogo minimamente estável. A leitura é clara: as eleições têm de acontecer, mesmo em regime excecional e num calendário comprimido após uma trégua. O regime de lei marcial suspendeu legalmente as eleições, mas prolongá-lo indefinidamente fragiliza a narrativa democrática ucraniana e oferece munições a Moscovo. Não é por acaso que se repete a acusação de que a Ucrânia vive sem eleições e sem horizonte claro de renovação democrática.
Dentro da própria Ucrânia, esse discurso encontra eco, ainda que com nuances. Poroshenko insiste que as eleições só devem acontecer depois da guerra, mas aproveita cada escândalo para reforçar a ideia de que a concentração de poder em torno de Zelensky, dos oligarcas que o apoiam e do Conselho de Segurança Nacional criou uma república de exceção permanente. Outras figuras da elite política e militar começam discretamente a testar mensagens de verdade amarga. Admitir que não há condições para recuperar todos os territórios ocupados. Assumir que o Estado não aguenta mais dois ou três anos de guerra na atual escala. Reconhecer que a reconstrução exigirá compromissos dolorosos. É aqui que Zaluzhnyi volta a entrar na equação, como o homem que, vindo da frente de combate e hoje com cartão diplomático, pode dizer em público aquilo que muitos pensam em privado.
É precisamente esta tensão entre a narrativa da vitória total e a realidade estratégica de um país exausto que define o momento atual. A questão central, que atravessa Washington, Bruxelas e Kiev, é sempre a mesma: quem é que pode sentar-se com Putin e dizer aos ucranianos que o país ficará mais pequeno, mas continuará a existir. Zelensky tem a legitimidade do início da guerra, da recusa em fugir, da comunicação permanente com o povo. Mas hoje tem também o peso da corrupção, das deserções, das demissões forçadas e de uma economia dependente do oxigénio externo e de 4 anos de guerra.
É por isso que, quando se fala numa hipótese de cessar-fogo ou num arranque de negociações “sérias”, começam logo a surgir perguntas sobre o dia seguinte. O dia seguinte da Ucrânia, na cabeça de muitos dos atuais protagonistas, não se escreve com Zelensky. Escreve-se com generais transformados em embaixadores, ex-presidentes reciclados como guardiões da moral pública, tecnocratas próximos do Ocidente e um presidente que chegue à mesa de negociações sem o peso dos últimos três anos.
Voltamos à primeira regra da diplomacia. A verdade não é uma questão de factos, é uma questão de consenso. O facto é que Zelensky continua a ser, legalmente, o presidente legítimo de um país invadido. O consenso que alguns começam a construir, em silêncio, é outro: de que a paz que se desenha hoje nos bastidores será mais fácil se for assinada por alguém que venha depois dele. O risco para a Europa é deixar que esse consenso se imponha por inércia, comprando uma paz barata no mapa à custa de uma erosão profunda da legitimidade democrática ucraniana. Porque o dia seguinte à guerra não é apenas o dia depois de Zelensky. É o dia em que ficaremos a saber se a Ucrânia ganhou um futuro ou apenas sobreviveu a mais um acordo imposto por terceiros.