"Moonfish", o piloto ucraniano que está prestes a defender a pátria aos comandos de um F-16. "É muito manobrável. Encoraja-nos a pilotar num estilo agressivo" - TVI

"Moonfish", o piloto ucraniano que está prestes a defender a pátria aos comandos de um F-16. "É muito manobrável. Encoraja-nos a pilotar num estilo agressivo"

  • CNN
  • Daria Markina-Tarasova
  • 22 nov 2023, 13:31
"Moonfish" é um piloto ucraniano que está a treinar para pilotar F-16

Pilotar F-16 é um sonho antigo para Moonfish, mas era também um sonho do seu bom amigo e camarada Andriy Pilshchikov, o lendário piloto ucraniano que usava o nome de código "Juice"

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A formação de um piloto de caças F-16 pode demorar anos. "Moonfish" - um aviador militar ucraniano - tem apenas seis meses.

Moonfish é a alcunha de um piloto ucraniano que está a treinar para pilotar o avião multifunções concebido pelos Estados Unidos. Falou com a CNN via Zoom a partir de um local não revelado, onde se encontra no seu segundo mês de treino.

"O F-16 é um canivete suíço", disse Moonfish, que pediu para ser identificado pelo seu nome de código por razões de segurança operacional. "É uma arma muito boa que pode realizar qualquer missão."

O F-16 pode dar cobertura aérea às tropas, atacar alvos terrestres, enfrentar aviões inimigos e intercetar mísseis.

Mas a atual guerra na Ucrânia significa que o treino tem de ser comprimido, lembrou Moonfish.

"Teríamos tido muito tempo para estudar completamente o jato em tempo de paz, mas não temos esse tempo", sublinhou, acrescentando que é suficiente para dominar as capacidades básicas de que a Ucrânia necessita.

Em agosto, após meses de pressão por parte de Kiev, os EUA comprometeram-se a aprovar a transferência de caças de quarta geração para a Ucrânia. Mas Kiev não espera receber os aviões antes do início do próximo ano, e os pilotos e as equipas de terra têm de completar uma formação para poderem operar os caças.

Mais de 20 meses após a invasão em grande escala, a Rússia mantém a superioridade aérea sobre a Ucrânia. E as tropas ucranianas têm estado a lutar - e a morrer - numa contraofensiva sem o tipo de apoio aéreo de que os seus líderes dizem precisar.

"Mesmo supondo que a guerra termina amanhã, todos sabemos que será apenas um período de espera para a próxima ronda", considerou Moonfish. "Temos de criar um poder aéreo adequado com jatos ocidentais e pessoal eficazmente treinado. Este será o maior fator de dissuasão - para que o dia 24 de fevereiro [a invasão em grande escala pela Rússia no ano passado] não volte a acontecer."

Yurii Ihnat, porta-voz do Comando da Força Aérea da Ucrânia, diz que seis meses são suficientes para treinar pilotos para apoiar as tropas no terreno e ajudar a ganhar superioridade aérea contra a Rússia.

Um caça F-16 da Força Aérea dos EUA aterra numa base aérea em Ben Guerir, cerca de 58 quilómetros a norte de Marraquexe, durante o exercício militar "African Lion", a 14 de junho de 2021

A Ucrânia também precisa dos novos caças para ajudar a enfrentar outro conjunto de ameaças: os mísseis e drones russos. No inverno passado, Moscovo levou a cabo uma extensa campanha para paralisar as infraestruturas energéticas da Ucrânia, visando instalações de produção e forçando o corte de eletricidade. À medida que o inverno se aproxima, continuam a ser grandes as preocupações de que os mísseis e drones russos voltem a causar estragos.

O comandante da Força Aérea ucraniana, Mykola Oleshchuk, disse à CNN que as defesas aéreas ucranianas destroem, em média, cerca de 75% dos mísseis de cruzeiro e dos drones de ataque que se aproximam, mas que as restantes armas continuam a atingir os seus alvos.

"Precisamos desesperadamente de sistemas de defesa aérea adicionais - de curto, médio e longo alcance, bem como de aeronaves modernas - para proteger o país e alcançar a superioridade aérea sobre os territórios ocupados", defendeu Oleshchuk.

O inventário ucraniano de jatos da era soviética está a envelhecer, sendo que alguns dos aviões da Força Aérea em serviço têm cerca do dobro da idade dos seus pilotos.

"Ainda mantemos estes jatos em boas condições, mas temos de compreender que as missões [realizadas pelos] nossos pilotos com equipamento soviético são mortais", sublinhou Oleshchuk. "E estamos a perder os melhores."

As tropas no terreno também estão à espera dos F-16. O comandante adjunto da Terceira Brigada de Assalto Separada, conhecido pelo nome de código "Mose", disse à CNN que ter F-16 no ar tornaria muito mais fácil para a infantaria realizar as suas missões com melhor cobertura.

"Para a infantaria, estes aviões são extremamente importantes, antes de mais, nas operações ofensivas e nos avanços", explicou. "Os jatos permitir-nos-ão ganhar domínio no ar e apoiar a infantaria para avançar no terreno. Um F-16 pode atingir alvos terrestres inimigos e destruir ou interromper a logística inimiga."

Moonfish, anteriormente comandante de um esquadrão de caças MiG-29 de fabrico soviético, disse que saiu do simulador diretamente para o cockpit do avião real. E está a demorar algum tempo a habituar-se, assumiu.

"O cockpit é bastante apertado", apontou.

Ergonomia à parte, o piloto ucraniano disse que o avião é mais sofisticado em termos de aviónica e muito simples em termos de controlo e interface.

"O F-16 é muito manobrável. Encoraja-nos a pilotar num estilo agressivo", afirmou.

Moonfish disse que se os F-16 estivessem na Ucrânia neste momento, uma das principais tarefas seria repelir as ondas de ataques de drones e mísseis russos.

"O software [do F-16] está constantemente a ser melhorado", observou. "Ao mesmo tempo, o software [dos sistemas] dos MiG-29 e Su-27 [de fabrico soviético] ainda é do final da década de 1980, quando estes aviões estavam a ser desenvolvidos. Nessa altura, os drones só existiam nos livros de ficção científica. Quero dizer que, na altura, ninguém considerava os drones como uma ameaça séria que pudesse ser destruída por aviões de combate."

Um sistema de artilharia autopropulsada ucraniano dispara contra as posições russas na linha da frente perto de Bakhmut, na região de Donetsk, Ucrânia, a 1 de setembro de 2023. AP Photo/Libkos

Alguns dos principais critérios de seleção para a formação nos tão aguardados jatos eram a proficiência na língua inglesa, a experiência e a idade. Devido à guerra em curso, o programa é intensivo.

Pilotar F-16 é um sonho antigo para Moonfish, mas era também um sonho do seu bom amigo e camarada Andriy Pilshchikov, um lendário piloto ucraniano que usava o nome de código "Juice".

Pilshchikov, que tinha ajudado a fazer pressão para que os EUA transferissem F-16 para a Ucrânia, morreu num acidente aéreo durante uma missão de combate em agosto.

Moonfish estava no estrangeiro quando soube da morte do seu amigo. Não pôde ir ao funeral nem despedir-se, mas diz que continua a treinar os F-16 em memória de Pilshchikov e dos seus camaradas.

"Andriy era o 'homem das ideias' e a principal força motriz por detrás de tudo", elogiou Moonfish. "E sinto-me responsável perante ele por garantir que estes aviões chegam."

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