Queima das Fitas "não é só festas e bebedeiras". Vêm pais, irmãos, avós e tios (e o Quim Barreiros, claro) - TVI

Queima das Fitas "não é só festas e bebedeiras". Vêm pais, irmãos, avós e tios (e o Quim Barreiros, claro)

Serenata Monumental da Queima das Fitas de Coimbra 2016

Entre a tradição académica e as tradicionais bebedeiras, maio é o mês da Queima das Fitas nas universidades de todo o país. É também um momento de orgulho para as famílias e de grande emoção para os finalistas. "É o fim de uma etapa, a licenciatura ainda tem esse simbolismo", explicam os estudantes

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No ano em que a filha terminou o curso de Nutrição, os pais de Ana Gabriela vieram de Albergaria-a-Velha até ao Porto para ver o cortejo dos finalistas e a imposição das insígnias. "Fiz questão de os ter comigo, era um momento muito significativo. Os meus pais não tiraram qualquer curso superior e esforçaram-se muito para que eu pudesse estar aqui. Acho que há um orgulho muito grande das famílias nestes dias", conta Ana Gabriela Cabilhas, presidente da Federação Académica do Porto, atualmente com 26 anos e a frequentar o mestrado em Ciências do Consumo. 

Não, não é só festas e bebedeiras, confirma João Pedro Caseiro, o presidente da Associação Académica de Coimbra, de 23 anos, que já terminou a licenciatura em Ciências da Educação e o mestrado em Administração Associação Educacional. É claro que os festejos duram uma semana, que nesses dias há poucos estudantes nas salas de aulas e que, ninguém o nega, poderá haver alguns excessos - mas a Queima das Fitas, dizem os estudantes que a fazem, é muito mais do que isso. "Há vários tipos de festejos", explica João Pedro. Em Coimbra, por exemplo, "as Noites do Parque são para toda a gente, quem quiser vem, não precisa ser estudante. São noites de festa. Depois há atividades que são mais para os estudantes e para as famílias e há momentos que são para os finalistas, há todo um programa de atividades académicas que são muito importantes". "Para os estudantes, este festejo marca o fim do ano letivo. Para os finalistas significa o fim do curso. E temos muitas tradições associadas a este momento", diz. 

"É a grande festa dos estudantes. Os festejos têm diferentes significados à medida que vamos avançando no percurso académico", explica Ana Gabriela. "No primeiro ano, é o começar de um novo ciclo, há ainda uma grande expectativa, estamos a fazer amigos que sabemos que vão ficar para a vida. No final do curso, há aquele sentimento de realização pessoal, de uma etapa que foi concluída, é um momento de celebração com a família e com os amigos. Estes anos da universidade são muito importantes. São importantes para todos, mas para quem é estudante deslocada, como eu, há um crescimento enorme. São experiências que nos marcam. E queremos guardar estas memórias porque sabemos que este é um tempo que não volta, que a partir daqui muitos vão começar a trabalhar e começa uma nova fase da vida."

Ainda que muitos dos estudantes não terminem o seu percurso académico com a licenciatura - são cada vez mais os que optam por fazer mestrado - "sente-se que é o fim de uma etapa, a licenciatura ainda tem esse simbolismo", diz Ana Gabriela Cabilhas. "O mestrado já é uma nova fase, muitos já são trabalhadores, os desafios já estão mais ligados ao mercado de trabalho."

"É o fim de uma etapa e o início de outra", confirma Catarina Ruivo, presidente da Federação Académica de Lisboa, que tem 22 anos e está neste momento no 5º ano do mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas. "Apesar de atualmente, e felizmente, haver mais pessoas que frequentam o ensino superior, terminar a licenciatura ainda tem um enorme significado. Nesta semana, muitas famílias vêm visitar as universidades, conhecer os sítios onde os filhos estudaram. Sobretudo para os estudantes deslocados é um momento muito emotivo, vêm pais, irmãos, avós, tios. Há muitos almoços de família no dia da Bênção das Fitas", explica. 

Que o diga Vítor Lelis, de 24 anos, brasileiro oriundo do estado do Rio de Janeiro, que há quatro anos se mudou para Braga para estudar Engenharia Informática na Universidade do Minho. Neste momento, está no último ano da licenciatura e entusiamado com a festa que aqui se chama "Enterro da Gata": "A minha mãe, a minha avó, o meu irmão e o meu tio vieram de propósito do Brasil para assistir aos festejos", conta. "Quero mostrar-lhes a universidade e um pouco da cidade, para eles ficarem a conhecer este que agora é o meu mundo."

"No Brasil a festa dos finalistas é só um dia, aqui é uma semana inteira, é quase como se fosse o nosso carnaval", comenta Vítor, que agora se prepara para prosseguir para o mestrado. "Eu vou continuar aqui, mas muitos colegas vão para outras faculdades ou mesmo outras cidades, já nos perguntamos 'e agora como vai ser?' Mesmo continuando a estudar, sentimos que este é o fim de uma etapa."

Do hip hop ao Quim Barreiros, entre mergulhos e missas

Slow-J, T-Rex, Wet Bed Gang, Dillaz e... Quim Barreiros, claro. O músico do acordeão e das canções com letras marotas é, há décadas, o artista mais requisitado para as festas dos estudantes. "Já é uma tradição", comenta Ana Gabriela Cabilhas.

A Queima das Fitas do Porto arranca este domingo e tem uma agenda preenchida até ao dia 13. "Já estamos a trabalhar nisto deste janeiro", explica Ana Gabriela. O evento que se anuncia como "a maior festa académica do país" contou no ano passado com mais de 300 mil pessoas. Por isso, as expectativas para este ano são grandes, admite a responsável. As Noites no Queimódromo começam às 20:00, com barraquinhas das diferentes faculdades, comes e bebes e espetáculos. "Este ano temos mais espaços verdes, mais um palco - o Palco Cultura, com atuações de humor e dança - e uma aposta maior no Palco Academia, com uma programação mais ambiciosa e mais transversal", explica a presidente da FAP. No Queimódromo estarão 20 a 30 mil pessoas todas as noites.

Mas a Queima não se esgota nos concertos. "Todo o processo de escrita das fitas é importante. E depois participar na organização, a preparação dos carros para os cortejos..." Finalmente, existem os momentos académicos, que são, afinal de contas, os mais simbólicos, como a serenata ou o baile. "Mas o momento mais significativo é a deposição das insígnias, quando somos cartolados, ou seja, recebemos a bengala e a cartola com as cores do curso."

Apesar de ser uma festa de estudantes, a organização é tão profissional como a de qualquer festival, garante Ana Gabriela. A FAP trabalha "com grande seriedade e exigência", em parceria com os municípios e com diversas empresas para conseguir pôr a Queima de pé. "Há um compromisso grande com a cidade e uma responsabilidade social e ambiental, temos consciência do impacto que estas celebrações têm no quotidiano da cidade e, concretamente, no parque."

São 600 os estudantes voluntários que trabalham na organização, "devolvendo a celebração aos seus pares, num grande espírito de comunidade". "Isso é muito bonito. Os estudantes de enfermagem e psicologia recebem formação de prevenção de comportamentos de risco para trabalhem do recinto, outros estão na comissão ambiental, na organização das atividades, em todas as áreas. Há um grande compromisso de todos. O maior gozo é ver o que  conseguimos proporcionar aos estudantes, no final, em toda a equipa há um sentimento de missão cumprida, essa é a melhor recompensa", diz a presidente da FAP.

Ana Gabriela Cabilhas ao lado do presidente da Câmara do Porto na Queima das Fitas de 2022 (DR)

Em Lisboa, a Bênção de Finalistas acontece no dia 20 de maio, na Alameda Universitária. "Esse é um momento mais religioso e que é geralmente mais para as famílias." Mas as festas acontecem ao longo de todo o mês de maio nas diferentes faculdades. Na capital, devido ao enorme número de universidades e de estudantes seria muito complicado organizar um único programa de Queima das Fitas, explica a presidente da Associação Académica: "Cada instituição tem a sua tradição e organiza os seus eventos académicos". Mas, nos dias 1, 2 e 3 de junho realiza-se o Festival Académico de Lisboa, que pretende reunir toda a comunidade estudantil num grande evento no Polo Universitário da Ajuda. "Não se compara aos festivais de música, porque o que une aquelas pessoas ali não é a música é o quererem estar com os seus pares, com os amigos que fizeram nos últimos três ou cinco anos, é um ambiente totalmente diferente, de celebração da amizade", garante Catarina Ruivo.

Em Évora, os festejos duram nove noites - de 19 a 27 de maio - e terminam no dia 28, com o cortejo, que "simboliza a despedida dos estudantes da cidade", explica Henrique Gil, Presidente da Associação Académica da Universidade de Évora, licenciado em Ciência e Tecnologia Animal, atualmente estudante do mestrado em Engenharia Zootecnica. 

Mas o dia mais importante é o 27. O dia começa com a Bênção das Pastas e depois, ao final da tarde, acontece a Queima das das Fitas, seguida do Banho: "Os finalistas são literalmente atirados para uma piscina", conta Henrique Gil. "Antigamente, mergulhavam na Fonte do Espírito Santo [a fonte que fica no pátio da universidade]. Mas, agora, é mesmo construída uma piscina de propósito. Cada estudante escolhe quatro pessoas, geralmente familiares ou os melhores amigos, que o vão atirar para a piscina. Isto tem um grande simbolismo. Os finalistas, ao mergulharem, deixam ali o seu conhecimento, que depois será recebido pelos caloiros que, no ano seguinte, vão molhar o pé na fonte, que é uma das tradições da praxe."

"Para além de sentirmos que é o fechar do capítulo, aquele momento é muito emotivo. Há muitos choros e muitos sorrisos", conta Henrique Gil, que considera que os festejos da Queima são um evento de união entre todos os estudantes e também de grande ligação à cidade. "Em Évora temos mais de 8 mil estudantes, mais de 60% são de fora. Sendo uma cidade pequena e com faculdades espalhadas, o nosso campus é a cidade, todos nos cruzamos, todos nos conhecemos. O momento é dos finalistas mas a festa é de todos. Nestes dias, as famílias vêm de todo o lado para assistir e isso tem um grande impacto na economia da região, com alojamentos e restaurantes cheios." 

A mais tradional das Queimas das Fitas é a de Coimbra, que este ano acontece entre 13 e 19 de maio. "A Queima envolve toda a comunidade estudantil e vai muito além da boémia", diz João Pedro Caseiro. "É a reunião de todos os elementos da vida académica de Coimbra. E não só para os finalistas, Para os novos alunos, por exemplo, esta será a primeira vez que usam capa e batina."

"É uma semana muito diferente, não há aulas, a cidade muda porque os horários dos estudantes também mudam, nota-se uma diferença, é uma semana feliz, de festa, em que tudo em gira em volta dos estudantes", explica o presidente da Federação Académica. Além dos concertos, existe um programa desportivo e académico, que inclui a bênção das pastas, um baile de gala, que é um momento mais formal, e depois um "chá dançante", que é uma festa mais descontraída dos finalistas: "Os estudantes destroem os adereços de esferovite do baile, ou então levam alguns como lembrança."

A Serenata é "o ex-libris cultural da nossa Queima das Fitas", diz João Pedro. Normalmente realizada na Sé da Velha, este ano, devido às obras na cidade, vai acontecer no Palácio das Escolas. "É um momento único, é preciso estar lá para sentir."

Serenata Monumental da Queima das Fitas de Coimbra 2016

 

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