Se neste mapa não vê as fronteiras de Portugal é porque morreram demasiadas pessoas - TVI

Se neste mapa não vê as fronteiras de Portugal é porque morreram demasiadas pessoas

Memorial Mapa

Cada estrela é uma vida perdida, uma família desfeita, crianças que ficaram órfãs. Este é um mapa de homenagem às vítimas de violência doméstica, mas não só. É também um alerta e mostra-nos onde os crimes aconteceram. Quais os distritos e, até as freguesias mais marcadas pela tragédia. Infelizmente, está em atualização constante

Chama-se Memorial Mapa e tem, neste momento, 269 estrelas. Cada estrela representa uma vida perdida de forma trágica. São mulheres, homens e crianças vítimas de violência doméstica. Este mapa é uma homenagem, mas é mais do que isso. Cada estrela é um crime e mostra não só o distrito onde aconteceu, como a freguesia. O que permite, por exemplo, uma visão do fenómeno desconhecida até agora. Com estes dados, se houver interesse das autoridades, até se pode planear campanhas de prevenção mais localizadas.

António Castanho, psicólogo e psicoterapeuta, é o autor. Esteve muitos anos ao serviço do Ministério da Administração Interna. Passou pelas suas mãos a criação da ficha de avaliação de risco em casos de violência doméstica, que é usada hoje pelas forças de segurança. É considerado uma referência na área. “Isto é um memorial, portanto, o objetivo principal disto é que estas vítimas sejam homenageadas de alguma forma e não se percam na espuma dos dias. Que isto sirva como alerta”, afirma à CNN Portugal.

Mas há sempre perguntas que teimam em surgir e a procura de respostas é constante. Os relatórios  divulgados pelas autoridades falam sobre o número de participações criminais que acontecem em cada distrito ou em cada concelho, mas não se conhecem os casos, nem a localização certa como, por exemplo, "as freguesias", explica António Castanho. Algo que este mapa permite. Além dos distritos com mais crimes, pode-se agora identificar as freguesias.

Há distritos onde “os números são maiores do que em outros” e isso também se passa com as freguesias (dentro dos diferentes distritos). Um facto que para este especialista pode ser justificado por “questões populacionais, mas pode ser também por outra questão" e se calhar merece "uma preocupação por parte das autarquias e da rede nacional, até para uma intervenção específica nesses locais”.

O mapa não tem todos os crimes contabilizados e está em constante atualização. O caso mais antigo marcado no mapa “é de 2014”, mas António Castanho já encontrou “um de 2011” que ainda não inseriu. Procurar e introduzir a informação com rigor tem sido um trabalho moroso realizado nos últimos anos. Mas os números expressos ficam aquém da realidade. “Há recolha de informação dos meios de comunicação social e dos relatórios da UMAR (Observatório de Mulheres Assassinados). Isto não abrange, obviamente, todos os homicídios ocorridos”, assume.

Quando começou a construir o mapa quis, entre outras coisas, “tentar perceber alguns padrões”. A primeira procura foi de “vítimas tinham sido assassinadas com recurso a estrangulamento ou a esganadura”. E o motivo é simples. Apesar de já se ter feito um caminho, há muito para andar. Ainda há “pouca sensibilização e formação dos operadores do sistema para reconhecer este tipo de violência. Muitas vezes os homicídios ocorrem e, antes, houve esganaduras não fatais prévias”.

E essa desvalorização tem um preço: “Não se fazem exames mais profundos e 50% destas vítimas, que sofrem esganaduras não fatais, desenvolvem quadros de danos neurológicos ou derrames que não são detetados. Mesmo em termos de produção de prova, como não se fazem exames mais profundos, não é valorizado” em tribunal.

“É uma oportunidade de passar uma mensagem, além da homenagem”

Ao olhar para o Memorial Mapa, há vários distritos que se destacam e que devem ser motivo de preocupação. Têm os valores mais altos de homicídios relacionados com violência doméstica: Lisboa (48), Porto (46), Setúbal (32), Faro (19), Aveiro (16) e Leiria (14).

“Por exemplo o concelho do Seixal, que é o concelho onde eu vivo, pelo menos, pelo levantamento que eu fiz, foram 10 homicídios. Cinco na freguesia da Amora e cinco na freguesia de Corroios”, acrescenta António Castanho, defendendo que são “zonas que se calhar merecem outro tipo de intervenção” até porque “quando alguém é assassinado, toda a comunidade é afetada”.

A cidade de Lisboa, ao contrário do distrito, não tem um valor muito elevado tendo em conta a população residente e a explicação pode não ser óbvia. “Há mais respostas? Há mais apoio? Ou também tem a ver com contextos sociais, eventualmente?”. Até porque outros dados se revelaram curiosos: “Oeiras tem cinco homicídios e Cascais seis”.

“É importante olhar para isto com preocupação e fazer incidir, por exemplo, nestas áreas onde aconteceram mais crimes uma maior sensibilização, um maior apoio”, defende o psicólogo.

Levar as entidades competentes a agir e a fazer mais é um desejo, mas “educar e sensibilizar” todos é essencial. “É uma oportunidade de passar uma mensagem, além da homenagem” fazer chegar “mensagens que decorrem dos estudos, decorrem da investigação, decorrem do que nós sabemos”.

Quando se navega pelo mapa, “cada estrela tem uma mensagem. São diferentes. Mas são mensagens que considero importante passar a todos”.

O mapa ainda está “em construção” e em permanente atualização. Mas não é possível ficar indiferente às estrelas que ali estão representadas. “O objetivo também é provocar um pouco mais de reação. Perceberem que estas pessoas morreram e que estas famílias foram afetadas. Muitas crianças ficaram órfãs, muitas famílias ficaram traumatizadas. E que é preciso olhar para isto”, conclui António Castanho.

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