"Foram eles que iniciaram a guerra." Foi este o argumento que marcou o ponto de partida do discurso de Vladimir Putin sobre o estado da nação, o primeiro em dois anos. Durante cerca de duas horas, o presidente russo culpou a Ucrânia, os Estados Unidos, a Europa e as elites russas pelo que se está a passar.

“Nós não tivemos dúvidas de que estava tudo preparado” para uma ação de Kiev no Donbass, justifica. Mas a culpa recai acima de tudo sobre o Ocidente, considera Putin, que em 1939 "abriu a porta aos neonazis da Alemanha" que hoje fazem do povo ucraniano “reféns das questões ocidentais”. 

“A história repete-se”, observa, argumentando que o Ocidente financiou a revolução de 2014 na Ucrânia que acabou por derrubar o governo pró-russo. “Isto impulsionou a russofobia, o nacionalismo extremo.”

Perante uma plateia de figuras que absorviam atentamente cada palavra, Putin diz que a Rússia tem-se mostrado “aberta ao diálogo com o Ocidente”. “Mas, como resposta, tudo o que recebemos foi hipocrisia”, acusa. Por isso, “não nos deixaram outra opção para defender a Rússia e o nosso povo senão aquela que somos agora forçados a utilizar”, reitera. "Foram eles que iniciaram a guerra e nós utilizámos a força para a parar."

Vladimir Putin faz discurso sobre o Estado da Nação (AFP via Getty Images)

Depois de percorrer a História desde a desintegração da União Soviética, Putin fez um momento de silêncio em memória dos soldados russos que perderam a vida na Ucrânia, agradecendo-lhes “a coragem”. E prometeu um “fundo especial” destinado às famílias “dos soldados que morreram e dos veteranos da operação militar especial”, além de apoio psicológico e de “um período de descanso não inferior a 14 dias” aos soldados para que possam visitar as suas famílias. Medidas que mereceram aplausos que ecoaram pela Duma.

Putin pede às elites que invistam internamente em vez de comprarem iates

Os aplausos foram o impulso para o que se seguiu: uma apologia do crescimento económico da Rússia, apesar de todos os "esforços ocidentais em sentido contrário".

“Os que iniciaram as sanções estão a castigar-se a eles próprios”, diz. “Eles provocaram um crescimento dos preços nos próprios países, o encerramento de fábricas, o colapso do sector energético e estão a dizer aos respectivos cidadãos que a culpa é dos russos”, acrescenta.

Em contrapartida, a economia da Rússia segue uma trajetória de crescimento, com o chefe de Estado russo a prever uma inflação de 4%, bem abaixo das estimativas dos países do Ocidente. 

"Não temos de pedir dinheiro ao estrangeiro", garante. “Eles esperavam o colapso da economia russa, mas os nossos negócios reconstruíram-se com novas logísticas e parcerias”, aponta.

É neste ponto que Vladimir Putin aponta o dedo às elites russas, acusando-as de terem caído na “mentira” do mercado livre. “Os recursos foram canalizados para o Ocidente e a nossa elite começou a investir dinheiro em iates, em imobiliário. Isto porque vivíamos num ambiente de mercado livre, mas acabámos por perceber que esta ideia se transformou numa mentira. Muitos dos que investiram aí acabaram por ser roubados."

Por isso, o presidente russo apelou para que aqueles que agora “imploram” por dinheiro do Ocidente façam investimentos no próprio país, adquirindo tecnologia russa, por exemplo. 

“Lancem novos projetos, façam dinheiro, invistam na Rússia. É assim que conseguem multiplicar o vosso capital e conquistar o reconhecimento e a gratidão das gerações futuras”, salienta.

Ameaça nuclear

O presidente russo retomou depois os assuntos internacionais, desta vez com o discurso mais focado nos Estados Unidos. De acordo com Putin, “há uma tentativa de demonstração do domínio global [dos EUA]” que visa “destruir a arquitetura das relações internacionais construída após a II Guerra Mundial".

“Não podemos permitir que os EUA passem à formulação da estrutura mundial mediante os seus próprios interesses", declara. E não esquece o papel da NATO, que, na sua perspetiva, se transformou “num participante efetivo nos objetivos estratégicos da Europa”.

“Na NATO não existe apenas o arsenal nuclear dos EUA. Existe também o arsenal nuclear da França, do Reino Unido, que são dirigidos para a Rússia", acrescenta.

"As últimas declarações [dos líderes ocidentais] confirmam isto. Não podemos ignorar estas declarações", vinca, acrescentando que a Rússia tem nas suas mãos “um ultimato por parte da NATO”.

Por isso, Putin diz ter sido forçado a suspender a sua participação no tratado New START, o último pacto de controlo de armas nucleares que restava com os Estados Unidos, aumentando assim tensão com Washington. E garante: “Se os Estados Unidos avançarem com testes nucleares, a Rússia também o fará.”

Vladimir Putin terminou o discurso de cerca de duas horas com a promessa de que “a Rússia vai responder a quaisquer desafios que enfrentar”. “Porque somos um país individual. Somos um povo unido. Estamos confiantes no nosso poder. A verdade está no nosso lado.”

Beatriz Céu