Raquel Macedo
Maria João Pinho
Nasceu numa família “bem” e endinheirada. Os pais vivem no Norte, retirados numa quinta que está na família há várias gerações. Foi para aí que foram viver quando, nos anos de 1980, regressaram a Portugal, vindos de Espanha, onde se tinham “exilado” durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC). A fortuna de família permitiu que o pai de Raquel se reformasse e fizesse da casa apalaçada que existe no meio da quinta um ponto turístico de interesse cultural de relevo. Raquel e a irmã Sara vieram estudar para Lisboa nos últimos anos do ensino secundário. Frequentaram uma escola de freiras e ficaram instaladas, com uma “criada” de família, Júlia, num apartamento confortável no centro de Lisboa (Estrela/Príncipe Real/Campo de Ourique). Raquel é muito bonita, muito sensível e conheceu Gonçalo, mais velho do que ela, numa festa de amigos comuns. Apaixonaram-se e, apesar dos pais de Raquel não apreciarem especialmente aquele namoro, porque a leva a desistir de estudar muito cedo, não houve nada a fazer. Aos 19 anos, Raquel casou-se deixando para trás a ideia de fazer um curso de Gestão das Artes. Nas horas livres, que são muitas, dedica-se à pintura e ao desenho assinando os seus trabalhos com o pseudónimo “Rack”. Raquel dedicou-se ao casamento, aos dois filhos gémeos, no presente com 18 anos, ao marido, e a gastar o seu próprio dinheiro, e o do marido, em constantes renovações da casa de Lisboa, no Restelo, da casa da quinta que compraram na Arrábida e, às escondidas de todos, nos casinos. Às escondidas de todos, até de si própria, Raquel é profundamente infeliz.
Quase aos 40 anos, Raquel mantém a beleza, o ânimo e a paixão pela vida de outrora. Não para, para pensar que a vida rotineira, pouco desafiante e pouco ocupada que leva, pode fazer o marido perder o interesse por si e baixar-lhe drasticamente os níveis de autoestima. Em 20 anos de casados, o fogo sexual no casal mantém-se e Raquel vive feliz e despreocupada. Raquel tem muito má relação com a sogra, Matilde, que sempre a achou fútil e inútil, indigna do seu querido e único filho. A leveza com que Raquel encara a vida, e a sua ingenuidade, determinam que veja de forma natural o encontro e a súbita e profunda amizade entre a sua família e a família de Augusto e Marina. Por ser de tão alto “extrato social”, Raquel não tem medo de “contágios” e acha até tudo muito pitoresco. Quer ajudá-los o mais que puder.