Uma das maiores especialistas espanholas em degustação e torra de café revelou o que justifica o preço elevado de alguns cafés e mostrou a sua indignação por ainda ser permitida a venda de um tipo de café muito comum.
“Não entendo como o café torrefacto não é proibido. Não é só por ter açúcar, mas por esse açúcar ser queimado. O açúcar não acrescenta nada ao café. Se colocar um grão de café torrefacto em água fria, vai ver o que acontece: só lhe dá cor. Porque o gosto é horrível. O que acontece é que isso se tornou um hábito de consumo”, afirmou Marisa Baqué, campeã nacional de degustadores de café, em entrevista ao jornal espanhol ABC.
A especialista explicou ainda as origens deste tipo de torra: “Dizem que a torra foi inventada quando o café era um artigo de luxo, para lhe dar mais peso e compensar o custo da matéria-prima. Acredita-se também que o açúcar foi adicionado para melhorar o sabor, e outros acreditam que foi porque envolver o grão com açúcar o preserva melhor. Fique com o que quiser — a realidade é que o consumidor acredita que é de melhor qualidade, e isso não é verdade.”
Mas afinal, porque é que alguns lotes de café são mais caros?
Segundo Marisa Baqué, “os cafés especiais são mais sustentáveis em todos os aspetos: ecológico, económico e social.” O preço mais elevado deve-se também a fatores como o momento certo da colheita do grão maduro, a seleção criteriosa e uma fermentação muito cuidadosa — processos que exigem tempo e investimento. “Tudo isto é pago”, sublinha.
Por outro lado, os cafés mais baratos provêm de grandes plantações, onde a seleção é feita de forma mecanizada e menos rigorosa. “No café de qualidade percebemos notas frutadas ou mais florais, sempre muito agradáveis. Nos outros, entram cafés imaturos ou com má fermentação, misturados com grãos deteriorados. Assim, o sabor torna-se adstringente e terroso, e por vezes surgem notas que lembram azeitonas — um claro indicador de má fermentação.”
Com estas explicações, a especialista reforça a importância de valorizar o café de qualidade e alerta para a necessidade de repensar hábitos de consumo enraizados, como o do café torrefacto, que, segundo ela, “deveria já estar proibido.”