Em «Momento certo», Quando era pequena, viu o pai abandonar a mãe com sete filhos. Foram tempos difíceis para a família. Fernanda era uma criança e viu a mãe ter de arregaçar as mangas e trabalhar muito para que não passassem fome. Esta mulher, aqui ao meu lado, passou, por isso, a faltar muitas vezes à escola para poder ficar a ajudar em casa, sobretudo a tomar conta de alguns irmãos. É, portanto, natural, que diga que as letras começaram a fugir-lhe e, rapidamente, percebeu que não sabia sequer ler nem escrever. A mãe dava-lhe o dinheiro certo para ela ir à mercearia, pois fazer contas era coisa que não conseguia. Lá foi arranjando truques para, por exemplo, saber qual o autocarro que tinha de apanhar... Quando o escudo foi trocado pelo Euro foi uma tragédia para ela. Já estava habituada às notas e moedas e foi um pesadelo ter de aprender tudo de novo. Apoiava-se muito no marido que, entretanto, morreu há 30 anos. E a história repetia-se. Tal como a mãe, Fernanda viu-se sozinha com os filhos… a trabalhar horas a fio para lhes garantir o mínimo de conforto. Até que, aos 56 anos, já com os filhos orientados, decidiu que não queria mais ser analfabeta. Começou a ter aulas e, hoje, é com orgulho que diz que já sabe ler as legendas na televisão e as cartas que recebe em casa.
Uma vida de sacrifícios: Fernanda trocou a escola pela família, mas aos 56 anos venceu a luta contra o analfabetismo
15 nov, 23:59