Gracindo Jr. morreu aos 83 anos, deixando para trás uma carreira com mais de cinco décadas dedicada à representação, à realização e ao teatro. O ator e realizador brasileiro morreu na noite de terça-feira, 1 de setembro, em casa, no Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada pelo filho, Pedro Gracindo. A causa da morte não foi divulgada.
Nascido no Rio de Janeiro, a 21 de maio de 1943, Epaminondas Xavier Gracindo, conhecido artisticamente como Gracindo Jr., cresceu no seio de uma família ligada às artes. Era filho do consagrado ator Paulo Gracindo, uma das grandes figuras da rádio e da televisão brasileiras.
A paixão pela representação surgiu muito cedo. Aos 15 anos, Gracindo Jr. fez um teste para trabalhar na Rádio Nacional, onde o pai vivia uma fase de grande popularidade. Acabou por iniciar ali um percurso que o levaria a trabalhar como ator, redator e disc-jóquei.
Chegou a frequentar o curso de Psicologia, mas nunca exerceu a profissão. O teatro, o rádio, o cinema e a televisão acabariam por ocupar toda a sua vida profissional.
Foi perseguido durante a Ditadura Militar
A trajetória de Gracindo Jr. ficou também marcada pelo contexto político do Brasil. Militante do Partido Comunista, foi perseguido pela Ditadura Militar após o golpe de 1964 e acabou por ser impedido de trabalhar na Rádio Nacional.
Segundo o Memória Globo, Gracindo Jr. foi cassado juntamente com outros 38 artistas, entre os quais Dias Gomes e Mário Lago. Na altura, já tinha experiência em televisão, depois de ter passado pela TV Rio, TV Excelsior e TV Tupi.
Apesar das dificuldades, continuou ligado à representação e encontraria na televisão uma das principais plataformas para desenvolver a sua carreira.
Um dos primeiros atores da TV Globo
Gracindo Jr. fez parte da história da televisão brasileira desde os primeiros tempos da Globo. A emissora foi inaugurada em 1965 e o ator integrou o seu primeiro elenco.
Nesse mesmo ano, participou em Rosinha do Sobrado, a segunda novela transmitida pelo canal. Seguiram-se trabalhos em produções como Padre Tião, A Rainha Louca, A Próxima Atração, Os Ossos do Barão e Supermanoela.
Um dos momentos particularmente marcantes da sua carreira aconteceu em O Casarão, novela de Lauro César Muniz exibida em 1976. Gracindo Jr. interpretou João Maciel na primeira fase da história, enquanto o seu pai, Paulo Gracindo, deu vida à mesma personagem numa fase posterior.
Também integrou o elenco de O Bem-Amado, uma das produções mais emblemáticas da televisão brasileira, onde voltou a contracenar com o pai.
Do outro lado das câmaras
Além da representação, Gracindo Jr. desenvolveu uma carreira como diretor. Em 1973, estreou-se na realização teatral com A Longa Noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna Filho.
Mais tarde, assumiu funções de supervisão e realização na Globo, dirigindo novelas como Memórias de Amor e Marron-Glacé. Ao longo dos anos, trabalhou ainda noutras emissoras e manteve uma ligação permanente ao teatro.
A sua carreira televisiva incluiu ainda sucessos como Rainha da Sucata, Deus nos Acuda, Explode Coração, Celebridade e Como uma Onda.
A partir de 2006, passou a trabalhar também em produções da Record, participando em novelas como Cidadão Brasileiro e Poder Paralelo, além da minissérie Rei Davi.
«O que eu mais aprendi com o meu pai»
Ao recordar a influência de Paulo Gracindo na sua vida, o ator destacou sobretudo os valores profissionais que recebeu do pai.
«Eu acho que o que eu mais aprendi com o meu pai foi responsabilidade no meu trabalho, estima pelo meu trabalho, saber que meu trabalho é uma coisa muito importante», afirmou numa entrevista ao Memória Globo.
Gracindo Jr. recordava o pai como um homem profundamente dedicado à profissão.
«Meu pai trabalhou 65 anos e nunca me lembro dele não tendo feito sucesso, em qualquer área de comunicação», contou. «Foi um homem que passou em rádio, em circo, em televisão, em cinema, em tudo ele foi sucesso.»
Sobre a personalidade do pai, acrescentou: «A lembrança que eu tenho dele é dessa pessoa delicada, dessa pessoa amiga, solidária e que seu maior amor era o seu trabalho. Se o trabalho dele estivesse bem-feito, ele estava feliz na vida.»
Uma carreira entre televisão, cinema e teatro
Ao longo de mais de 50 anos de carreira, Gracindo Jr. construiu um percurso que ultrapassou largamente a televisão. Participou em numerosas peças de teatro enquanto ator, produtor e diretor e teve também uma presença regular no cinema e em produções televisivas.
Em 1984, passou pela TV Manchete, onde participou em A Marquesa de Santos e, posteriormente, em Dona Beija. Regressaria depois à Globo, mantendo uma carreira diversificada entre representação e realização.
Nos últimos anos, foi-se afastando progressivamente dos ecrãs. A sua última aparição televisiva aconteceu na série Homens?, em 2019.
A morte de Gracindo Jr. encerra uma carreira profundamente ligada à história da dramaturgia brasileira. Filho de uma das maiores figuras da televisão do país, conseguiu construir um nome próprio e deixar uma marca em diferentes gerações de espectadores, tanto à frente como atrás das câmaras.
Recorde o ator na galeria que preparámos para si, em cima.