Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real
Chamo-me Helena e, aos 68 anos, descobri o amor — ou melhor, descobri o desejo. Depois de uma vida inteira a acreditar que o amor era apenas companhia, respeito e rotina, percebi que afinal havia mais: havia fogo, aquele fogo que arde dentro de nós e nos faz sentir vivos de verdade.
Casei-me pela primeira vez aos 22 anos. Era nova, ingénua e não esperava muito da vida a dois — apenas companhia, talvez algum conforto, e a sensação de ter alguém ao meu lado. Até então, as minhas relações tinham sido curtas, mornas, como pequenas chamas que se apagavam antes de aquecer de verdade. Nunca senti aquele desejo profundo, aquele arrebatamento que se vê nos filmes ou se lê nos livros. No casamento, parecia que nada mudaria. Havia respeito, sim, mas falta de paixão; havia rotina, mas não havia prazer. O toque, os olhares, os gestos de carinho eram previsíveis, quase mecânicos. Aprendi a conter expectativas e a aceitar a mediocridade como normal, sem perceber que o desejo também merece ser vivido, que o amor pode e deve ser intenso, urgente, avassalador.
O meu marido tornou-se infiel e não foi só uma vez. Acho que não sabia ser de outra forma e procurava, naquelas relações fugazes, validação exterior. Aquilo dava-me pena, uma pena que se misturava com raiva contida e tristeza silenciosa. Mas, a certa altura, tornou-se abusivo verbalmente — palavras duras, olhares que magoavam mais do que um grito, feridas invisíveis que se entranhavam no peito. Ao fim de 18 anos e dois filhos, arranjei forças para o deixar, como quem arranca uma raiz profunda que já não nos alimenta.
O meu segundo marido chegou numa fase mais madura da minha vida. Tinha quarenta e poucos anos. Era um homem bom, amigo, mas faltava-lhe entusiasmo. Ele não tinha libido. Passávamos semanas, meses sem intimidade, em silêncio e afastamento que doíam mais do que qualquer discussão. A certa altura insinuou que eu tinha “demasiado desejo” e essa frase cravou-se em mim como uma ferida aberta, queimando-me por dentro. Ganhei vergonha, fechei-me, retraí-me. Ao fim de mais de dois anos sem nos tocarmos, percebemos que era melhor separar-nos. Eu tinha quase 50 anos. Estava cansada, exausta de esperar pelo impossível. Achei que o amor não era para mim.
Mas reencontrei um colega de trabalho que não via há muitos anos, uma cara conhecida que me trouxe conforto e ternura. Tivemos um breve namoro e casámos numa cerimónia pequena, simples. Davamo-nos bem. Não havia paixão, mas havia cumplicidade. Achei que era o melhor que teria na vida. Ficámos juntos mais de 10 anos, até ele morrer lentamente, depois de uma doença prolongada que não só lhe tirou a vida, como nos roubou a alegria durante muito tempo. No fim daquilo tudo, senti um misto de alívio e vazio. Tinha 63 anos, era viúva, e sentia-me subitamente de novo despertada para a vida, como se uma porta esquecida tivesse sido aberta.
Foi a minha neta Alice quem me abriu a porta para o inesperado. Ela jantava muitas vezes em minha casa — conversávamos horas, bebíamos vinho, cozinhávamos lasanha de raiz. Uma noite, entre risos cúmplices, falou-me das aplicações de encontros. Eu ri, claro. “Avó, bora lá! Hoje em dia é assim que as pessoas se conhecem.” Não a levei a sério. Mas, umas noites mais tarde, Alice abriu-me uma conta e ficámos horas a “dar match”, a brincar. Rimos como duas adolescentes, como se o tempo não tivesse passado, e a vida se tornasse de repente leve e cheia de possibilidades.
Ao fim de alguns dias, Alice insistiu, num dos matches que me tinha calhado:
— Avó, porque não sais com este Fernando?
Olhei para a fotografia. Ele aparecia bronzeado, de óculos de sol, em frente às pirâmides. Cabelo grisalho, sorriso confiante. “Avó, é hora de arriscar”, dizia Alice. E, sem esperar, escreveu as primeiras mensagens por mim. Quando dei por mim, já tínhamos encontro marcado. Alice foi à minha casa escolher a roupa comigo. Usei um vestido antigo verde, que me ficava bem, e uns brincos compridos. Senti-me bonita, confiante, desejada, pronta para me entregar à vida.
Fui ter com Fernando ao pé da praia, para um café ao fim da tarde, à beira-mar. Fernando tinha 51 anos e aquela diferença de idades — eu tinha 68 — fez-me inicialmente confusão. Mas, quando o conheci, a conversa fluiu, foi tudo fácil, natural, como se nos conhecêssemos há décadas. Um homem vivido, cheio de histórias, e com um olhar que me despia mais depressa do que qualquer palavra. Conversámos, rimos, e, para minha surpresa, o desejo tomou conta de nós. Sem pensar, no mesmo dia fomos para um hotel junto ao mar, entregues a algo que nunca imaginei que voltaria a sentir.
Foi nessa noite que vivi, pela primeira vez, o amor carnal em toda a sua intensidade. Nunca antes tinha sentido verdadeiro prazer — os meus relacionamentos passados tinham sido mornos, vazios, feitos de gestos sem alma e toques sem chama. Mas ali, cada toque, cada beijo, cada suspiro parecia despertar partes de mim que eu acreditava não existirem, ou que estavam adormecidas para sempre. O meu primeiro êxtase não foi apenas físico: foi uma revelação, uma redescoberta do prazer, da entrega, da capacidade de sentir. O corpo dele encontrou o meu como se estivéssemos destinados a aquele encontro tardio, como se o tempo tivesse conspirado para nos unir naquele momento perfeito. Senti-me viva. Senti-me jovem. Senti-me mulher, de corpo e alma, pela primeira vez, ardente, inteira.
E pergunto-vos: vocês já sentiram essa plenitude?
Desde essa noite, nunca mais nos largámos. Aos 68 anos, descobri o romance tórrido que a vida sempre me negara, a força de um desejo que não conhece idade. Um vigor que vai incendiando tudo à volta, deixando um rasto de calor e luz que se recusa a apagar-se.
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