Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real
Sou o Lourenço, tenho 26 anos e estou metido numa embrulhada. Apaixonei-me por uma rapariga de um meio social diferente e tenho vergonha de contar aos meus amigos e à minha família.
No próximo verão tenho casamento marcado com a Conceição — ou Concha, como todos lhe chamam.
Não sabem quem é a Concha? Eu explico. A Concha é acidez: é limão, cortante, um sabor difícil de gostar mas impossível de esquecer. Crescemos na mesma zona de Lisboa, as nossas irmãs mais velhas são super amigas.
A Concha veste-se sempre impecável, diferente, cheia de pinta. É loira, tem imenso estilo. Usa roupas caras, largas, como se não quisesse saber. Faz surf, faz vela, joga ténis, é boa em tudo. Viveu fora com o pai, que era diplomata, e fala francês, fala até grego — o que é uma excentricidade. É aquela rapariga para quem toda a gente olha, com um humor ácido, uma língua afiada, capaz de ferir e de fazer rir ao mesmo tempo. Os meus pais adoram-na, os meus amigos tem ciúmes mudos.
A Concha é incrível, como um choque elétrico — quem se aproxima nunca fica indiferente.
E depois… depois há a Bianca. A Bianca é o oposto disto tudo. É morena, muito morena. E é toda doçura, sem arestas, um rio calmo onde é fácil deixar-se levar. Conheci-a no trabalho, porque de outra forma os nossos destinos nunca se cruzariam. Não frequentamos os mesmos lugares, ela mora fora da cidade, movemo-nos em círculos muito diferentes. A Bianca trabalha na receção da minha empresa e almoçava sozinha no refeitório. Calhou que gostávamos os dois de almoçar tarde e então, às três da tarde, estávamos sempre ali, os dois. Discreta, mas com uns olhos exóticos que prendiam a atenção. Quando me sentei ao pé dela a primeira vez, fi-lo a brincar, meio em gozo. Ela parecia muito calada, não falava de si, era reservada. Depois tinha uns comentários estranhos sobre signos, falava de astros, dizia coisas como “isso é porque és Capricórnio”, e aquilo baralhava-me. Essas coisas que me soavam a delírio. Eu ouvia, meio divertido, meio incrédulo.
A primeira coisa que me contou foi que adorava crossfit. Falava disso com um brilho nos olhos, uma espécie de devoção quase infantil. Eu sorria, meio incrédulo, a imaginar a Concha a ouvir aquilo — já a via, de sobrancelha arqueada, pronta a disparar um comentário ácido.
Um dia, curioso, fui espreitar o Instagram da Bianca. Encontrei fotografias dela a treinar: roupas justas, poses tensas, músculos em esforço. Havia algo de cru naquelas imagens, uma provocação involuntária, como se o próprio corpo dela fosse um manifesto. Pensei imediatamente nas gargalhadas das amigas da Concha, nos comentários venenosos que fariam. Mas fiquei a olhar. Demorei mais do que devia.
E, no entanto, a Bianca, na vida real, não tinha nada de exibição. Era suave, reservada, falava pouco. Parecia viver numa dimensão paralela — entre astros, livros românticos e pequenos silêncios. E eu, sem perceber como, comecei a procurá-la. Dia após dia, sentava-me ao lado dela. No início, por curiosidade. Depois, por hábito. Até que se tornou necessidade.
Sem dar por isso, vi-me preso. Não apenas nos lábios dela, carnudos e simples, mas no modo doce com que olhava o mundo. Como se cada coisa, por mais banal, merecesse ternura. Como se tudo, até a minha confusão, pudesse ser compreendido com um sorriso sereno.
Havia qualquer coisa de provocante na sua suavidade: os vestidos justos, as unhas pintadas, o risco no olho. A Concha e as amigas nunca usariam nada daquilo. Tudo em Bianca me parecia errado — mas tão certo, como um doce proibido que não consegues parar de comer.
Comecei a contar-lhe tudo. Ela respondia sempre de forma simples e direta. Mas havia naquela serenidade açucarada uma força que me puxava para perto. Passei meses nesta dança, dividido entre a acidez da Concha, que corta e desperta, e a doçura da Bianca, que envolve e embala.
Até que um dia a Bianca perguntou, sem rodeios, como era hábito dela:
— Estás apaixonado por mim?
E eu, sem saber bem como, respondi:
— Sim.
Ficámos a olhar um para o outro, presos naquele silêncio denso que antecede o inevitável. O mundo parecia suspenso, como se até o ar tivesse parado à espera da nossa decisão. E então beijei-a, ali mesmo, no parque de estacionamento, entre carros anónimos e luzes brancas de néon.
O sabor dela surpreendeu-me: sabia a pastilha elástica, doce, quase infantil, mas ao mesmo tempo arrebatadora, como se cada segundo daquele beijo me empurrasse para fora da minha própria vida. Era uma doçura proibida, uma chama escondida num lugar banal. Senti o coração a bater descompassado, os dedos a tremer, o corpo dividido entre a culpa e a vertigem. Havia algo de insensato naquele momento — dois desconhecidos a rasgar fronteiras invisíveis, a desafiar regras que nunca tinham sido ditas em voz alta. Mas também havia uma verdade crua, impossível de ignorar: eu queria-a. Queria-a com a força de quem finalmente encontra um espelho secreto, alguém que, mesmo sendo tão diferente de mim, parecia compreender aquilo que eu próprio não ousava confessar.
Agora sei que preciso acabar tudo com a Concha. E sei que há uma fila de rapazes, cheios de vontade de ficarem com ela, à espera de qualquer descuido meu. Mas não consigo assumir alguém como a Bianca na minha vida. Que futuro teria eu com alguém tão diferente de mim? Como poderia ela fazer parte do nosso grupo, do nosso mundo tão distinto?
Entre o limão e o mel, estou preso. Entre a vertigem e o repouso. Entre o choque que me sacode e a corrente mansa que me embala. Sinto-me dividido, rasgado entre a tentação e a segurança, entre a intensidade que corta e a doçura que acalenta. Cada escolha parece um risco, cada passo uma promessa de perda.
Concha desperta-me, desafia-me, é tempestade. Bianca acalma-me, envolve-me, é maré tranquila. E eu, perdido entre as duas, vivo com medo de escolher: ou a faca que corta, ou o açúcar que prende. No fundo, sei que qualquer escolha será amarga. A Concha é tudo certo, mas parece que agora eu só gosto do errado.
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