Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Luís, tenho 48 anos, e nunca pensei vir a escrever algo assim — ainda que seja só para mim, neste silêncio de fim de noite, quando a casa já dorme. A Cátia está no quarto, exausta, como sempre. E a Andreia… a Andreia deve estar a ver televisão na sala, deitada no sofá, com aquele ar despreocupado que sempre me desarma.
Quando conheci a Cátia, eu estava a recomeçar. Vinha de um divórcio difícil, uma casa demasiado vazia e um coração cansado. Ela entrou na minha vida como quem traz luz a um sítio fechado há demasiado tempo. Trabalhava no meu escritório, eficiente, prática, com aquele sorriso que acalmava o dia. Aos poucos, fomos ficando mais próximos. Primeiro, cafés; depois, conversas fora de horas; até que a solidão dos dois acabou por se reconhecer.
Quando decidimos viver juntos, veio também a Andreia — a filha dela. Ia fazer 25 anos, acabada de sair de um relacionamento falhado, e a Cátia achou melhor que ficasse connosco até “assentar”. Eu concordei sem pensar muito. Sempre gostei da ideia de casa cheia.
Mas, com o tempo, comecei a sentir que havia algo diferente nos gestos dela. Primeiro, pequenos toques — um abraço demorado, um sorriso que durava mais do que devia, elogios que soavam deslocados. Achei que era da minha cabeça. Quis acreditar que sim. Mas há coisas que não se imaginam, sentem-se.
A Andreia é uma mulher bonita — disso ninguém duvida. Cuida-se, arranja-se, e tem aquela energia viva de quem ainda acredita que o mundo é um lugar moldável. Ao lado dela, a Cátia parece-me cada vez mais cansada. Entre o trabalho, a casa, as preocupações, perdeu um pouco da leveza que tinha quando nos conhecemos. E eu vejo-a a tentar, todos os dias. E amo-a por isso. Mas também me dói ver como o tempo nos rouba o que antes era natural — o riso, o toque, o desejo.
E é aí que o medo entra.
Porque há momentos em que sinto que a Andreia percebe a fragilidade do equilíbrio. Que testa os limites. Um olhar, uma piada, uma aproximação que me deixa sem palavras. Não há nada que possa chamar-se de crime, nada que se possa apontar. Mas há uma linha invisível que ela parece querer atravessar — e eu, por vezes, temo não saber segurá-la.
Não é desejo. Ou talvez seja. Mas é também culpa. Culpa por sentir, culpa por imaginar. Por me ver a desviar o olhar e a pensar que, se ela fosse uma desconhecida, talvez não houvesse conflito nenhum. Mas não é. É a filha da mulher que amo. É a menina que entra na cozinha descalça, que chama “mãe” à pessoa que adormeceu no meu peito.
E há dias em que me sinto um estranho dentro da minha própria casa.
Não posso contar à Cátia. Ela já vive em sobressalto com a filha — preocupa-se com a falta de rumo, com a impulsividade, com a forma como a Andreia se atira à vida sem medir consequências. Contar-lhe isto seria destruir a frágil trégua que ainda existe entre as duas. E eu não quero ser o motivo de mais uma rutura.
Mas também não quero cair na armadilha de fingir que nada se passa. Há gestos dela que me perturbam — e o que me assusta mais é perceber que parte de mim se habituou a essa perturbação. É como caminhar junto a uma falésia: sabes que não deves olhar para baixo, mas não consegues evitar.
Às vezes imagino-me a confrontá-la. A dizer-lhe que não pode brincar com fogo, que o respeito é a única forma de convivermos em paz. Mas depois vejo-a rir, leve, como se nada tivesse peso. E fico calado. Talvez por covardia, talvez por medo de interpretar mal, talvez porque, no fundo, não quero ser cruel com alguém que ainda é, de certa forma, uma menina à procura de atenção.
Mas o que é certo é que tenho medo. Medo de um dia estar vulnerável o suficiente para me deixar confundir. Medo de cruzar uma fronteira que nunca poderia ser desfeita.
Sou um homem decente — ou pelo menos gosto de pensar que sim. Mas a decência também se mede nos silêncios. No modo como resistimos ao que o mundo, por vezes, põe à nossa frente. E cada dia com a Andreia aqui em casa é um teste.
Hoje, ao passar no corredor, ela disse-me ao ouvido: “Gosto de homens que sabem conter-se.” E riu-se, como se fosse uma brincadeira. Eu também ri. Mas o riso ficou-me preso na garganta.
Agora escrevo isto, nesta mesa onde tantas vezes preparei contratos e planos, e percebo que a vida tem uma ironia cruel: passamos anos a tentar ser corretos, e basta um olhar, uma palavra, uma presença, para o chão começar a ceder.
Não sei o que vai acontecer. Talvez nada. Talvez a Andreia encontre o seu rumo, talvez vá morar sozinha e tudo isto acabe em sossego. Ou talvez um dia eu tenha de dizer à Cátia o que realmente me atormenta — e aí, nada será igual.
Por agora, só sei que cada vez que ouço os passos da Andreia no corredor, sinto o peso de uma escolha invisível: a de continuar a ser o homem que quero ser, e não o homem que, por um segundo, o destino me convida a ser.
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