Finjo que não sei o que a minha mulher faz há anos: «Não consigo deixá-la» - V+ TVI1224
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Finjo que não sei o que a minha mulher faz há anos: «Não consigo deixá-la»

  • Redação V+ TVI
  • 4 dez 2025, 11:02

Por mais estranho que parece, dói mais a ideia de perdê-la

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.

Finjo que não sei o que a minha mulher faz há anos. Às vezes repito essa frase em silêncio, quase como quem mastiga um veneno devagar, para ver se o corpo se habitua. Chamo-me Rúben e tenho 38 anos. Ela chama-se Diana e sempre foi a mulher que eu nunca soube ter, mesmo quando finalmente a tive. A verdade é essa. Não consigo deixá-la. Nunca consegui.

Conheci-a quando tínhamos 16 anos, no liceu. Eu era um miúdo normal, invisível, daqueles que passam pelos corredores sem que ninguém se lembre bem do nome. Ela era o oposto: a rapariga que fazia o barulho da escola parar quando ria. Lembro-me de a ver sentada no muro do pátio, rodeada de gente que parecia sempre mais colorida do que eu. Era bonita, claro, mas havia qualquer coisa nela — uma luz, um desassombro — que fazia tudo parecer mais fácil. E eu sonhava com ela. Secretamente. Ingenuamente. Pateticamente, até.

Nunca me olhou, não verdadeiramente. E quando o secundário acabou, cada um seguiu a sua vida. Eu pensei que também tinha seguido, mas às vezes o tempo guarda coisas que nós achamos enterradas.

Anos depois, já eu trabalhava numa consultora em Lisboa, descobri que havia ali perto um restaurante pequeno onde comecei a ir almoçar. A comida era boa e barata, mas o que me fez voltar no segundo dia foi ela. A Diana. Era empregada lá. E quando a vi, senti um solavanco tão idiota que quase a fiz deixar cair a bandeja.

Ela não me reconheceu. Eu disse o meu nome e ela fez aquele sorriso educado, igual para todos. Mas eu continuei a ir. Todos os dias. E começámos a falar. Aos poucos, fui descobrindo que aquela luz que ela tinha no liceu brilhava diferente agora — mais cansada, talvez, mas ainda lá.

As minhas investidas foram… persistentes, admito. Flores no balcão, bilhetes dobrados dentro do guardanapo, pequenas surpresas que a faziam corar e revirar os olhos, mas nunca me mandar parar. Um dia, aceitou sair comigo. Depois outro. E outro. Quando dei por isso, tínhamos criado uma rotina que me parecia um milagre tardio. Passado um ano fomos viver juntos. Depois veio a nossa filha, a Leonor, que é a única coisa no mundo capaz de me fazer acreditar que fiz algo realmente bem.

Durante algum tempo, a vida parecia… normal. Não perfeita, mas nossa. Ela continuava a trabalhar no restaurante, eu mudei de escritório e deixei de almoçar lá tantas vezes. A convivência tornou-se confortável, morna até. E foi aí que tudo começou a azedar — devagar, como quem abre uma porta só o suficiente para entrar ar frio.

A primeira vez que percebi que ela andava com outro foi quase acidental. Um nome guardado no telemóvel de forma demasiado óbvia. Uma mensagem que apareceu no ecrã com um emoji que nunca era para ser meu. Um perfume estranho na roupa dela, definitivamente masculino, e nunca o meu. Mas eu fechei os olhos. Disse a mim mesmo que era impressão. Que a conhecia. Que não ia destruir a família por uma sombra.

Mas os sinais foram-se repetindo. E eu, como um idiota apaixonado — sim, ainda — continuei a fingir.

Até ao dia em que tudo se tornou incontornável.

A relação andava mais fria. Ela chegava tarde, cansada ou irritada, eu tentava não fazer perguntas. Uma manhã qualquer, senti uma saudade súbita do princípio e achei que era boa ideia surpreendê-la. Como antes. Voltei ao restaurante onde tudo começou, com um ramo de gerberas — as flores que ela dizia adorar porque “parecem sempre felizes”.

Cheguei à porta pronto para a ver atrás do balcão, mas não estava lá. Esperei um pouco, até que a vi a sair pela porta lateral com o casaco meio apressado. Sorri. Estava prestes a chamá-la quando vi que ela não vinha sozinha. Um homem, mais alto do que eu e com ar de quem se sente dono do ar à volta, aproximou-se. Ela sorriu-lhe — um sorriso que não me lembro da última vez que vi dirigido a mim — e entrou no carro dele.

O meu coração começou a bater tão rápido que me doeu. Mas segui. Não sei de onde veio essa coragem cobarde, mas segui-os. E quando viraram para a garagem de um motel, soube. Não precisei de entrar. Não precisei de ouvir nada. O mundo encolheu-se num ponto minúsculo dentro do meu peito.

Fiquei no carro. Esperar foi uma tortura. Cinco minutos. Dez. Quinze. Vinte. Até que o meu corpo desistiu de sentir e só ficou o vazio. Voltei ao escritório. Trabalhei como se o dia fosse igual aos outros. E quando cheguei a casa, ela já lá estava, a ver televisão com a Leonor no colo. Deu-me um beijo na bochecha, rápido, automático. Eu ajudei a dar banho à miúda, jantámos os três, deitámo-la. E fomos dormir como sempre.

Não a confrontei. Nem nesse dia, nem nos dias seguintes.

Desde então, vieram outras provas. Mensagens a horas impróprias. Ausências disfarçadas. Perfumes desconhecidos. Olhares que evitam os meus. Mas eu continuo ali, no mesmo lugar onde sempre estive: a amar alguém que me foge pelos dedos.

Se me perguntam porquê — por que razão não saio, não grito, não peço a verdade — digo sem vergonha: porque tenho mais medo de a perder do que de ser traído. Porque uma parte de mim prefere tê-la pela metade do que não tê-la de todo. Porque o silêncio, por cruel que seja, dói menos do que a certeza de que ela me deixaria se eu levantasse a voz.

Talvez um dia ganhe coragem. Talvez não. Talvez a vida continue assim, num equilíbrio frágil onde eu finjo que não sei e ela finge que eu não vejo.

Mas hoje, ao escrever isto, percebo o mais triste de tudo: não é ela que não consigo deixar.
Sou eu que não consigo deixar a versão dela que vive na minha cabeça desde que tinha quinze anos.

E essa, essa nunca me traiu.

Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.

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