Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais
Sou o Simão. Tenho agora 41 anos. Demorei muito tempo a conseguir dizer esta frase em voz alta: fiquei viúvo aos 38 anos. Durante meses, talvez anos, evitei-a. Como se ao não a pronunciar, o que aconteceu pudesse não ser real. Como se o silêncio fosse uma forma de preservar o que restava — a memória dela, o cheiro, o riso, a vida que tínhamos juntos. Dizer “sou viúvo” é como abrir uma ferida antiga que nunca cicatrizou por completo.
Antes da Clara, tive muitas namoradas. Apaixonei-me loucamente por várias, com aquele entusiasmo imaturo de quem confunde intensidade com destino. Fui impetuoso, ciumento, inseguro. Houve relações que duraram semanas, outras meses, e algumas que pareceram sérias até ao dia em que deixaram de o ser. Mas em todas faltava alguma coisa — uma leveza, uma entrega, talvez apenas a certeza. Os meus amigos casavam, compravam casas, tinham filhos, falavam de prestações e fraldas como se aquilo fosse o curso natural da vida. Eu, ao contrário, vivia em suspenso, num lugar onde o amor era sempre promessa e nunca morada. Comecei a pensar que o amor, para mim, seria sempre uma história de quase.
Até que, aos 33 anos, conheci a Clara. E tudo mudou — embora eu só tenha percebido mais tarde o quanto mudou. Foi diferente desde o primeiro dia, não porque eu me tivesse apaixonado de imediato, mas porque ela se apaixonou por mim com uma intensidade que me desarmou. A Clara era luz. Tinha um riso largo, daqueles que se ouvem antes de se ver, e uma ternura que parecia não se esgotar. Chamava-me meu amor com uma doçura quase antiga, dessas que já não se ouvem. Fazia planos, escrevia-me bilhetes, enchia a casa de pequenas atenções. Era o tipo de mulher que acreditava que o amor se rega todos os dias.
Eu, habituado à reserva e à contenção, ria-me do excesso. Falava pouco, ouvia muito. Achava que estar ali, ao lado dela, era suficiente. A Clara pedia-me: “Diz que me amas.” E eu fugia das palavras. Limitava-me a abraçá-la, a passar-lhe a mão pelo cabelo, a beijá-la devagar. Achava que o amor se provava no gesto, não na frase. Clara dizia que eu era o seu porto seguro, e eu acreditava que, por estar presente, ela saberia tudo o que sentia, mesmo que eu nunca o dissesse.
Um ano depois, casámos. Foi um dia bonito, simples. A Clara, pequenina, com véu e flores no cabelo, sorria sem parar. Lembro-me de pensar: é isto, encontrei finalmente alguém que acredita em mim, mesmo quando eu não sei explicar o que sinto. Os meus amigos olhavam-me surpreendidos — o Simão, o que dizia não nascer para o casamento, agora completamente rendido a uma mulher. Eu estava feliz. Pela primeira vez, sentia que a vida tinha encontrado um compasso certo.
Vivíamos um amor tranquilo. A Clara queria muito ser mãe. Eu, no início, hesitei. Tinha medo da responsabilidade, da mudança, de falhar. Mas ela sonhava com isso, e o sonho dela era mais forte do que o meu medo. Quando a Caetana nasceu, percebi que a Clara tinha razão. Nunca me senti tão inteiro. Ela amava-nos com a mesma dedicação com que fazia tudo na vida: de corpo e alma. Era uma mãe paciente, doce e atenta, e uma mulher que não deixava de ser apaixonada. Conseguia ser tudo ao mesmo tempo — companheira, confidente, abrigo.
Morávamos em Setúbal, e a Clara trabalhava muitas vezes em Lisboa. Saía cedo, voltava cansada, mas ainda assim entrava em casa com o mesmo entusiasmo: “Meu amor, já estou aqui.” Eu ficava no sofá, com a pequena Caetana a dormir no meu colo, e respondia com um sorriso preguiçoso. Hoje, esse sorriso pesa-me. Na altura parecia bastar, mas agora vejo o quanto deixei por dizer.
Foi numa dessas viagens que tudo acabou. Um dia de chuva forte, estradas molhadas, pressa para chegar a casa. Um erro, um segundo, e o mundo desabou. A Clara morreu num desastre. Recebi a notícia e entrei num silêncio que durou meses. Era como se vivesse dentro de um nevoeiro espesso. Tudo continuava — o relógio, o trabalho, as tarefas com a minha filha —, mas eu não estava verdadeiramente em lado nenhum. Vivia no automático. Respirava por obrigação.
Sonhava com ela todas as noites. Sentia o toque dela na almofada, o cheiro do cabelo, o som do riso. Acordava e via o quarto vazio, e a dor era física, como se me tivessem arrancado uma parte do corpo. Durante muito tempo, não consegui falar dela. As pessoas diziam: “És forte.” Mas eu não era. Limitava-me a sobreviver. Cuidava da Caetana como podia, e em cada gesto dela via a mãe — o mesmo olhar doce, o mesmo jeito de franzir o nariz quando se zanga. Havia dias em que isso me consolava e outros em que me destruía.
Foi só muito tempo depois que comecei a compreender a dimensão do que perdi. Não foi só a Clara, a mulher que amava. Foi a minha melhor amiga, a minha casa, a pessoa que me ensinou a ser alguém melhor. E percebi, com um nó no peito, tudo o que nunca lhe tinha dito. Clara, nunca te disse que eras a alegria da minha vida. Que fizeste de mim um homem novo, capaz de amar sem medo. Que, por tua causa, percebi o que era ser verdadeiramente visto. Nunca te disse que o teu amor me salvou — e que, sem ti, continuo a tentar reaprender a respirar.
Hoje, quando falo à Caetana sobre ti, digo-lhe que a mãe era feita de luz. Que sorria com os olhos. Que dizia “meu amor” como se fosse uma oração. E, às vezes, quando ela adormece, eu repito baixinho o que nunca disse a tempo: Minha Clara, se eu pudesse, dava tudo para te sussurrar isto ao ouvido. Nunca saberás, meu amor. Mas foste, és e serás sempre — o amor da minha vida.
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