Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
No ano 2003, eu tinha acabado de fazer 15 anos e entrei no 10.º ano num liceu de Santarém. Tinha sido um verão difícil: os meus pais separaram-se, mudámos de casa, e eu fui obrigado a trocar de escola, de amigos e de rotina. Tudo me parecia maior do que eu — o barulho dos corredores, os grupos já formados, a sensação de que eu era sempre o “novo”.
Foi nesse turbilhão que a Patrícia entrou na minha vida. Era a minha professora de Português.
Lembro-me da primeira vez que a vi. Entrou na sala com uma calma que não era deste mundo, vestida com uma saia escura, botas de couro, e um casaco comprido que lhe dava um ar de artista. Trazia o cabelo castanho preso num gancho, mas sempre com duas madeixas soltas a moldar-lhe o rosto. Tinha 28 anos — jovem, mas com uma presença firme que fazia a turma silenciar-se sem que precisasse levantar a voz.
Falava de literatura como quem fala de viagens. Descrevia os poemas como quem descreve paisagens, contava histórias dos autores com paixão, e tinha a mania (maravilhosa) de escrever palavras-chave no quadro com caligrafia perfeita. Era a única professora que deixava que discutíssemos livros de modo livre, que nos perguntava o que sentíamos ao ler um texto.
Para mim, que vinha de um lar em conflito e me sentia sempre deslocado, ela tornou-se uma âncora. Era a única aula onde eu respirava.
Ficou connosco também no 11.º ano e levou-nos a peças de teatro, ao Museu do Chiado, e aos cafés literários de Lisboa numa visita de estudo que ainda hoje recordo. Depois, terminou o ano e nunca mais a vi.
A minha vida seguiu.
Terminei o secundário, estudei Design de Comunicação no Porto e, mais tarde, criei uma pequena empresa de branding em Lisboa. Aos 33 anos, já tinha uma equipa sólida, clientes importantes e uma vida estável, ainda que solitária.
Um dia, em plena corrida para fechar um projeto, a minha assistente avisou:
— Jaime, a empresa que vai fazer os novos workshops de escrita criativa chega às 15h.
— Ótimo — respondi, distraído.
Às 15h02 a porta abriu-se.
E ela entrou.
A Patrícia.
Mais adulta, mais mulher, com rugas finas de quem viveu intensamente, e o mesmo olhar luminoso que eu reconheceria em qualquer tempo. Parou quando me viu. Eu devo ter ficado branco como papel.
— Professora Patrícia? — saiu-me, antes que pudesse evitar.
Ela riu, surpreendida.
— Patrícia, só Patrícia agora. E… tu és?
— Jaime. Fui seu aluno no 10.º e 11.º ano.
Os olhos dela brilharam.
Aquele brilho — o mesmo que iluminava a sala de aula quando um texto a encantava.
— Lembro-me de ti — disse. — Eras o que desenhava nos cadernos durante as aulas, não eras?
— Era. E ainda sou — respondi, a sorrir.
Ela contou-me que tinha deixado a escola anos antes para trabalhar em formação corporativa e escrita criativa. Agora dirigia a empresa que vinha colaborar connosco.
Foi um reencontro tão inesperado que passei o resto da tarde com um sorriso idiota.
"Estás apanhadinho", disseram os meus amigos nessa noite.
Num jantar descontraído, contei-lhes tudo.
— Viste se tinha aliança? — perguntou logo o Rui.
— Não tinha.
Eles riram. Eu ri também. Mas por dentro… havia qualquer coisa a renascer.
Os meses seguintes foram um lento aproximar.
As reuniões profissionais tornaram-se conversas mais longas. Havia sempre um instante extra na porta, um sorriso prolongado, uma pergunta que dispensava formalidades.
Descobrimos afinidades improváveis: ambos adorávamos Saramago, ambos tínhamos medo de falhar, ambos preferíamos cafés pequenos de bairro a esplanadas bonitas. Ela tinha viajado o mundo, vivido em Barcelona, aprendido italiano só porque sim. Falava da vida com uma sabedoria serena, como quem já tinha tropeçado e levantado vezes suficientes para aprender o ritmo.
Eu ficava preso ao timbre da sua voz, à delicadeza com que segurava a chávena, à forma como sorria com os olhos antes de sorrir com a boca.
Vieram os cafés roubados ao final da tarde.
Depois os almoços.
Depois os passeios curtos até ao Tejo, como quem prolonga o inevitável.
Até que um dia ficámos sozinhos na sala de reuniões já vazia, luzes apagadas, apenas a janela a iluminar-nos com o laranja do fim de tarde. Estávamos a falar de banalidades quando o silêncio nos envolveu — um silêncio confortável, quente, cheio de significado.
Não houve precipitação. Não houve pressa.
Aconteceu porque tinha de acontecer.
A nossa primeira vez foi inesquecível.
Não pelo gesto físico — que foi terno, natural, sem urgência — mas pela sensação de reencontro. Como se duas vidas que se tinham cruzado quando eu ainda era quase criança tivessem esperado, pacientemente, até que ambos fôssemos adultos, livres, inteiros.
Estar com ela era como revisitar um livro que marcou a adolescência, mas agora lido com maturidade. Era reconhecimento e descoberta ao mesmo tempo.
Havia afeto, desejo, cumplicidade.
Havia história.
Havia futuro.
Hoje, a Patrícia já não é “a professora Patrícia”. É a minha companheira, a minha parceira, a minha mulher.
E às vezes — quando ela está a ler na sala, com os óculos pousados na ponta do nariz e o cabelo preso no mesmo gancho de sempre — penso no rapaz de 15 anos que a admirava em silêncio, sem imaginar que um dia a vida nos voltaria a juntar.
E sorrio.
Porque algumas histórias começam muito antes de acontecerem.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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