Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Sou a Carlota. Casada com o Gonçalo, mãe de três filhos lindos, e para todos os que nos olham de fora, somos o casal perfeito. Temos corpo tonificado, cuidamo-nos, viajamos, rimos juntos, a vida parece um filme bonito, daqueles que parecem irreais de tão perfeitos. Mas por trás dessa perfeição, há fissuras que corroem silenciosamente o que construímos.
O Gonçalo é discreto. Sempre foi. Ninguém suspeita de nada. Ninguém imagina que o homem que sorri para mim todas as manhãs, que me abraça todas as noites, tem um lado secreto que só surge quando eu não estou por perto.
A primeira fissura surgiu com a Clara. Soube por uma amiga, não por ele. Uma miúda do escritório, linda de morrer. Não houve sinais óbvios — apenas pequenas coisas que, com o tempo, fui percebendo. A Clara foi a primeira, e a primeira ferida é sempre a mais profunda.
Quando finalmente confrontei o Gonçalo, ele riu-se, mas havia sinceridade na sua voz.
“Ninguém te chega aos calcanhares, Carlota, és a única, amo-te... o que existe com essas miúdas é só distração.”
“Olha à tua volta, todos os homens têm distrações, mas isso não significa que deixem de amar quem escolheram.”
E, de facto, ele volta. Sempre volta. Mas a dor permanece, rasteira, silenciosa, a corroer-me por dentro.
Depois da Clara, houve outra mulher cujo nome nunca soube. O padrão repetiu-se. Elas não têm nome, não têm relevância — são indiferentes para ele, um compartimento à parte.
E ele continua o mesmo homem: o marido cuidadoso, o pai presente, o homem que todos invejariam.
Tudo é perfeito. Tudo. Menos as miúdas do escritório de advogados.
Mas eu sei. Eu sinto. A dor não é apenas a traição. É a dúvida constante, a sensação de que, por vezes, posso não ser suficiente.
Serei eu suficientemente bonita, suficientemente interessante, suficientemente tudo para ele?
Ele justifica-se: “Todos os homens fazem igual, Carlota, é natural, é relaxar fora do casamento.”
Mas para mim, cada risinho que sei que não é para mim, cada gesto dirigido a outra, corta fundo, como se uma lâmina invisível atravessasse o meu peito.
E observo, às vezes com tristeza e até medo, que todos os homens à minha volta fazem igual.
Mentem, escondem pequenas verdades, e as mulheres… aceitam, compreendem, sorriem e seguem em frente.
E eu não consigo deixar de sentir que é isso que esperam de mim — que eu aceite, que finja, que mantenha a vida perfeita enquanto me perco por dentro.
O mais cruel é que ele não muda. Continua o homem que eu escolhi, mas perde a cabeça por miúdas do escritório.
Cada risinho que não é para mim é uma faca na alma. Cada elogio que faz a outra mulher ecoa na minha mente, como se gritasse que nunca é suficiente.
E, ainda assim, ele continua comigo, beija-me, abraça-me, faz-me sentir especial.
É contraditório, impossível de ignorar. Devo abdicar de tudo — da família, da vida confortável, do homem que amo — por causa destas “distrações”?
Sinto-me dividida entre a realidade e a aparência, entre o amor e a desconfiança.
Será que o amor é suficiente para sobreviver a estas fissuras?
Ou será que estou a enganar-me a mim mesma, tentando acreditar que nada aconteceu, enquanto o coração se desgasta, silenciosamente, como água a corroer pedra?
No silêncio da noite, sinto um vazio — não é a falta de amor, é a falta de certeza de que eu sou a única que importa.
A dor de saber que ele pode voltar a trair, que pode olhar para outra, enquanto eu continuo aqui, a segurar a perfeição que parece tão frágil.
E, ainda assim, ele diz e demonstra todos os dias que me ama, que o amor é comigo.
E é essa certeza que me prende, que me faz continuar a amar este homem contraditório, mesmo quando o meu coração quer fugir.
Eu não sei se consigo abdicar de tudo ou continuar a aceitar estas distrações como pequenas imperfeições numa vida que, por fora, parece perfeita.
Mas sei que, apesar de tudo, há amor. Amor verdadeiro. Amor que me pertence.
E isso é ao mesmo tempo uma âncora e uma tortura.
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