Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais
O meu namorado é lindo. Lindo de uma beleza que incomoda, que chama a atenção mesmo quando ele tenta passar despercebido. Daquelas belezas que têm presença, que enchem o espaço sem fazer esforço. É o tipo de homem que, mesmo calado, faz as pessoas olharem duas vezes — uma para confirmar se viram bem, outra porque não conseguem evitar. Às vezes parece que o ar muda quando ele entra num sítio. Há algo no modo como se move, como fala baixo, como sorri de canto, que o torna impossível de ignorar.
E eu, que o amo tanto, sinto-me dividida entre o orgulho e o medo: orgulho por ele ser meu, medo de que o mundo também o queira.
O Silvério herdou o nome do avô — um homem rico do Norte, de voz grossa e mãos que cheiravam a fumo de lareira. O avô foi daqueles que construiu fortuna e tradição, dono de uma casa grande, acolchoada, com sofás fundos, retratos antigos e o som distante de relógios de parede. O Silvério cresceu nesse ambiente — entre o cheiro do café acabado de fazer e o conforto das coisas caras. Talvez por isso traga no olhar uma calma antiga, um jeito de quem nunca precisou provar nada a ninguém. Depois estudou nos Estados Unidos para ser piloto, e talvez tenha sido lá que aprendeu essa serenidade dos céus — essa mistura de confiança e distância, como quem vive entre nuvens mas sabe exatamente onde quer pousar.
Conheci-o quando era hospedeira. Foi num voo cheio, turbulento, uma daquelas viagens longas em que o tempo custa a passar e os passageiros parecem todos iguais. No meio de tantas mulheres bonitas — altas, elegantes, maquilhadas com precisão — nunca percebi porque é que ele olhou para mim. Sou baixa, tenho a cara redonda, rio-me demais e falo com as mãos. Sou engraçada, sim. Mas bonita… não.
Mesmo assim, foi a mim que ele escolheu. E desde então, nunca mais nos separamos.
Somos felizes. Muito felizes. Temos uma filha linda, a Beatriz — os olhos dela são os dele, o sorriso é o meu. É uma criança doce, curiosa, cheia de energia. Quando estamos os três, há momentos em que tudo parece perfeito. Viajamos muito, rimo-nos, cozinhamos juntos, inventamos tradições só nossas. Temos tantos planos, tanto futuro. Às vezes penso que a felicidade tem mesmo a nossa cara.
Mas há uma sombra que insiste em aparecer. Chama-se ciúme. Não consigo estar com ele em público.
Sair à noite é um suplício. Jantares, festas, casamentos… tudo se transforma num campo minado emocional. Basta uma mulher olhar demais, sorrir mais do que devia, e o meu peito aperta. Fico em silêncio, disfarço, mas por dentro já estou em guerra. O pior é que sei que ele não faz nada. Só está ali, bonito, natural, a ser ele mesmo — e isso basta para o mundo girar à volta dele.
Ele, por sua vez, faz tudo para me acalmar. Fala comigo, segura-me a mão, olha-me nos olhos e diz que sou a única mulher que ele vê. Evita situações que sabe que me deixam desconfortável — recusa convites, muda de lugar, inventa desculpas para irmos embora mais cedo. Às vezes até exagera, só para eu respirar em paz.
Mas o problema não está nele. Está em mim.
O Silvério é bonito de uma forma que não se disfarça.
Até quando está calado, as pessoas reparam. As mulheres aproximam-se com aquele sorriso de quem finge inocência:
— “És mesmo o Silvério? Já te vi algures!”
— “Não trabalhas em publicidade? Tinhas de ser modelo!”
E ele ri, educado, simpático, sem perceber o efeito que causa.
Até no supermercado é igual — nas lojas, nas farmácias, em todo o lado. Saímos sempre com promoções, descontos, amostras grátis, sorrisos que duram um segundo a mais.
E eu ali, a engolir o nó, a tentar não deixar transparecer nada, a morrer por dentro de um ciúme que me envergonha e me domina ao mesmo tempo. Mas há momentos em que o ciúme explode.
Lembro-me de um jantar com amigos. Uma das convidadas não tirava os olhos dele — ria-se de tudo o que ele dizia, tocava-lhe no braço como quem o conhecia há séculos. Ele, como sempre, manteve-se educado, mas não deu espaço. Ainda assim, eu senti o sangue ferver. Quando chegámos a casa, chorei. Gritei. Disse coisas que não devia.
E ele só me abraçou. Disse:
— “Tu és o meu lugar. O resto do mundo é só barulho.”
E eu acreditei.
Noutra vez, fomos buscar a Beatriz à escola. Uma mãe nova, loira, olhou para ele de cima a baixo, com um sorriso que me atravessou como uma lâmina. Passei o resto da tarde maldisposta, inventando motivos para discutir. No fim, ele riu-se, puxou-me para o colo e disse:
— “Não é por eu ser bonito que alguém pode roubar o que é nosso.”
E eu, mesmo envergonhada, derreti-me nos braços dele.
Porque o Silvério é assim — paciente, doce, calmo. Faz tudo para eu me sentir segura. E eu sei disso. Sei que ele me ama, que me escolhe todos os dias, mesmo quando o mundo inteiro parece querer provar o contrário.
Mas há algo em mim que luta contra a realidade — uma parte que não aceita a ideia de o partilhar, nem com o olhar dos outros.
Amamo-nos, sim. Temos uma vida bonita, uma filha maravilhosa, uma casa cheia de risos e rotinas. Às vezes, ao vê-lo brincar com a Beatriz, penso que sou a mulher mais sortuda do mundo.
Mas logo a seguir, quando saímos à rua e alguém o olha de forma diferente, sinto que essa sorte pesa — como se a beleza dele fosse uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo.
Tudo seria perfeito… se ele não fosse tão lindo.
Mas talvez seja isso o que torna o nosso amor tão humano.
Amar alguém como o Silvério é aprender a viver com o medo.
É saber que o mundo o quer, mas que é comigo que ele fica.
E, no fim, entre todas as inseguranças, todas as explosões, todos os silêncios, eu sei — ele é meu, e eu sou dele. Mesmo quando o ciúme me rasga por dentro, é o amor que me cose de novo.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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