Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Afonso. Tenho 61 anos e sou casado com a Ester há 35 anos. Três décadas e meia. Parece uma eternidade e, ao mesmo tempo, passou num instante. Quando as pessoas nos olham, veem apenas um casal tranquilo, rotineiro, com filhos, contas, trabalhos, e um pouco de cansaço nos olhos. Mas há algo que guardamos só para nós, algo que mantém a nossa chama acesa.
Nunca parei de desejar a minha mulher. Nunca. E este é o nosso segredo.
A Ester tem a mesma força e presença que tinha quando nos conhecemos. Continua a rir com a boca inteira, a falar com paixão, a iluminar qualquer sala. Ela é pintora, professora de educação visual, e a sua criatividade é contagiante. Observar a forma como transforma uma tela em cor, em luz, em sentimento, é um lembrete constante de que a vida não precisa ser monótona. E eu… bem, eu continuo a olhar para ela como se fosse a primeira vez. Não é apenas desejo físico — é admiração, ternura, e aquela necessidade de sentir a sua pele junto à minha, de perceber o seu cheiro, de ouvir o seu riso.
Nosso segredo? É simples, mas raro: nunca deixámos que o casamento nos tornasse previsíveis. Nunca desistimos de nos procurar. Brincamos, provocamos, enviamos mensagens secretas, olhares cúmplices no meio de jantares de família, pequenos toques inesperados. Mesmo depois de 35 anos, ainda há mistério entre nós. Ainda nos seduzimos. Ainda nos conquistamos.
O segredo de um casamento duradouro não é apenas sobreviver à rotina, mas cultivar o desejo todos os dias. E não falo só de sexo — falo de atenção, de pequenas surpresas, de cuidar do outro como se fosse um tesouro precioso.
O mundo lá fora pensa que é rotina, pensa que é apenas comodidade. Mas para nós, cada gesto é intenção. Cada abraço prolongado, cada beijo roubado no corredor, cada toque quando ninguém está a ver, é um lembrete: ainda nos escolhemos todos os dias.
Há dias em que ela entra no atelier com as mãos manchadas de tinta, o cabelo apanhado num coque improvisado, e ainda assim o meu coração dispara. Observar a forma como ela mistura cores, como se cada pincelada fosse um pequeno segredo, faz-me lembrar do fascínio que senti quando a conheci. Às vezes, sentamo-nos lado a lado no sofá, olhamos televisão sem prestar atenção, e mesmo assim trocamos olhares que dizem mais do que palavras. Um simples toque na mão é suficiente para reacender uma centelha que nem o tempo conseguiu apagar.
Há noites em que, mesmo cansados, depois do jantar e de colocar os netos na cama, sentamo-nos juntos na varanda, conversamos sobre a vida, sobre lembranças, sobre os novos projetos de pintura dela, e eu sinto de novo aquela fome antiga — não de comida, mas de estar perto dela, de tocar, de sentir. Fazemos planos pequenos, mas secretos: uma viagem, uma exposição nova, uma tarde apenas nossa. Tudo é desculpa para estarmos juntos e nos lembrarmos de que ainda podemos ser jovens um para o outro.
E, se posso dar um conselho a outros casais, é este: não deixem a chama apagar. Olhem para o outro todos os dias como se fosse a primeira vez. Toquem, olhem, riam, provoquem. Continuem a conquistar o outro como no primeiro ano. O desejo não envelhece — quem envelhece é quem deixa de procurar.
Outro segredo: nunca subestimem a intimidade silenciosa. Um olhar, um toque na mão, uma mensagem subtil durante o dia, um beijo roubado. Pequenos gestos acumulam-se e mantêm o casamento vivo.
Lembro-me de um dia, numa manhã de sexta-feira, quando ela estava a arrumar o atelier e eu entrei devagar por trás, encostando a minha mão à sua cintura. Ela estremeceu, riu baixinho e disse: “Afonso, vais molhar a camisa de novo!” E eu respondi com um sorriso: “Não me importo. Vale a pena.” E naquele instante, só nós dois sabíamos do que se tratava — a alegria de ainda nos desejarmos depois de tanto tempo.
Noutra ocasião, estávamos no carro a caminho de uma reunião com os alunos. Ela cantava baixinho, sem perceber que eu a observava. O modo como o cabelo caía sobre os ombros, o jeito de rir das próprias falhas na letra da música, fez-me sentir o mesmo arrepio que sentia quando tinha vinte anos e a via dançar no salão da universidade.
O segredo também é aceitar que a paixão não precisa de grandes demonstrações públicas. Não precisamos de festas, viagens caras ou novidades extravagantes. A nossa intimidade é construída de momentos simples: um café juntos na manhã de domingo, um abraço inesperado ao final da tarde, a mão que segura a minha no cinema, os olhos que se encontram durante uma conversa banal e que dizem tudo.
E todos os dias, quando a vejo dormir ao meu lado, ainda sinto desejo. Ainda sinto vontade de acordá-la com um beijo, de apertá-la em meus braços, de rir com ela até tarde. Porque este é o nosso segredo: o desejo não envelhece se o alimentamos com atenção, cuidado e brincadeira.
Depois de 35 anos, posso dizer sem medo: ela é minha e eu continuo a escolhê-la, todos os dias.
Se pudesse dar apenas um conselho a outros casais, seria este: o amor, o desejo e a cumplicidade precisam de ser cultivados todos os dias. Não deixem que a rotina apague o que vos uniu. Olhem para o outro, escolham-no, desejem-no, mesmo depois de décadas. Porque o segredo de um casamento feliz não está apenas no amor — está no desejo contínuo, na atenção, no cuidado silencioso que mantém a chama acesa.
E é assim que eu a desejo, hoje, amanhã e pelos próximos anos que tivermos. A minha mulher, a minha Ester, a mulher que me faz sentir jovem mesmo com 61 anos. A mulher que é o meu segredo, o nosso segredo, e o que mantém a minha vida viva.
Veja também:
A minha enteada de 25 anos tenta seduzir-me nas costas da mãe: «Tenho medo de cair em tentação»