Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real.
Depois do nascimento dos nossos gémeos, o Lourenço e o Santiago, a distância instalou-se entre mim e a Sofia... Hoje partilhamos uma casa, uma rotina, duas crianças cheias de vida — mas já não partilhamos o toque. Vivemos juntos, dormimos na mesma cama, mas há quatro anos que os nossos corpos não se encontram de verdade. A certa altura deixei de perceber quando é que o toque deixou de ser natural e passou a ser uma tentativa. Quando é que o amor passou a viver num corpo mudo, incapaz de atravessar o espaço que nos separa.
Quando conheci a Sofia, éramos duas forças a puxar uma para a outra. Ela tinha aquela leveza rara de quem parece não carregar o peso do mundo. Falava depressa, ria alto, fazia-me acreditar que nada era impossível. Tinha um brilho nos olhos que desarmava qualquer hesitação minha. No início, tudo era fácil: bastava um olhar e já sabíamos o que o outro sentia. O desejo vinha naturalmente, sem esforço. Tocávamo-nos com ternura, com curiosidade, com aquela fome boa de quem está a descobrir o outro pela primeira vez. Havia amor, respeito, vontade — e uma intimidade que não precisava de ser explicada.
Os primeiros anos foram um tempo luminoso. Éramos cúmplices, parceiros, amantes. Tínhamos os nossos rituais — o café demorado ao domingo, as conversas de madrugada, as viagens de última hora. Falávamos sobre o futuro como se o mundo fosse nosso por direito. Mas o tempo trouxe responsabilidades, trabalho, cansaço, horários que nunca batiam certo. E ainda assim, mesmo no meio do caos, havia sempre um momento para o toque: um abraço rápido na cozinha, um beijo antes de sair de casa, uma mão pousada no ombro que dizia “estou aqui”.
Tudo mudou quando a Sofia engravidou. Descobrimos que eram gémeos, e o que devia ser um motivo de alegria tornou-se um teste à nossa resistência. A gravidez foi dura. Ela passou meses em repouso, cheia de medo de perder os bebés, com o corpo em permanente sobressalto. Eu tentava estar presente, mas a verdade é que não há manual para lidar com o medo da pessoa que se ama. À medida que o corpo dela se transformava, também o nosso relacionamento se transformava — e não de forma suave.
No início, a Sofia aceitava as mudanças com um certo orgulho. Mas, à medida que os meses avançavam, o cansaço tornou-se visível, e com ele veio um olhar diferente — uma espécie de tristeza silenciosa que não dizia o nome. O parto acabou por ser uma cesariana de emergência. Lembro-me do pânico, das horas à espera de notícias, do som simultâneo dos choros dos nossos filhos a encher a sala. Foi o dia mais intenso da minha vida. Quando a vi depois, pálida, com um sorriso frágil, percebi que nada voltaria a ser como antes.
Os primeiros meses com os gémeos foram um turbilhão. Dormíamos por turnos, comíamos o que havia, esquecíamos o tempo. Ela estava esgotada. O corpo doía-lhe, a cicatriz demorava a sarar, e o espelho tornou-se o seu pior inimigo. Tentava esconder-se quando se vestia, apagava as luzes quando eu entrava no quarto. Eu dizia-lhe que estava linda, que nada do que via mudava o que sentia, mas as palavras caíam no chão, sem força para a alcançar.
O corpo dela ficou marcado — estrias, celulite, o peito mudado, a pele sem firmeza — e com isso vieram as sombras. Ela, que antes se sentia viva e livre, passou a mover-se como quem pede desculpa por existir. E eu, sem saber como agir, fui-me calando.
Durante meses tentei aproximar-me. Toques leves, tentativas tímidas de recuperar o que tínhamos. Mas sempre que o fazia, ela afastava-se. Dizia que estava cansada, que não se sentia pronta, que não queria que eu a visse assim. Às vezes virava-se para o outro lado da cama e fingia dormir. Outras, deixava escapar um suspiro cansado que me desarmava completamente. Aprendi a não insistir. Achei que o tempo resolveria tudo. Que o amor, por si só, encontraria caminho. Mas o tempo passou, e a distância tornou-se hábito.
Já lá vão quatro anos sem intimidade. Quatro anos em que os nossos corpos se habituaram à ausência, em que o toque se transformou em memória. Vivemos lado a lado, como parceiros de uma rotina que não exige emoção — apenas presença. Cumprimos o papel de pais com dedicação. Somos uma equipa eficiente, atenta, amorosa com os gémeos. Mas entre nós há um silêncio que nenhum gesto preenche.
De manhã, cruzamo-nos na cozinha: ela prepara o leite das crianças, eu faço o café. As conversas são curtas, funcionais, precisas. À noite, jantamos os quatro, rimos com as histórias dos miúdos, partilhamos aquele tipo de alegria simples que só os filhos conseguem dar. Depois de os deitarmos, ficamos lado a lado no sofá, cada um preso ao seu ecrã. Quando chega a hora de dormir, apagamos as luzes, viramo-nos para lados opostos e deixamos o sono vir.
Às vezes procuro-a. Há noites em que o desejo ainda aparece, não por hábito, mas por saudade. Aproximo-me com cuidado, pouso-lhe a mão no braço, tento que o gesto soe natural. Mas ela fecha-se, corta o contacto. Não me afasta com palavras duras, apenas com o corpo — um afastar discreto, quase impercetível. E nesse instante percebo que não é desinteresse, é vergonha.
A Sofia não se sente bem no corpo que a maternidade lhe deixou. Nunca perdeu o peso da gravidez, nunca recuperou a confiança. E o pior é que já nem tenta. Evita roupas justas, evita o espelho, evita a luz. Evita-me. Como se o meu olhar pudesse ser uma ameaça.
E eu fico ali, dividido entre o amor que ainda sinto e a frustração de não saber o que fazer com ele. Porque não há culpados. Não há uma discussão, nem um erro. Só uma erosão lenta, quase invisível, que foi apagando a vontade. No lugar do amor visível ficou uma calma triste, uma aceitação silenciosa.
Hoje percebo que o silêncio se tornou parte da nossa linguagem. Falamos através dos gestos do dia-a-dia: ela faz o jantar, eu trato dos banhos, partilhamos responsabilidades, não emoções. E, no entanto, continuo a amá-la. Continuo a vê-la como a mulher que me fez querer ser pai, companheiro, melhor homem.
Às vezes olho para ela e penso que o corpo dela mudou, sim — mas o que sinto não mudou nada. Só queria que ela soubesse disso. Queria que acreditasse quando lhe digo que continua bonita, mesmo com as marcas, mesmo com o cansaço. Que o amor não depende da forma, mas da presença.
O que me dói não é a falta de sexo. É a ausência do gesto, o medo dela do meu toque. O que me dói é saber que ela se esconde de mim, quando tudo o que quero é fazê-la sentir-se viva outra vez.
Mas o amor, aprendi, não se impõe. Às vezes é preciso esperar. Às vezes é preciso apenas continuar — mesmo quando o toque não vem, mesmo quando o silêncio pesa. E é isso que faço: espero. Porque, apesar de tudo, ainda acredito que um dia a Sofia se olhe de novo com ternura. E quando isso acontecer, estarei aqui — como sempre estive — à distância de um toque.
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