Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Nádia e amo profundamente o meu marido. Estamos juntos há quinze anos — quase metade da minha vida — e ainda hoje sinto aquele conforto quente no peito quando ele me sorri ou quando se senta ao meu lado no sofá ao fim do dia. O Bruno é o meu porto seguro, o homem que esteve lá em todos os momentos importantes, o pai dedicado dos nossos dois filhos, o trabalhador incansável que faz contas mentalmente antes mesmo de a conta da luz chegar. Mas há algo que escondo dele. Um segredo tão pequeno que parece ridículo… e tão grande que, se ele descobrir, não sei como vai reagir.
Conhecemo-nos quando eu ainda era adolescente. Ele tinha mais cinco anos, já era «quase adulto» aos meus olhos, mas crescemos na mesma zona, nos arredores de Lisboa, e partilhávamos amigos. Eu era a tímida do grupo, sempre escondida atrás de um sorriso envergonhado. Ele era o palhaço, o que fazia todos rir, o que segurava a guitarra nas festas e tocava meia dúzia de acordes só para impressionar. Apaixonei-me antes mesmo de perceber o que era amor. E quando começámos a namorar, parecia inevitável — como se o mundo tivesse decidido que éramos um do outro. Anos depois, casámos, juntámos sonhos e contas numa casa só, e construímos a família que sempre quisemos.
Hoje, a nossa vida é estável. Temos empregos seguros, ordenados que chegam certinhos no fim do mês, e uma rotina tão marcada que às vezes sinto que os dias são fotocópias uns dos outros. Mas depois da prestação da casa, da água, da luz, do gás, da creche da mais nova e das explicações do mais velho… sobra pouco. E o que sobra, o Bruno guarda religiosamente, como se cada cêntimo fosse um soldado em formação. Ele repete sempre: “Temos de poupar, Nádia. Ou não queres ir de férias no próximo verão?”
Eu quero, claro que quero. Mas há uma parte de mim que também quer viver antes das férias chegarem. Porque há um luxo pequeno, quase infantil, do qual eu não consigo abrir mão: uma boa refeição.
Não é extravagância. Não são restaurantes caríssimos. É… prazer. Sou apaixonada por cozinhas do mundo, por sabores que nunca experimentei, por pratos que me levam, na primeira garfada, a sítios onde nunca estive. E cada vez que sugiro irmos comer fora, recebo o sermão inevitável: “Para quê gastar dinheiro? Cozinha-se em casa.”
E eu cozinho. Cozinho sempre. Mas não é a mesma coisa.
Desde a pandemia, tenho a regalia de trabalhar alguns dias a partir de casa. E é aí, exatamente aí, nesse intervalo microscópico de liberdade, que o meu segredo ganha vida. À hora de almoço, quando a casa está silenciosa, quando o eco das rotinas ainda não começou a esmagar-me os ombros, quando não há mãos pequenas a chamarem “mamã” nem tarefas à espera de serem feitas, eu pego no telemóvel e… encomendo.
Pequenas loucuras. Um ramen fumegante, que me aquece por dentro como se me devolvesse um pedaço de mim. Um pad thai picante, que me lembra que ainda sei sentir entusiasmo. Uma pizza com massa tão fina que quase se desfaz, como se o mundo pudesse ser leve por alguns minutos. Um tártaro de salmão que nunca teria coragem de recriar na minha cozinha sempre cheia de tachos, mochilas e pacotes de leite meio vazios.
É nesses momentos que sinto algo que a rotina já não me dá há muito: felicidade pura. Uma felicidade simples, instantânea, sem perguntas nem obrigações.
Porque o resto da minha vida é uma repetição quase coreografada: fechar o computador às seis, correr para ir buscar os miúdos, negociar mochilas, lancheiras e birras no carro, chegar a casa e ir direita aos banhos, enquanto o Bruno arruma as compras ou responde aos e-mails que ficaram pendurados. Depois vem o jantar — sempre às pressas, sempre com alguém a reclamar de legumes —, seguido da cozinha para arrumar, da mochila para preparar, da roupa da mais nova para escolher. Levo a pequena para a cama, cantamos a mesma música de sempre, espero que adormeça, e quando finalmente me deito… o sono nem sempre chega antes do peso da exaustão.
E no dia seguinte? Acontece tudo outra vez.
Por isso, aquele almoço secreto é mais do que comida. É um escape. Uma pequena rebelião. Um lembrete de que ainda existo para além dos horários, das contas, das rotinas, do papel de mãe, mulher, profissional, tudo ao mesmo tempo. É o meu ritual de sobrevivência.
E talvez por isso o guardo com tanto cuidado — porque naquele momento, com o aroma da comida a preencher a cozinha vazia, sinto-me leve, inteira… e vivo um pedaço de vida que é só meu.
Não dura muito — uma hora, no máximo. Mas basta.
E depois? Depois escondo as embalagens no ecoponto antes de ele chegar, limpo o aroma da cozinha com o exaustor, volto ao computador e faço de conta que almocei sopa, como ele acredita. Parece um segredo inofensivo. E talvez seja. Mas conheço bem o Bruno. Ele é bom, é honesto, é trabalhador… e é agarrado ao dinheiro como se estivesse sempre a um passo de perder tudo. Ele faz contas, planeia, projeta, teme. E eu… eu só quero viver um bocadinho.
Se ele descobre? Não sei como vai reagir. Talvez ache que o traí de alguma forma. Talvez sinta que não confio nele. Talvez pense que estou a desperdiçar o nosso esforço. Talvez seja o fim.
Por isso, continuo a guardar este pedaço de mundo só para mim. Pago as contas, ajudo no que posso, contribuímos os dois para a casa que construímos juntos. Mas reservo uma parte do meu ordenado para esta pequena rebeldia que me mantém inteira. Este luxo que só eu entendo. Este segredo que, por agora, é meu — e apenas meu.
Não sei se um dia vou ter coragem de contar ao Bruno. Mas hoje, enquanto abro uma embalagem ainda quente de comida nepalesa, sinto que não estou a enganar o meu marido. Estou a salvar a minha alegria. E às vezes — só às vezes — isso pode ser suficiente para me salvar a mim... e ao meu casamento.
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