Farto-me de trabalhar, mas nunca sobra dinheiro: «A minha mulher gasta tudo em roupas e no cabeleireiro»

  • Carina Oliveira
  • 9 nov, 09:05

Por agora, continuo a tentar construir um futuro que parece escapar-me entre os dedos

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.

Conheci a Gabriela numa festa de verão, na Ericeira. Um amigo comum tinha arrendado uma casa junto ao mar, e entre música, conversas e copos, ela apareceu — uma presença impossível de ignorar. Trazia um vestido branco leve, o cabelo solto a dançar com o vento e um sorriso que parecia saber o efeito que causava. Falava alto, ria-se de tudo e todos, e tinha aquele brilho nos olhos de quem acredita que a vida está sempre prestes a começar. Eu, mais contido, observava-a à distância até que alguém nos apresentou. Falámos pouco nessa noite, mas o suficiente para eu perceber que queria saber mais sobre ela.

Dias depois, voltámos a encontrar-nos por acaso em Lisboa, numa exposição de arte contemporânea. Era o território dela — pintora, sonhadora, com uma visão do mundo que eu nunca tinha conhecido. Saímos para jantar, trocámos confidências, e a certa altura ela disse-me: “Tu és demasiado sério. Devias rir-te mais.” Acho que foi nesse momento que me apaixonei. Pela leveza, pela ousadia, por aquilo que me faltava.

Casei com a Gabriela dois anos depois. Eu já trabalhava como advogado, por conta própria, e a instabilidade era o preço da liberdade. Ela pintava, entre fases inspiradas e outras de silêncio. Tivemos um filho e mudámo-nos para um apartamento maior, com varanda e vista para o Tejo. Era a vida que eu sempre quis — ou que pensei querer.

Mas o tempo foi mostrando as diferenças entre nós. Eu vivo a fazer contas, ela vive a ignorá-las. Eu acordo a pensar nas faturas, ela acorda a pensar na cor que vai usar nas unhas. Trabalho de sol a sol, aceito todos os casos, mesmo os que pagam mal, só para garantir que não falta nada. O problema é que nunca sobra nada.

A Gabriela gosta de se ver bem. E eu gosto de a ver feliz — o problema é o custo dessa felicidade. São as idas constantes ao cabeleireiro (“não aguento ver as raízes!”, diz sempre), as roupas novas todas as semanas, as unhas de gel sempre impecáveis, as massagens pós-parto que se tornaram rotina e as escapadinhas que ela jura serem “essenciais para o nosso bem-estar”. Eu compreendo — durante muito tempo, quis acreditar que a beleza dela era o reflexo da nossa vida. Mas agora vejo que é uma fachada que me está a sufocar.

O dinheiro entra, mas sai com a mesma velocidade. Tento explicar-lhe, com paciência, que precisamos de poupar, pensar no futuro, garantir os estudos do nosso filho. Ela responde com um beijo rápido e diz: “O dinheiro vai e vem, Gonçalo. A vida é agora.” E eu fico ali, dividido entre o amor e a frustração, entre o desejo de protegê-la e a vontade de gritar.

Há dias em que sinto que carrego o peso de dois mundos — o dela, leve e colorido, e o meu, feito de prazos e preocupações. Quando chego a casa tarde, encontro-a no sofá, com um copo de vinho e música no ar, a dizer-me que preciso de relaxar. E eu olho para ela e penso que talvez tenha razão. Que talvez a vida seja mesmo isto — uma tentativa constante de equilíbrio entre o que queremos e o que conseguimos ter.

Mas depois lembro-me do filho a dormir no quarto ao lado, do futuro que ainda não construímos, e o medo instala-se. Tenho medo de envelhecer a trabalhar e de nada sobrar. Medo de acordar um dia e perceber que o amor não chega para pagar as contas.

Mesmo assim, há algo que me prende a ela — talvez o riso fácil, o toque leve, ou a forma como ainda me olha como se eu fosse o homem que a vai salvar de tudo. E é nessa ilusão que continuamos: ela, a sonhar com uma vida bonita; eu, a tentar sustentar o sonho.

Talvez um dia consigamos recomeçar — de forma diferente, mais simples, mais nossa.

Mas, por agora, continuo a trabalhar sem parar, a tentar construir um futuro que parece escapar-me entre os dedos.

E, no fundo, continuo a amar a Gabriela — mesmo quando o amor me custa caro.

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