Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais
Imaginem um grupo de amigos do liceu. Éramos inseparáveis: o Cláudio, o Kiko, a Dina e eu, que sou a Vera. Passávamos tardes no café do bairro, com cadernos abertos e cafés frios, a discutir política, filosofia, música e livros — como se o mundo estivesse sempre prestes a mudar e nós fôssemos os únicos capazes de entendê-lo. À noite, juntávamo-nos em casa uns dos outros, a jogar no computador, a rir, a debater, a sonhar com o futuro. Éramos jovens e curiosos, um bocadinho existencialistas, intensos demais para a idade, convencidos de que tínhamos dentro de nós as respostas que o mundo ainda procurava.
Eles diziam: “Vocês são umas miúdas mesmo bacanas.” E éramos. Eu e a Dina — umas maria-rapaz bem dispostas, sempre prontas a alinhar nas maluquices deles. Mas havia algo em mim que era diferente: eu era a “cérebro” do grupo, a que lia mais, pensava demais, escrevia demais. A “amiga inteligente”. E por muito que gostasse do rótulo, comecei a perceber, com o tempo, que ele também me limitava.
No 12.º ano, a Dina mudou de escola e fiquei apenas com o Cláudio e o Kiko. O Cláudio era especial. Muito ruivo, magrinho, com olhos que pareciam ver tudo e mais um pouco. Tinha uma doçura estranha, misturada com uma timidez que eu achava encantadora. Era o tipo de rapaz que parecia sempre a viver meio fora do mundo, com uma sensibilidade que o tornava diferente de todos os outros.
Eu escrevia poemas — sobre amor, amizade, o tempo, as injustiças que nos revoltavam. Ele lia-os, sorria e dizia: “Isto tem de ser uma canção.” E era. O Cláudio tocava guitarra, e juntos fazíamos música. Ele compunha, eu escrevia. Era uma espécie de simbiose perfeita. Demos alguns concertos no liceu, apenas para os colegas e professores, mas para mim eram o auge da vida. Estar ali, ao lado dele, a ouvi-lo cantar palavras que tinham nascido de mim, era como existir num sonho que eu não queria acordar.
Apaixonei-me. Claro que sim. A miúda gordinha e desajeitada, e o rapaz talentoso, sensível, que via beleza em tudo — menos em mim.
Mas éramos só amigos. Sempre amigos. Às vezes, os outros faziam piadas: “Vocês os dois deviam casar.” E ele ria: “A Vera é a minha melhor amiga, não sejam parvos.” Eu ria também, mas por dentro doía. Acreditava que mais cedo ou mais tarde ele ia perceber. Que um dia, de repente, ia olhar para mim e ver o que eu via nele.
O Cláudio quis fazer jornalismo. E eu, claro, também. Estudámos juntos, passámos noites inteiras em bibliotecas, a escrever, a sonhar com o futuro. Entrámos na mesma faculdade. O Kiko foi para Direito, e o grupo reduziu-se a nós dois. E eu adorei.
Durante três anos, fomos inseparáveis. Vivíamos entre cafés, debates, concertos e artigos para o nosso pequeno site — um projeto de crítica musical e cultural que criámos juntos. Ele escrevia sobre sons, eu sobre palavras. Era uma parceria perfeita. Às vezes achava que éramos almas gémeas, ligadas por algo que não se explicava, só se sentia. Eu escrevia, ele tocava. Eu sonhava, ele dava forma ao sonho com acordes e melodias.
Eu via o futuro e via-o sempre lá. A dois passos de mim.
Até aparecer a Mafalda.
Foi no quarto ano. Eu adoeci e fiquei de cama umas semanas. Quando melhorei, veio o Natal, viajei com a família e desliguei-me um pouco de tudo. Só voltei a ver o Cláudio em janeiro. Marcámos um café, e ele não veio sozinho.
“Quero que conheças a Mafalda”, disse.
Ela não tinha nada a ver connosco. Era influencer. Loira, magra, bronzeada em pleno inverno. Maquilhagem perfeita, unhas impecáveis, roupas caras. Uma presença luminosa, daquelas que chamam a atenção onde quer que estejam. O Cláudio olhava para ela com um brilho que eu nunca lhe tinha visto. E eu, ali, com a minha camisola de lã cheia de borboto e uns jeans que me apertavam, senti-me desaparecer.
Ela falava pouco — e quando falava, era sobre coisas que eu não entendia ou não queria entender: marcas, cremes, eventos, seguidores. Eu tentei puxar conversa sobre livros, música, política. Ela sorriu, educada, mas sem interesse. O Cláudio, que antes falava comigo durante horas sobre Camus, sobre Dylan, sobre tudo, riu-se e disse: “Vera, para com essas conversas chatas.”
E nesse momento, soube. O riso que antes me encantava agora pertencia a outra pessoa.
Nos meses seguintes, ele mudou. Deixou de usar as camisas largas e começou a vestir-se com estilo. Foi para o ginásio, ganhou corpo, mudou o cabelo. Deixou de ir a concertos, de escrever, de tocar comigo. O Cláudio que eu conhecia — o ruivo magrinho, o rapaz das palavras e das ideias — desapareceu. E no lugar dele ficou alguém que eu não reconhecia.
Tentei falar, tentei puxá-lo de volta, tentei lembrá-lo do que éramos. Mas ele afastou-se. Primeiro devagar, depois completamente. As chamadas rarearam, as mensagens deixaram de ter resposta. E de repente, já não havia “nós”.
Passaram-se meses. Depois anos. Nunca mais o vi.
Um dia, encontrei a Dina por acaso, no liceu onde agora ela dava aulas. Falámos da vida, do passado, e a certa altura ela disse, com uma ternura triste:
“Vera… sempre soube que o amavas. Mas ele viu-te sempre só como amiga.”
O Cláudio e a Mafalda vivem juntos. Ele é influencer também, agora fala de estilo de vida, viagens, marcas. Vão casar no próximo verão.
E eu… fiquei com as memórias. Daquilo que fomos. Daquilo que nunca seremos.
Dos dias em que ele tocava as minhas palavras e parecia que o mundo inteiro cabia ali.
Há amores que nunca chegam a acontecer, mas deixam uma marca que não desaparece. O meu chama-se Cláudio.
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