Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real.
Não pensei que o nome dele ainda me fosse causar alguma coisa, e, no entanto, quando vi a notificação no ecrã, o coração bateu como antigamente — entre o susto e o sorriso, como se o tempo tivesse recuado trinta anos.
Bento.
O homem com quem vivi três anos intensos quando éramos jovens, cheios de sonhos, planos tolos e risos intermináveis, e que depois se perdeu de mim como areia escorrendo pelos dedos. Depois da separação, perdemos completamente o rasto um do outro; por anos, apenas fragmentos da vida dele chegavam até mim por histórias de conhecidos, notícias dispersas, pequenos sinais quase imperceptíveis que me lembravam que ele existia, que continuava a viver noutro lugar, longe de mim, mas nunca totalmente fora da minha memória.
E agora, aos 48 anos, a sua mensagem surgia como um fio invisível que puxava todos aqueles anos de volta: “Ainda penso em ti, às vezes.”
Fiquei a olhar para o telemóvel como quem segura um fósforo aceso, sem saber se devia apagar ou deixar queimar. Seis palavras, simples, mas carregadas de décadas de lembranças, paixões e silêncios.
Lembrei-me de cada riso, de cada discussão, das noites longas e dos sonhos que tínhamos construído juntos, das viagens improvisadas, das músicas que enchiam a nossa casa de riso e conversa, e do silêncio que se instalou depois da separação, quando cada um de nós tomou a sua vida e deixou o outro para trás.
Agora o Bento reaparecia sem pedido de desculpas, sem promessas, apenas testando a temperatura da minha memória. Durante dias não consegui responder. Lia e relia a mensagem, tocando numa ferida antiga para ver se ainda doía — e doía, mas de outra maneira. Não era a dor aguda do abandono, era uma nostalgia delicada, quase dolorosamente doce, uma lembrança de quem fomos e de como o tempo, impiedoso, nos transformou.
Enquanto isso, a minha vida atual era um contraste inquietante que só tornava a nostalgia mais cruel. Tenho 48 anos, estou casada, mas o meu casamento é feito de silêncios e rotinas vazias, um vazio preenchido por obsessões que não me incluem.
O meu marido vive obcecado com maratonas, treinos, tempos e metas, como se todo o mundo pudesse ser medido em quilómetros, enquanto eu gasto horas a cuidar de mim — unhas feitas, cabelo arranjado, roupas escolhidas com cuidado — apenas para, depois, ir… a lado nenhum, para jantares que não existem, encontros que se desfazem na monotonia do dia-a-dia, conversas que nunca se prolongam. É um casamento sem assunto, sem chama, um espaço partilhado onde o tempo é preenchido pelas obsessões dele e pelo vazio que sobra para mim, e cada gesto de cuidado próprio parece uma tentativa inútil de existir num espaço que já não é meu.
E então voltou o Bento.
Escrevi apenas: “Também penso em ti, às vezes.” Nada mais, sem exclamações, sem perguntas, mas o simples ato de digitar aquelas palavras fez-me estremecer, fez-me sentir viva de um modo que meu casamento já não conseguia há anos. Quando ele respondeu, contando de fotos antigas, viagens e músicas que ouvimos juntos, falando como se o tempo não tivesse passado, senti novamente o peso da mulher que fui e da vida que não vivemos juntos. Troquei algumas mensagens, hesitantes, cheias de entrelinhas, rimos das mesmas coisas, recordámos os mesmos lugares, e inevitavelmente ele perguntou: “Podemos ver-nos?”
Olhei para o ecrã, o coração traidor acelerou, mas veio a lucidez: o que eu sentia já não era amor, era saudade da mulher que acreditava que o amor bastava, que ainda podia ocupar um lugar no mundo de alguém que me olhasse de verdade. Apaguei a conversa. Não por raiva, mas por paz. Não queria estragar o que restava: uma lembrança intacta, livre das desilusões que viriam se eu dissesse “sim”.
Às vezes, ainda penso nele — sim, penso —, mas penso como se se pensa num filme antigo que marcou a juventude: com carinho, sem vontade de reviver, sem esperança de retorno. Há pessoas que não voltam porque já cumpriram o papel que tinham na nossa história. Bento foi a minha primeira grande paixão, e eu fui o amor que ele nunca soube segurar. Agora cada um segue o seu caminho, e, de vez em quando, talvez pensemos um no outro, mas é só isso, porque há amores que se eternizam no passado justamente por nunca terem sobrevivido ao presente.
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