Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real.
Chamo-me Verónica, tenho 43 anos e vivo com o David, que tem a mesma idade, e com o nosso filho, o Enzo, de 13. Somos uma família normal — daquelas que tentam equilibrar trabalho, escola, contas e sonhos. Durante muitos anos, o David teve um emprego estável num escritório. Ganhava bem, era responsável, metódico. Sempre o admirei por isso — pela forma como cuidava de nós.
Mas há cerca de dois anos tudo começou a mudar. O David começou a chegar a casa esgotado, apático, irritado com tudo. Dizia que o ambiente no trabalho o estava a destruir, que já não aguentava a pressão, a rotina, as pessoas. Aos poucos, fui vendo-o apagar-se. Até que um dia, sem aviso, decidiu sair. Disse-me que não podia continuar, que precisava de cuidar da cabeça, que queria respirar e recomeçar.
Apoiei-o. Achei que era justo — a saúde mental vem antes de tudo. Falou-me de um sonho antigo: abrir um pequeno negócio de restauração, um espaço simples, com comida boa e alma. Fiquei entusiasmada, confiante de que aquele seria o renascimento dele. Mas, com o passar dos meses, comecei a perceber que o “tempo para cuidar de si” se transformava num vazio sem fim. O sonho ficou preso em palavras, promessas e planos que nunca saíram do papel. E eu comecei a sentir que estava a ser a única a carregar o peso de um futuro que já não era partilhado.
Hoje, o David passa os dias em casa. Acorda tarde, faz o café devagar, como se o simples ato de viver fosse já um esforço. Depois senta-se à mesa da sala, liga o computador e mergulha no ecrã. Passa horas entre jogos, vídeos e fóruns — um mundo onde parece encontrar alguma paz ou, talvez, apenas esquecimento. Às vezes levanta-se, arruma qualquer coisa, faz o almoço, vai buscar o Enzo à escola. Pequenos gestos que me dão a ilusão de movimento, mas que, no fundo, não escondem o vazio dos dias.
No início, eu sentia pena. Dizia a mim mesma que ele precisava apenas de tempo — umas semanas, talvez meses — para se recompor e reencontrar a motivação. Mas agora já passou mais de um ano. E o que antes era compreensão começa a transformar-se em outra coisa: irritação. Uma raiva silenciosa de ver alguém que amo escolher não tentar. Às vezes invejo-lhe o luxo do tempo — esse tempo que eu já não tenho.
Quando chego do trabalho, encontro-o quase sempre no mesmo sítio, com a mesma expressão cansada, os olhos sem brilho. Tento puxar conversa, perceber se avançou com algum passo do tal projeto de restauração, mas as respostas são sempre as mesmas: “ainda estou a ver”, “falta tratar de uns papéis”, “quando for o momento certo, avanço.” Cada frase dessas é uma pequena punhalada na paciência. Já não sei se ele acredita mesmo no projeto ou se apenas aprendeu a viver à sombra da minha força.
O que mais me dói não é o facto de ele não trabalhar — é vê-lo sem direção, como se tivesse perdido o fogo que sempre o guiou. Às vezes olho para ele e quase não o reconheço. Está ali o homem que amo, o pai do meu filho, mas é como se a vida lhe tivesse ficado suspensa num lugar onde não sei chegar. E o amor, mesmo o mais forte, começa a cansar quando é sempre um só a empurrar o mundo.
Entretanto, as contas não esperam. É o meu salário que paga tudo: casa, escola, despesas, supermercado. Tenho conseguido segurar o barco, mas começo a sentir o peso. E, mais do que o cansaço, é a preocupação com o futuro que me tira o sono. O que vai acontecer quando o dinheiro dele acabar? E se nunca mais encontrar um caminho? Às vezes pergunto-me se ele tem consciência disso, se percebe realmente o que eu carrego. Outras vezes acho que prefere não pensar.
O Enzo já começa a perceber mais do que eu gostaria. Já o ouvi perguntar: “Mãe, o pai não trabalha?” Tento disfarçar, digo que está a pensar num novo projeto, mas ele observa, percebe. Tenho medo do exemplo que isto lhe está a dar. Medo de que cresça a achar que desistir é normal, que o mundo se acomoda. E, por dentro, às vezes apetece-me gritar: “Não, filho, o pai desistiu.” Mas logo me sinto culpada por pensar assim.
Há dias em que tento puxar o David para fora dessa bolha, nem que seja por um instante. Sugiro que saiamos para jantar, que demos uma volta a três, que planeemos um fim de semana diferente. Ele aceita, às vezes até sorri, mas no olhar há sempre uma sombra. Parece fazer tudo por mim e pelo Enzo, mas nunca verdadeiramente por ele. Como se estivesse a representar uma versão antiga de si próprio — aquela que ainda sabia o que queria da vida.
O Enzo cresce, faz perguntas, observa os adultos com aquela curiosidade atenta dos 13 anos. Tento proteger o pai, evitar que ele sinta vergonha, mas o silêncio entre eles torna-se cada vez mais evidente. O David tenta compensar com pequenos gestos — leva-o à escola, joga consola com ele, pergunta pelas notas — mas percebo que o Enzo sente falta de algo maior: da admiração. Do exemplo.
Eu, por minha vez, sinto-me presa entre o amor e a inquietação. Trabalho todos os dias, chego cansada, mas mantenho tudo de pé — a casa, as contas, a rotina. E, no entanto, há momentos em que me invade um cansaço que não é físico, é emocional. O cansaço de segurar o mundo sozinha. E, junto dele, o ressentimento — essa sombra que se instala devagar, entre o amor e a desilusão.
Às vezes deito-me e fico a olhar para o teto, a pensar como chegámos aqui. Não há culpa, não há mágoa profunda — só esta sensação de perda lenta, invisível, como uma maré que recua sem ruído. Ainda o amo, sei disso. Mas amar alguém que desistiu é uma forma de solidão difícil de explicar. É amar contra o peso da desistência do outro.
Apesar de tudo, continuo a acreditar que o David vai reencontrar o seu caminho. Que um dia vai acordar, olhar à volta e perceber o quanto ainda pode fazer, o quanto ainda vale. Tento lembrar-me de quem ele foi, e dessa lembrança tiro forças. Mas, cada vez mais, o amor que sinto mistura-se com o cansaço de o sustentar sozinho.
Por enquanto, continuo a pagar as contas, a cuidar do Enzo e a manter a casa viva. Faço-o por nós três, porque ainda acredito que há um “nós” por salvar. Mas dentro de mim há uma pergunta que não me larga: até quando consigo aguentar sozinha?
Não quero desistir do David. Ainda vejo nele o homem que conheci — o que me fazia rir, o que sonhava alto. Sei que está a lutar com algo que não sabe explicar. Mas há dias em que me sinto sozinha, esgotada, a sustentar não só a casa, mas também o peso da esperança. E, no fundo, é isso que mais me assusta — amar alguém que parece ter deixado de lutar pela própria vida.
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