O meu nome é Íris. Sou alcoólica: «Perdi tudo o que tinha. Perdi o amor da minha vida»

  • Redação V+ TVI
  • 19 out 2025, 09:04

As escolhas erradas do passado marcaram a vida desta mulher, mas desistir não faz parte dos planos para o seu futuro

Todas as semanas, publicamos um conto ficcional sobre o amor, a partir de um caso real

Sou a Iris. Tenho 34 anos. Estou num caminho de sobriedade difícil, a recuperar de um vício que me roubou a dignidade e quase destruiu a minha vida. Olhar para trás é como caminhar por um corredor escuro, cheio de lembranças desfocadas pelo álcool, memórias que se misturam entre o riso e a dor, entre a normalidade e o desastre. Toda a minha família era alcoólica. Só agora consigo ver isso com clareza. Na aldeia pequena onde nasci, parecia natural, até inevitável. Era assim que todos viviam, e para nós, crianças, o consumo era encorajado: “Para nos tornarmos fortes”, diziam.

Lembro-me das refeições em casa como se ainda pudesse sentir os aromas e o calor da cozinha. Ao almoço, uma garrafa de vinho aberta sobre a mesa, depois o digestivo a fechar o momento. Ao fim do dia, cerveja, aguardente e, de novo, vinho ao jantar. Era rotina, ritual, costume. Nos almoços de fim de semana em família, todos levavam álcool. “Já provaste este licor? Já experimentaste esta aguardente?”, perguntavam tios, cunhados, avós. Havia vinho, cocktails, cervejas durante toda a tarde. Ficávamos corados, falávamos alto, ríamos descontroladamente, como se a bebida nos desse licença para sermos alguém diferente. E, de certo modo, dava. Mas aquilo moldava-me, transformava-me, e eu não percebia ainda como.

O vinho aquecia-me, soltava-me, dava-me confiança. A timidez que me pesava desaparecia num gole. Sem ele, sentia-me vulnerável, ansiosa, incapaz de enfrentar o mundo. Era um hábito diário, e eu não me achava diferente — afinal, todos bebiam. O álcool tornou-se meu conforto, o meu companheiro silencioso, o meu refúgio, o único capaz de me acalmar e preencher o vazio que carregava dentro de mim desde criança.

Quando vim estudar para Lisboa, sentia-me perdida e ansiosa. E, como sempre, encontrei no álcool um porto seguro. A cidade só reforçou o padrão: saídas à noite, álcool como companhia constante, tolerância crescente. Beber tornou-se automático — uma resposta a tudo: ansiedade, exames, conversas difíceis, o peso de me sentir responsável pela própria vida. Até que uma noite, a Raquel, minha colega de casa, disse:
“Iris, bebes tanto. Tens que ter atenção.”

Fiquei zangada, senti-me atacada. Mas algo naquela frase mexeu comigo. Uma pontada de verdade que eu ainda não queria admitir.

O problema tornou-se mais evidente numa noite que jamais esquecerei. Eu estava a conduzir, confiante, acreditando que nada poderia dar errado. Mas o carro não se comportava como devia, e rapidamente percebi que estava visivelmente alterada. O polícia que me abordou olhou-me com aquele misto de severidade e preocupação que só quem já viu demasiado consegue ter.
“Tenha atenção aos consumos,” disse-me, num tom firme mas preocupado. Sorri, disfarçando a tensão, e continuei a acreditar que podia controlar. Para mim, tudo parecia natural, inevitável. O álcool era parte de mim, do meu ritual diário, da forma como enfrentava o mundo. Eu sentia-me segura, confiante — mesmo enquanto me punha em perigo.

O Xavier, meu namorado, tinha hábitos diferentes. Bebia bastante à noite, mas durante o dia era sóbrio, controlado. Eu, por outro lado, precisava de álcool a toda hora. Comecei a disfarçar o hálito com chicletes e rebuçados, a esconder garrafas, a inventar desculpas sobre encontros com amigas ou o quanto tinha bebido nos jantares com amigos no restaurante. Cada mentira pesava, mas parecia necessária. Cada reunião, cada telefonema, cada expectativa se tornava uma batalha silenciosa, e eu bebia para enfrentar a vida. Por dentro, sabia que caminhava para algo que podia destruir-me completamente — e, ainda assim, continuava.

Eu e o Xavier fomos morar juntos. Estávamos muito apaixonados, e ele não sabia a verdade sobre o meu vício. Arranjei emprego numa agência de comunicação. Muito trabalho, muito stress. Bebia cada vez mais. No trabalho, todos me achavam divertida, expansiva. Ria-me das piadas, era o centro das atenções, mas por dentro sentia um vazio que só o álcool preenchia. Aos poucos, tornou-se impossível esconder o excesso. Lembro-me do jantar de Natal da empresa: completamente bêbada, sentindo olhares surpresos, preocupados, que eu ignorava. Semanas depois, o meu chefe disse, sério, sem qualquer traço de humor:
“Não podes beber a meio do dia. Nem aparecer a cheirar a álcool, especialmente antes de reuniões com clientes.”

Cada palavra era um golpe, mas eu continuava.

Os confrontos com o Xavier foram dramáticos. Ele reparou que eu bebia ao almoço, todos os dias. “Isso não é normal”, dizia. Tentava controlar-me nas reuniões familiares, saíamos à pressa quando ele percebia minha voz arrastada, antes que os pais dele se apercebessem. Quanto mais o Xavier tentava controlar esta loucura, mais ansiosa eu ficava, mais precisava de beber. As disvussões eram constantes. Eu prometia parar, portava-me bem alguns dias, depois recaía. Mentia para todos. Só queria sentir-me bem, mesmo que o preço fosse a minha própria destruição.

O trabalho tornou-se insustentável. Chegava sempre atrasada, falhava prazos, aparecia "alegre" nas reuniões. Fui despedida. E o Xavier, depois de dois anos, desistiu de mim. Eu implorei, chorei, mas ele afastou-se, saiu de casa. O meu Xavier, o amor da minha vida, o homem com quem queria ter filhos, viajar, construir uma família… desapareceu. De repente, estava sozinha: sem emprego, sem amor, sem família. Afundei-me ainda mais. Já não havia travões, nem pausas, nem limites. O álcool deixara de ser um acompanhamento discreto, uma sombra nos meus dias, e tornara-se o centro à volta do qual tudo girava. Já não era apenas vinho ou cerveja — essas bebidas suaves que outrora marcavam os meus serões. Agora precisava de algo mais forte, mais rápido, mais fundo. Era vodka, whisky, o que houvesse à mão. Qualquer líquido que prometesse alguns minutos de esquecimento.

Acordava com a garganta seca e as mãos a tremer, e o primeiro pensamento era o mesmo: preciso de beber. Não para festejar, não por prazer — mas para existir, para aguentar. O corpo já não me pertencia; pedia álcool como quem pede ar. E eu obedecia.

As garrafas começaram a multiplicar-se em casa: uma na cozinha, outra no quarto, outra na casa de banho, escondida atrás das toalhas. Eu escondia-as como quem esconde um segredo vergonhoso, mas no fundo sabia que o segredo já me dominava. As manhãs eram nevoentas, as tardes longas, as noites infinitas. Bebia para dormir, bebia para acordar, bebia para não sentir.

O álcool deixara de ser um escape — tornara-se uma prisão. Um abismo silencioso que me atraía sem pedir licença, que me chamava com uma voz doce e enganadora. Eu mergulhava nele com a ilusão de encontrar paz, mas só encontrava mais escuridão. Sentia-me sugada, submersa num mar espesso de culpa e embriaguez. O tempo passava e eu deixava de saber em que dia vivia, que horas eram, que pessoa eu tinha sido.

Às vezes chorava, sozinha, sentada no chão da cozinha com uma garrafa meio vazia ao lado, tentando lembrar-me do momento exato em que tinha perdido o controlo. Não havia resposta. Só aquele silêncio pesado, denso, que o álcool parecia querer preencher — mas nunca conseguia.

Foi então que a Raquel interveio.

Ela, que tinha visto tudo — os meus silêncios, as chamadas não atendidas, as mentiras disfarçadas em gargalhadas — percebeu que eu estava a desaparecer. Não de um dia para o outro, mas aos poucos, como uma vela que se apaga sem ninguém reparar.

A Raquel não desistiu de mim. Apareceu em casa numa manhã em que eu ainda cheirava a álcool e vergonha. Olhou em volta — garrafas vazias espalhadas, o chão sujo, eu encolhida no sofá, com os olhos vermelhos e o cabelo colado ao rosto. Não disse nada durante uns segundos. Depois, com uma firmeza que eu nunca lhe tinha visto, disse apenas:
“Chega, Íris. Vais comigo. Agora.”

Tentei recusar, tentei inventar desculpas, mas a voz dela não tremia. Senti-me pequena, exposta, vulnerável.

Levou-me à força a um terapeuta — literalmente. Pegou-me pelo braço, ajudou-me a vestir, guiou-me até ao carro. No caminho, eu chorava e tremia, parte por medo, parte porque o corpo já pedia álcool. A minha cabeça girava, o coração batia rápido, e uma parte de mim queria fugir. Mas a Raquel não me deixou.

O consultório era frio, cheio de luz branca. Lembro-me de sentir vergonha, de não conseguir levantar os olhos. O terapeuta ouviu-me sem me interromper, e foi a primeira vez em muito tempo que alguém me olhou sem julgamento. Falou-me de detox, de tratamento, de um lugar onde podia começar de novo. As palavras soavam impossíveis, mas havia nelas uma promessa de que talvez — só talvez — ainda houvesse esperança.

Aceitei porque já não tinha forças para recusar. Entrei em detox poucos dias depois.

Foi a coisa mais difícil que já fiz na vida. O corpo gritava, a mente implorava, cada célula parecia exigir o veneno que a matava. Passei noites em branco, suada, com dores, tremores, memórias distorcidas a invadir-me. Chorei, gritei, pensei em desistir dezenas de vezes.

Mas a Raquel estava lá. Sentava-se ao meu lado, em silêncio, enquanto eu me desfazia em lágrimas. Dizia apenas: “Um dia de cada vez, Íris. Só isso.”

E assim começou — não uma cura, mas uma travessia. Afastei-me da família, porque os meus hábitos lá eram normalizados, aceitáveis, e isso só reforçava o meu vício. Cada dia sem álcool tornou-se uma batalha. Cada manhã, um passo; cada noite, uma conquista silenciosa. Há recaídas que ameaçam derrubar tudo, há tentações escondidas em cada esquina, mas aprendi que um dia de cada vez é suficiente.

Hoje, vivo um dia de cada vez. Aprendi que pedir ajuda não é fraqueza, que a recuperação é possível mesmo quando tudo parece perdido. Que a minha vida vale mais do que qualquer garrafa. Que não estou sozinha. Que posso voltar a sentir-me inteira.

E, sobretudo, aprendi que um dia de cada vez é suficiente. Um dia de cada vez para me reencontrar. Um dia de cada vez para voltar a ser eu mesma.

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