Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Nunca pensei que, depois de vinte anos de casamento, me visse a praticar atos tão simples… sozinho. Mas a verdade é que, quando fechei a porta do meu apartamento alugado — ainda a cheirar a tinta barata e a madeira húmida — percebi que o Natal se aproximava com passos lentos e inevitáveis. E eu, Manuel, cinquenta e dois anos feitos em outubro, ia vivê-lo sem ninguém. Pela primeira vez.
A Graciete teria gostado disto, pensei. Ou talvez não. A verdade é que ainda me custa pronunciar o nome dela sem sentir um nó a apertar-me a garganta. Vinte anos de vida partilhada — uma vida que, sim, eu estraguei. Não adianta dourar a pílula: traí-a. Fiz o que sempre jurei que não faria. E quando ela descobriu, toda a estrutura que achava sólida desabou num instante. Os meus filhos, já adultos mas ainda agarrados à ideia de família unida, ficaram do lado dela — como era natural — e neste primeiro Natal pós-divórcio decidiram, todos, que a mãe precisava mais da companhia deles do que eu.
E talvez precisasse mesmo.
Mas eu… eu precisava de fugir.
Sem pais, sem irmãos, sem ninguém que me telefonasse a insistir que fosse lá “nem que fosse só para comer um prato de sopa”, descobri este buraco de silêncio onde agora vivo. Uma espécie de purgatório com cortinas de estore, frigorífico vazio e uma televisão que insiste em anunciar brinquedos e perfumes a cada cinco minutos.
Foi numa dessas noites de insónia, sentado no sofá emprestado pelo meu primo, que decidi: vou viajar no Natal. Não por aventura — nunca fui homem disso. Mas para não ouvir a própria solidão a bater à porta.
Escolhi a Madeira. Não sei bem porquê. Talvez porque a Graciete sempre quis ir e nunca fomos. Ou talvez porque o nome me soou suficientemente longe para eu desaparecer durante uns dias, mas não tão longe que me parecesse irresponsável.
No dia 23, fiz as malas com mais cuidado do que o necessário. Dobrava a roupa como se dobrasse mágoas. Enfiei no bolso interior do casaco o bilhete de avião e respirei fundo. “Nunca pensei…”, murmurei para o silêncio da sala. “Nunca pensei passar o Natal sozinho.”
O avião levantou voo com uma leveza que eu já não sentia há anos. A dada altura, pela janela, o Atlântico parecia uma manta imensa e escura, e senti-me pequeno, mas estranhamente livre.
Quando aterrei no Funchal, o cheiro a mar misturado com flores — mesmo em dezembro — deu-me um murro suave no peito. As ruas tinham luzes por todo o lado, vermelhos e dourados pendurados nas árvores, como se alguém tivesse decidido que a noite precisava sempre de brilhos.
Instalei-me numa pensão simples, com paredes caiadas e uma varanda minúscula. A dona, uma senhora baixa e redonda, perguntou-me se vinha visitar família.
— Não — respondi, com um sorriso torto. — Vim visitar-me a mim próprio, acho eu.
Ela riu, sem compreender. Ou compreendendo demasiado.
Passei o dia 24 a andar sem destino. Sentei-me num café no Mercado dos Lavradores, onde o aroma a maracujá e a bolo de mel parecia puxar-me para memórias que não existiam. Comprei uma fatia de bolo tradicional só porque sim — e arrependi-me logo, porque sabia a Natal, e eu estava a tentar precisamente esquecer-me dessa palavra.
Ao final da tarde subi até ao Monte de teleférico. Lá em cima, sentei-me num banco frio, a ver o Funchal acender-se pouco a pouco, como se alguém fosse riscando fósforos invisíveis. Foi aí que me caiu a ficha: estava mesmo sozinho. Não num sentido trágico — mais como quem faz uma descoberta silenciosa.
E lembrei-me de como, todos os anos, eu e a Graciete discutíamos sobre as luzes da árvore. Ela queria pisca-pisca, eu preferia luzes fixas. Pequenas guerras domésticas que na altura pareciam importantes. Hoje… hoje pareciam sussurros vindos de outra vida.
Na noite de Natal, jantei num restaurante pequeno, meio escondido numa travessa, onde a televisão passava um programa antigo de música madeirense. Comi peixe-espada com banana e bebi poncha sozinho numa mesa de canto. E, pela primeira vez em meses, senti que não precisava de fugir de nada.
Depois caminhei até junto do mar. O vento era fresco, quase cortante, mas agradável. A cidade brilhava atrás de mim. O mar avançava e recuava como se me chamasse, e eu deixei-me ficar ali, encostado ao corrimão, a ouvir o barulho das ondas.
Foi então que me ocorreu uma ideia quase absurda: falei com a Graciete. Não liguei — não quis estragar-lhe a noite. Mas falei, em voz baixa, como quem pede desculpa a um fantasma.
— Nunca pensei que isto fosse acontecer, sabes? — murmurei, olhando o horizonte. — Mas estou a tentar. Estou a aprender a estar comigo.
Não houve resposta, claro. Mas senti-me… leve. Um pouco.
Voltei ao quarto perto da meia-noite. A dona da pensão deixara um pequeno embrulho à porta: um bolo de mel embrulhado em papel celofane. “Para não passar o Natal sem um doce”, dizia um bilhete.
Sentei-me na varanda e comi uma fatia, a ver o reflexo das luzes na baía. Ali percebi que, apesar de tudo, o mundo continuava a ser um lugar onde pequenos gestos existiam. E que talvez, só talvez, eu pudesse aprender a existir nele como um homem diferente.
Fechei os olhos e deixei que o vento quente da ilha me tocasse o rosto. Pela primeira vez em muito tempo, não senti que devia estar noutro lugar.
E pensei:
“Nunca pensei que o primeiro Natal sozinho pudesse ser, afinal, um recomeço.”
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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