Vivo com um homem por dinheiro: «Não o amo. Nunca amei. Mas sou feliz e não quero voltar a ser pobre»

  • Redação V+ TVI
  • 22 out 2025, 12:36

De repente, tudo mudou

Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre amor, a partir de casos reais

Chamo-me Eliana e nasci numa família miserável. Morávamos num T1 húmido, com as paredes cheias de bolor, no meio de um bairro esquecido. Nunca tive um quarto só meu — dormia num sofá na sala, ao lado da televisão velha que o meu pai raramente desligava. Em casa havia gritos, discussões, violência. A minha mãe fazia limpezas, o meu pai bebia demais. Cresci a acreditar que a vida era aquilo: sobreviver, calar, aguentar.

Quando conheci o Marco, só queria que ele me salvasse. Eu tinha 18 anos, ele 26. Trabalhava nas obras, era calmo, tinha um carro pequeno mas próprio — e para mim isso parecia luxo. Casei aos 19, sem pensar duas vezes. Queria fugir de casa, ter o meu espaço, deixar de ouvir os gritos do meu pai e as lágrimas da minha mãe. Mudei de casa, sim, mas continuei no mesmo bairro. O nosso apartamento era um T1, mas ao menos tinha um quarto só para mim.

A minha mãe fazia limpezas em casas de famílias em Lisboa e eu comecei também. Passaram-se dez anos assim — dez anos de panos e lixívia, de mãos gretadas, de sonhos pequenos. Tive a minha filha, a Daniela, e por ela aguentei tudo. Mas o Marco foi-se apagando, tornou-se ausente, amargo, como o meu pai. Até que um dia me disse que queria separar-se. Tinha outra mulher e ia ser pai. Chorei, claro. Mas, no fundo, foi a melhor coisa que me podia ter acontecido.

Pela primeira vez, pensei em mim. Resolvi mudar a minha vida. Uma amiga disse-me que numa clínica de estética em Lisboa precisavam de uma rececionista. Candidatei-me. Fui. Fiquei. A minha filha ficou com a minha mãe — o meu pai já tinha morrido — e eu mudei-me para Lisboa, para um quarto alugado.

A clínica parecia outro mundo. Tudo branco, limpo, luminoso. As paredes eram lisas, o chão brilhava, e havia sempre um silêncio tranquilo, interrompido apenas pelo som delicado dos saltos das clientes. O ar cheirava a flores e a perfume caro, e a receção estava sempre impecável, com arranjos de rosas brancas e velas acesas.

As mulheres que lá iam pareciam saídas de revistas — cabelos perfeitos, pele sem falhas, roupas de marca. Falavam baixo, riam de forma discreta, e tinham aquela confiança natural de quem sabe que pertence a um mundo onde tudo é bonito e caro. Eu olhava para elas com uma mistura de inveja e fascínio. Perguntava-me como era viver assim — sem medo de abrir a carteira, sem vergonha de ser vista, com a certeza de que se é alguém.

Enquanto as atendia, reparava nos detalhes: os anéis de diamantes, as carteiras de pele, os telemóveis de última geração. E pensava que nunca ninguém olhava para mim como olhava para elas. Eu era invisível, apenas a rececionista que sorria e dizia “bom dia”. Mas, ao mesmo tempo, sentia dentro de mim uma vontade nova — uma ambição que nunca tinha sentido antes.

Queria ser como elas. Queria acordar bonita, cuidar de mim, vestir-me bem, ser tratada com respeito. Queria ser uma daquelas mulheres que entram num sítio e toda a gente repara. Queria, pela primeira vez na vida, sentir que valia alguma coisa.

E foi ali, naquele lugar, que percebi que talvez pudesse transformar-me noutra pessoa — alguém mais bonita, mais confiante, mais livre.

O médico, o doutor Bernardo, era simpático, distinto, sempre impecável. Um dia, ao fim do expediente, chamou-me ao consultório: “Eliana, chegou um filler novo para os lábios. Quer experimentar? Sem custos.”
Disse que sim. Experimentei. E adorei. Olhei-me ao espelho e vi, pela primeira vez, uma versão de mim que nunca tinha visto. Lábios vermelhos, carnudos, olhar confiante.

Ao longo dos meses seguintes, fui a “cobaia” do doutor. Fui mudando. Poupei dinheiro, fiz tratamentos, arranjei os dentes, o nariz e, um dia, até uma cirurgia aos glúteos. Comprei roupa nova, aprendi a maquilhar-me, a andar de saltos, a cuidar de mim. Os homens começaram a olhar para mim na rua. Quando me olhei ao espelho, vi uma mulher bonita. Linda, até — parecia uma atriz de novela.

A Cátia, a outra rececionista, era o oposto de mim — divertida, atrevida, cheia de vida. Falava alto, ria ainda mais alto, e parecia sempre saber o que dizer e o que vestir. 

Um dia, depois do trabalho, enquanto arrumávamos o balcão e trocávamos olhares cansados, a Cátia virou-se para mim e disse:
— “Vens comigo a um bar novo hoje? Só gente gira e homens com dinheiro.”

Ri-me, meio sem saber o que responder. Hesitei. Disse-lhe que não tinha roupa, que não fazia o meu género, que estava cansada. Ela riu-se:
— “Tens roupa, sim. E estás ótima. Tens de começar a viver, Eliana. A beleza serve para alguma coisa, acredita.”

Fiquei a pensar naquilo o resto do dia. Quando cheguei ao quarto alugado, abri o armário e olhei para o vestido justo que tinha comprado num impulso meses antes, mas nunca tivera coragem de usar. Senti o coração acelerar. Talvez fosse altura de arriscar. De me deixar ver.

Vesti-me com cuidado — maquilhei-me, arranjei o cabelo, pus perfume. Quando me olhei ao espelho, quase não me reconheci. A mulher que me olhava de volta parecia segura, quase poderosa. 

Quando cheguei ao bar com a Cátia, adorei aquele mundo. Luzes suaves, música elegante, pessoas bonitas por todos os lados. As mulheres usavam vestidos curtos e saltos altos; os homens cheiravam a colónia cara e falavam com voz calma, como quem está habituado a ser ouvido. Eu fiquei um pouco à margem no início, observando, tentando não parecer deslocada.

Sentei-me ao balcão. Ao meu lado, um homem pediu-me licença. Baixo, de cabelo grisalho, nariz grande, mas simpático. Chamava-se Fernando. Disse que era empresário do Norte. Pagou-me uma bebida, depois outra. Conversámos, apenas isso. Trocámos números.

Semanas depois, recebi uma mensagem dele. Vinha a Lisboa e queria ver-me. Convidou-me para jantar num restaurante da moda. Fui. Recebeu-me com uma prenda — uma pulseira de ouro, fina, com um “E” de Eliana. Jantámos. Ri-me, senti-me bonita, desejada, importante. A noite terminou num hotel, de lençóis acetinados e cheiro a flores caras. Eu estava deslumbrada — com o restaurante, com a pulseira, com o relógio dele, com o Ferrari lá fora.

Durante meses, o Fernando vinha a Lisboa e encontrávamo-nos. Trazia-me presentes: uma carteira, um vestido, um colar. No Natal, uns brincos de diamantes. Um dia convidou-me para ir viver com ele para o Norte. Chorei de alegria. Era tudo o que eu queria. 

Mudei-me para um casarão na Foz do Porto, daqueles que só tinha visto em revistas. Portões altos, jardim cuidado, cheirava sempre a flores frescas. Dentro, tudo parecia saído de um sonho: candeeiros de cristal, cortinas pesadas, tapetes macios, e uma escadaria que rangia de leve quando eu subia descalça. Tenho empregadas que tratam da casa, uma decoração luxuosa pensada ao detalhe, e um closet enorme só para mim, cheio de vestidos, malas e sapatos alinhados por cor.

Não precisamos de casar — os filhos dele não querem, dizem que traria complicações ao negócio. Eu respeito. O Fernando dá-me uma mesada generosa e pôs vários apartamentos em meu nome, para que eu fique sempre confortável, mesmo que um dia ele me falte. No fundo, o que importa é o conforto, a estabilidade, o silêncio das noites sem preocupações. Tenho uma casa linda, roupas de marca, joias, dois carros de luxo parados na garagem e um motorista sempre que preciso. Às vezes, ainda me espanto: olho à minha volta e custa-me acreditar que sou a mesma rapariga que cresceu num T1 húmido e sonhava apenas com um quarto só para si.

Mandei buscar a minha filha; agora anda num bom colégio, tem tudo o que eu nunca tive. O Fernando trata-me bem. É generoso, protetor. Eu trato dele com carinho, sou atenciosa, discreta. Viajamos, vamos a restaurantes Michelin, passo férias em hotéis de luxo. Tenho uma vida que nunca imaginei ter.

Às vezes, deito-me ao lado dele e olho o teto, lembrando-me do sofá onde dormia em pequena, das mãos feridas de limpar casas, das vezes que sonhei com uma vida melhor. E percebo que, de alguma forma, cheguei lá.

Não o amo. Nunca amei. Mas sou feliz — ou, pelo menos, tão feliz quanto alguém que sempre lutou pela sobrevivência consegue ser.

Estou com ele por dinheiro, sim. E talvez, depois de tudo o que vivi, essa tenha sido a forma mais segura que encontrei de nunca mais voltar a ser pobre.

Veja também: 

Afinal havia outra — e a outra sou eu: «Ando com um homem casado e não consigo deixá-lo»

O meu nome é Íris. Sou alcoólica: «Perdi tudo o que tinha. Perdi o amor da minha vida»

Relacionados

Confissões

Mais Confissões