Todas as semanas, publicamos contos ficcionais sobre o amor, a partir de casos reais.
Chamo-me Viviana e, desde que me lembro de existir, nunca existi sozinha. Existia sempre “nós”. Eu e a Bibiana. Crescemos numa pequena aldeia do norte, daquelas onde toda a gente se conhece pelo nome, onde as portas ficavam encostadas e os dias cheiravam a lenha queimada no inverno e a terra quente no verão. Duas caras iguais a correr pelos caminhos de cabras, a ir juntas para a escola primária com a mochila às costas, a brincar na rua até anoitecer enquanto as mães chamavam das janelas. Partilhámos o quarto, os brinquedos, os segredos. Na escola, sentávamo-nos na mesma carteira, copiávamos os apontamentos uma da outra, trocávamos olhares cúmplices quando alguém fazia uma pergunta difícil. Desde cedo, a aldeia dizia que éramos “as gémeas”, como se fôssemos uma só pessoa em duplicado — e talvez, durante muito tempo, tenhamos acreditado que éramos mesmo.
Éramos inseparáveis. Não por obrigação, mas por escolha. Enquanto outras irmãs discutiam, nós entendíamo-nos em silêncio. Criámos o mesmo grupo de amigos, ríamos das mesmas coisas, apaixonávamo-nos pelas mesmas músicas, pelos mesmos sonhos. Sempre dissemos que queríamos casar no mesmo dia. Parecia uma fantasia de miúdas — até deixar de ser.
Aos 27 anos, cumprimos o plano. Dissemos “sim” juntas. Eu ao Luís, ela ao Zé. Duas cerimónias lado a lado, duas noivas iguais, duas histórias diferentes que começaram no mesmo instante. Hoje, vivemos no mesmo bairro. Eu tenho duas filhas, a Bibiana tem um casalinho. Passamos férias juntos, fins de semana juntos, jantares de domingo quase obrigatórios. Os nossos maridos brincam dizendo que casaram com um “pacote completo”. Somos, aos olhos de todos, uma família perfeita.
Mas há um segredo. Um segredo que só nós as duas conhecemos. E que nunca, nunca contamos a ninguém.
No final da adolescência, quando começámos a despertar para o mundo das paixões, a nossa ligação era tão intensa que parecia não ter fronteiras. Continuávamos a vestir roupas semelhantes, a usar o cabelo do mesmo modo, a rir das mesmas piadas. Para quem nos via de fora, éramos quase indistinguíveis; para nós, isso era um jogo silencioso que nos dava uma estranha sensação de poder. Foi nessa fase, ainda imaturas, ainda a tentar perceber quem éramos separadamente, que começámos a brincar com limites que hoje reconheço como perigosos.
Às vezes acontecia sem planeamento, quase como uma travessura mal pensada. Um rapaz aparecia à porta à espera de mim e acabava por sair com a Bibiana. Um encontro marcado por ela terminava comigo, sem perguntas, sem suspeitas. Havia risos nervosos depois, confidências sussurradas no quarto, aquela adrenalina própria de quem sente que está a fazer algo proibido — não por crueldade, mas por inconsciência. Não era maldade. Não era desejo de enganar por prazer. Era curiosidade, era vaidade juvenil, era a sensação de sermos especiais num mundo pequeno onde quase tudo era previsível. Era também aquela perceção estranha de que, sozinhas, éramos apenas mais uma rapariga da aldeia, mas juntas éramos um enigma.
Ninguém nunca desconfiou. Nem amigos, nem colegas, nem os próprios rapazes. Éramos iguais na cara, no sorriso, na maneira de falar e até nos silêncios. E, talvez mais importante, ninguém acreditaria que duas irmãs fossem capazes de tal coisa. Aproveitávamo-nos dessa confiança implícita, dessa imagem de inocência que nos colavam. E quando, por breves momentos, surgia um peso no peito — uma dúvida, um desconforto difícil de nomear — afastávamo-lo com uma frase simples, quase infantil, dita em tom de absolvição:
— Éramos miúdas.
Repetíamo-la como quem fecha uma porta. Como se a juventude fosse uma desculpa suficiente para tudo. Como se o tempo apagasse automaticamente as marcas do que fizemos. Durante anos, acreditámos nisso. Só mais tarde percebemos que algumas coisas não desaparecem — apenas ficam guardadas, à espera de serem lembradas com outros olhos, mais adultos, mais conscientes.
Dizíamos isso uma à outra como se fosse um passe mágico que apagava qualquer responsabilidade. Como se a juventude justificasse tudo. E durante muito tempo acreditámos mesmo nisso.
Quando crescemos, quando a vida começou a pedir escolhas sérias, nunca mais voltámos a cruzar essa linha. Nunca. Cada uma construiu a sua relação com respeito, fidelidade, entrega verdadeira. Nunca traímos os nossos maridos. Nunca confundimos papéis. Mas o passado não desaparece só porque deixamos de falar nele.
Às vezes, quando o Luís brinca dizendo que, ao início, tinha medo de nos confundir… sinto um aperto no estômago. Quando o Zé comenta que somos “iguais demais para ser coincidência”, a Bibiana olha para mim com aquele olhar que só nós entendemos. Não é culpa. É receio.
Receio de que, se algum dia souberem, tudo mude.
Receio de que a confiança se estilhace.
Receio de que passem a olhar para nós e a pensar: E se já aconteceu comigo? E se beijei, toquei, confiei na irmã errada sem saber?
Esse pensamento persegue-nos mais do que o próprio segredo. Porque nunca foi sobre os rapazes do passado. Foi sempre sobre nós. Sobre até onde pode ir uma cumplicidade quando não conhece limites. Sobre como duas pessoas podem ser tão próximas que deixam de distinguir onde acaba uma e começa a outra.
Hoje, quando olho para as minhas filhas, sei que nunca lhes diria que “ser jovem” justifica tudo. Sei que há coisas que não se desfazem com o tempo. E sei que este segredo não é leve — é apenas silencioso.
Não contamos porque temos medo.
Não contamos porque amamos os homens com quem estamos.
Não contamos porque o passado não define quem somos… mas pode destruir o que somos agora.
Talvez um dia ganhemos coragem. Talvez nunca.
Para já, continuamos assim: duas irmãs, duas vidas felizes, um segredo partilhado apenas entre nós. E a esperança silenciosa de que fique para sempre onde está — guardado no lugar onde sempre viveu: entre eu e a Bibiana.
Este conteúdo contou com a participação de inteligência artificial na sua elaboração.
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